29 de março de 2016

Guerra Política - Exemplos práticos

Já é sabida por quem me segue a influência que tive de analistas e estrategistas políticos, tais como Saul Alinsky, Gramsci ou David Horowitz. Muitos, quando cito os dois primeiros, confundem um pouco as coisas e acreditam que eu seja algum tipo de comunista. Pelo contrário, me tornei anti-comunista tão logo percebi, na teoria e na prática, o quão perversa é a ideologia e o quão nocivas são as pessoas por trás dela. Já o Horowitz, que em minha visão é mais um conservador, foi provavelmente o primeiro sobre o qual tive conhecimento que percebeu, de forma brilhante, as mesmas coisas que eu, porém com mais clareza e método.

David é autor de "A Arte da Guerra Política", infelizmente não traduzido por nenhuma editora brasileira. No entanto você pode encontrar uma boa parte do conteúdo deste livro em um vídeo de Silvio Medeiros no Youtube e também no site do analista político Luciano Ayan

Para este artigo, elaborei uma coisa que talvez possa interessá-los. Muitas vezes quando falo em guerra política, algumas pessoas me perguntam sobre aplicações práticas, pedem exemplos. Geralmente eu os tenho na ponta da língua, mas para evitar ficar reescrevendo isso a toda hora, vou tratar dois deles aqui. No primeiro passo apontarei o evento ocorrido e suas falhas, no segundo irei mostrar como nós, liberais, poderíamos nos sair bem em uma situação similar. Aos trabalhos!


Exemplo 1 - Debate entre Luciana Genro e Levy Fidelix, 2014, Rede Record.


Primeiro, veja o vídeo:



Vamos ao quadro geral.


- O primeiro ponto é que a pergunta de Luciana para ele foi, obviamente, um ardil. Ela já conhecia sua posição e deixa isso claro quando diz, antes da própria pergunta, que não faria "conversa de comadres" com ele. Dito isso, temos que entender a razão pela qual ela escolheu esta pergunta, e tal razão é extremamente óbvia: Ela precisava de um bom motivo para se posicionar ao lado das pautas LGBT, então fazê-lo confessar seu preconceito seria a oportunidade perfeita.

Fidelix, por sua vez, é um idiota, não importa se você concorda ou não com ele - e espero que não concorde. Ainda que ele tivesse razão - e não tem, seu papel nesses três minutos de vídeo foi servir de ferramenta nas mãos de alguém que é extremamente inteligente. Sim, Luciana Genro defende ideias erradas, mas não é burra. Ela defende estas ideias por ser uma pilantra oportunista com sede de poder.


Aos 47 segundos, quando ele está ainda no início de sua resposta, dá para perceber no rosto de Luciana o seu triunfo. Ela mal consegue esconder a satisfação ao ver que Levy mordeu a isca. Os olhos e o sorriso acusam isso, e ela está certa em comemorar por dentro, pois sabe que o idiota à sua frente servirá bem ao seu propósito ali. Logo depois, quando ele diz que "aparelho excretor não reproduz", os olhos dela se arregalam, como se estivesse olhando para uma barra de ouro. Sim, é ouro mesmo!

O restante das declarações de Fidelix são pura derrota. Ele dá à Luciana absolutamente todas as armas quando usa os jargões da direita neoconservadora, quando diz que a maioria heterossexual tem que lutar contra a minoria LGBT, quando cita o Papa e ainda faz uma menção à pedofilia - como se fosse racional comparar uma relação consensual entre adultos com o abuso infantil. Chego a acreditar na possibilidade de que ele estivesse ali contratado, apenas para fazer esse papel.

Novamente, repito: não importa se você concorda ou não. Eu não concordo com nenhuma palavra que ele disse, mas do ponto de vista da Guerra Política, ele foi um idiota-útil benéfico para o PSOL. Ao utilizar todos os jargões e mencionar a religião cristã, Fidelix deu a ela tudo, absolutamente tudo o que ela precisava para reforçar o espantalho da "direita cristã homofóbica." É claro que ela não tinha a menor intenção em derrubar o próprio Fidelix, pois ele era insignificante. Sua intenção foi a de se posicionar, ganhar terreno e conquistar a confiança LGBT. O plano saiu exatamente como planejado, e hoje ela é a principal candidata à prefeitura de Porto Alegre.

Como nós, liberais, poderíamos nos portar diante de tal pergunta?

Tenho certeza de que a maioria dos liberais responde esta pergunta de forma bem objetiva, dizendo "Sim, não há problema algum em reconhecer a união homo-afetiva."

Ok. Não tem mesmo nenhum problema, mas isso aqui é Guerra Política. Lembra? Quando Luciana Genro te faz essa pergunta, ela não quer saber o que você pensa, pois já sabe. É até bem provável que ela não fizesse tal pergunta a um liberal, mas se fizesse, minha reação seria a seguinte:

1 - Ela pergunta.
2 - Na resposta, que tem um minuto, eu enrolaria um pouco e terminaria dizendo que não compreendi o teor da pergunta.
3 - Ela gastaria a réplica reformulando a questão.
4 - Na tréplica, eu rapidamente responderia a pergunta de maneira positiva, e em seguida a atacaria, dizendo: "Estranho essa preocupação vindo justamente de você, Luciana, que apoiou toda a ditadura chavista na Venezuela e apoia o seu sucessor, ambos homofóbicos assumidos. Sua preocupação não me parece muito legítima, candidata. Acho que está usando os homossexuais como peça de propaganda política."

Lembre-se que após a tréplica Luciana não teria mais espaço para reação. Eu teria jogado um rótulo na cara dela, e ela não poderia fazer absolutamente nada. Naquele momento, eu teria vencido e ela teria sido humilhada. Um conservador ou até mesmo um neoconservador poderia seguir exatamente este mesmo modelo, e poderia apenas não ser trouxa o suficiente para declarar em rede nacional uma guerra da maioria contra as minorias, ainda mais quando essa ideia é simplesmente estúpida.

Exemplo 2 - Debate patético entre Ciro Gomes e Rodrigo Constantino

Primeiro, o vídeo:


Visão geral.

- Este é um debate diferente. Não se trata de uma corrida eleitoral, nem mesmo é um debate propriamente político. Constantino, diferentemente de Ciro, estava ali na condição de economista, não de um político de carreira. São campos simplesmente distintos da razão e os debates aos quais Constantino estava acostumado, até o momento, eram os debates intelectualoides da internet ou as discussões acadêmicas.

Qual a diferença objetiva entre Ciro e Rodrigo?

O primeiro, Ciro Gomes, é um político hábil, orador excelente e dono de uma retórica impecável. Ele mente, e mente muito bem. É oportunista e dos mais espertos, além de ser um excelente articulador. Enquanto isso, Rodrigo Constantino era, até aquele momento, um intelectual de internet com vasto conhecimento em economia, e só. Você, que é liberal ou libertário, precisa entender que em um debate contra um político esperto e mal intencionado não há espaço para dialética, tampouco há espaço para academicismos e explicações técnicas. Essas ferramentas são neutralizadas num piscar de olhos por qualquer um que domine a arte da retórica.

Linguagem é tudo. Note que Ciro Gomes não prova nada do que diz, ele apenas escolhe bem as palavras e fala com convicção. Seu grande acerto, inclusive, foi ter controlado Rodrigo a partir do momento em que o desestabilizou. E quando foi? No exato momento em que ele pergunta ao economista de onde tiraria o dinheiro e como faria para economizar pelo menos um bilhão. Ciro sabe perfeitamente a resposta dessa pergunta, mesmo porque já está nesse meio há muito tempo. A razão de ele ter perguntado foi o simples fato de saber que um economista, por melhor que seja, dificilmente conhece os mecanismos subterrâneos da máquina pública. Ele tinha certeza de que Constantino não saberia responder objetivamente.

Mais importante, ainda, é a postura. Ciro Gomes foi agressivo, foi incisivo, enfatizou seus pontos e atacou Rodrigo o tempo todo. Quando Constantino começa a rir, como se estivesse a debochar nervosamente de Ciro, este lhe questiona novamente com "Tá rindo de quê?", e Rodrigo se cala. Um deles está atacando, fica na ofensiva, fazendo pressão e tirando toda a estabilidade emocional do oponente. Rodrigo perdeu o debate não por ser ignorante, mas por ser completamente fraco no que tange à uma boa retórica. Este episódio deve servir de exemplo para nós, pois acontecerá exatamente a mesma coisa se debates nesses moldes voltarem a ocorrer. Não teremos a menor chance diante de um espertinho como Ciro se apelarmos para essa argumentação racional inútil. E justiça seja feita, o próprio Constantino, anos depois, reconheceu que foi humilhado por um adversário superior. Bom para ele!

Qual seria a postura adequada para um liberal?

Supondo que eu fosse um economista convidado a debater com um político como Ciro, que é esperto e canalha, eu iria antes de mais nada pescar informações sobre sua carreira e seus feitos, buscaria saber de qualquer erro, qualquer deslize, qualquer mentira contada. Este é o primeiro passo. O segundo passo, ainda mais importante, seria analisar o discurso adversário. Eu pararia e assistiria seus vídeos, suas entrevistas, seus debates, e buscaria neles compreender o modo operante de Ciro. A partir disso, construiria uma linha de raciocínio para então levar ao debate.

É óbvio que mesmo assim eu poderia vir a ser surpreendido, pois trata-se de um político oportunista. Ele sabe se virar em apuros. Se a situação chegasse ao ponto em que chegou com Rodrigo, quando ele pergunta de onde tirar o dinheiro, eu prontamente o contra-atacaria, fazendo-o recuar ou forçando-o a se expor mais. Ficar na defensiva nestas circunstâncias seria um erro ridículo. Caso houvesse a oportunidade, eu usaria qualquer um dos erros que ele tenha cometido para desmoralizá-lo diante dos espectadores. E nessa hora, amigo, vale tudo, pois não se trata de uma discussão lógica que visa o convencimento de uma das partes, mas de uma disputa ideológica.

Meu papel ali não seria o de convencer Ciro, pois ele já sabe que está errado. Meu papel seria o de convencer a plateia, as pessoas que estão assistindo, de que ele é um canalha, um oportunista e um mentiroso. Inclusive daria para aproveitar o fato de que Ciro Gomes esteve sempre ao lado do governo da situação. Fez tudo o que pode para conseguir ser ministro de Lula em 2003. Foi ministro de Itamar Franco também. E quando FHC governava, sua oposição foi tímida até as eleições, quando se candidatou à presidência.

É importante reforçar também o fato de que, diferentemente do debate entre Luciana Genro e Fidelix, neste caso entre Ciro e Constantino um deles não está ali por razões políticas. Ciro queria votos, talvez não naquele momento, mas no futuro, Rodrigo queria apenas expor algumas verdades econômicas. Seu erro foi ter acreditado que poderia fazer isso de forma limpa, jogando sem trapaças.

A postura adequada para o economista, neste contexto, seria a ridicularização total do oponente, levando-o à contradições, fazendo-o mentir ou mesmo jogando em sua cara os erros cometidos durante sua carreira. Depois disso, aí sim, sobraria algum espaço para a análise econômica. Tal não seria possível, de modo algum, sem a necessária neutralização política do adversário. Para isso, daria para usar até mesmo o fato de que um economista não tem obrigação propôr soluções, enquanto o político chama para si essa responsabilidade. Cobrar do próprio Ciro as respostas, dependendo da situação, também serviria para colocá-lo em xeque e deixá-lo na defensiva.

Conclusão


Poderia ficar aqui citando outros inúmeros casos, mas não vejo necessidade. Creio que estes dois exemplos bastem, e recomendo que procurem acompanhar estes medalhões da extrema-esquerda moderna, tais como Ciro Gomes e Luciana Genro. Outro hábil orador e excelente manipulador é o socialista radical Marcelo Freixo, também do PSOL. Essas figuras podem ser detestáveis do ponto de vista ético, mas são hábeis na oratória, sabem articular bem suas falas e sabem atacar os oponentes.

Não precisamos e nem devemos imitá-los, mas devemos entendê-los para sabermos como revidar de modo eficaz. Os liberais e libertários têm o mau hábito de subestimar a esquerda, pois não enxergam a guerra política, acreditam que são um bando de tolos defendendo uma teoria que deu errado. Essa forma equivocada de enxergar nossos oponentes tem nos custado bem caro, e acho que já está na hora de começarmos a correr atrás do tempo perdido.




28 de março de 2016

Pautas Quentes | A narrativa anti-Moro e a farsa desmentida.

A clássica estratégia daqueles que são pegos com a boca na botija, mas que nem mesmo assim têm um pingo de decência, é atacar quem os desmascarou. Não por acaso tem sido esta a estratégia da esquerda brasileira em defesa de Lula, Dilma, do PT e contra o Impeachment.

Desde que Lula foi levado a depor coercitivamente e principalmente após a divulgação dos grampos telefônicos, a narrativa anti-Moro tem apelado aos mais baixos níveis, de provocações baratas até mesmo a incitação à violência. A ideia por trás disso é desgastar a imagem do Juiz, criando pressão política sobre ele para ver se ele recua ou, em última hipótese, se conseguem pará-lo, por bem ou por mal.

A alegação de ilegalidade nas ações de Sérgio Moro é uma narrativa persistente, mas carece de fontes fidedignas ou mesmo de qualquer embasamento técnico. Nem é preciso ser um especialista na área para desmontar essa afirmação, basta ser um bom pesquisador. Para isso, fiz um post na página Libertroll, no Facebook, onde expus alguns fatos. E não foram poucos os especialistas, até mesmo de esquerda, que negaram qualquer ilegalidade nas ações da Operação Lava-Jato. Até ministros indicados pelo próprio Lula, como Eros Grau, negaram que a publicação dos grampos seja ilegal. Ives Gandra Martins, outro grande jurista, disse o mesmo.

Esta, contudo, não é a principal fonte de ódio direcionada ao Juiz. No dia 18 de março, diante de milhares de petistas e atores contratados para fingirem apoiar o governo, o líder da CUT, Vagner Freitas, ao lado de Lula, disse "Nós vamos nos livrar do Moro" (veja o vídeo aqui), o que pode ser interpretado de várias maneiras. No entanto, se analisarmos uma das ligações interceptadas de Lula, na qual ele diz que conhece quem possa "dar um jeito" em Sérgio Moro, já podemos presumir uma ameaça clara à vida do Juiz.

Outra narrativa repetida, ainda persistindo no argumento de que o Juiz cometeu crime, é a que solicita sua prisão. Como bem pontuou Luciano Ayan, não se trata de um pedido real de prisão. Se fosse, o partido já teria entrado com o pedido na justiça há tempos. Eles sabem que Moro não será preso e nem é isso o que esperam conseguir. A tentativa é apenas desgastá-lo para poder, com isso, freá-lo ou fazê-lo recuar. Fazem uma aposta mais alta na esperança de levar os blinds da mesa através do puro blefe.

A verdade é que o PT não tem mais cartas, e quando Dilma nomeou Lula, o Juiz foi mais esperto e divulgou no mesmo dia as ligações que incriminam também a presidente. Se antes existia a desculpa de que Dilma não tinha qualquer envolvimento, agora ela não serve mais. Com a divulgação dos grampos (uma divulgação prevista em lei) ficou claro que Dilma está envolvida até o pescoço. No momento, a única coisa que podem fazer é blefar, por isso repetem o discurso de que "se Dilma cair vai ter isso" ou "se o Impeachment acontecer vai ter aquilo", sempre com tom ameaçador, tentando amedrontar quem pede pela saída do partido do poder.

Repito: É blefe. Nós temos uma quadra de ases, eles só tem um 2 e um 9 de naipes diferentes.


Em resposta a Russel Kirk.

O Portal Conservador publicou um texto de Russel Kirk no qual há uma crítica aos libertários, e este me foi mandado por um seguidor da Libertroll, o Isnar Machado. Ele me perguntou o que eu teria a dizer sobre o assunto. Já lhe respondi, obviamente, mas pretendo aqui expor de forma mais clara o que penso dessa crítica.

Primeiramente, Kirk não está errado.

É óbvio que discordo de sua visão sobre a necessidade do Estado - afinal, sou um libertário, não um conservador. Também discordo dos conservadores como Kirk no que diz respeito a conceitos vagos como "moral duradoura", e há um artigo de Joel Pinheiro sobre isso que torna desnecessário o meu aprofundamento. Contudo, há uma passagem nessa análise que considero bastante válida, e é esta:
"O que podemos afirmar, em geral, é que são anarquistas 'filosóficos' em trajes burgueses.[...] Buscam uma liberdade abstrata, algo que nunca existiu em civilização alguma - nem em qualquer povo bárbaro ou selvagem."
Liberdade abstrata, diria eu, é o termo mais apropriado para se referir ao movimento libertário. Claro que isso é generalização, mas toda generalização é também um exercício racional válido, pois não podemos descrever grupos sem apelar àqueles que ocupam a maior parte do espaço. Como venho criticando há muito tempo neste blog, a maior parte dos libertários mais radicais como eu ainda enxergam a realidade de maneira ideológica, o que é um erro. A ideologia jamais deve servir para descrever os fatos, pois nisso estaríamos incorrendo no mesmo erro de um fanático marxista. Ao contrário, é a ideologia que precisa, para se tornar aplicável, sucumbir à realidade. Foi isso que alguns dos principais teóricos socialistas do século XX entenderam, e foi por isso que o socialismo se tornou, hoje, uma ideologia hegemônica ou pelo menos presente até em lugares improváveis.

A crítica é válida, sobretudo porque a inobservância dos meios políticos ou, digamos, meios sociais para se atingir certas finalidades é destrutiva ao próprio desenvolvimento da proposta libertária. Se somos inimigos dos socialistas - e sim, nós somos! - precisamos atuar com vistas a torná-los menores, mais fracos, mais insignificantes e, acima de tudo, precisamos nos tornar uma opção viável. O mesmo vale para os neoconservadores (que não são, em absoluto, conservadores de boa estirpe como é o próprio Kirk), a quem também precisamos declarar guerra.

Aliás, vou até mais longe do que Kirk. Ele nos critica por sermos, segundo sua visão, revolucionários demais. Pessoalmente não vejo isso como o maior problema. Problema de verdade é sermos revolucionários inúteis, tal como são hoje os trotskistas do PCO. Muitos confundem o radicalismo com a total negligenciação dos meios para se atingir fins, o que é uma estupidez. PSOL é um partido socialista - também trotskista - extremamente radical, e em menos de dez anos de existência conseguiu uma quantidade razoável de cadeiras no Congresso, além de ser, apesar de pequenos, extremamente barulhento e politicamente influente. Na busca pelo totalitarismo, PSOL é um arma eficaz e certeira. Escreva o que digo: eles vão conseguir, a não ser que alguém os impeça. Se nós, libertários radicais, seguíssemos esse tipo de exemplo, Kirk não poderia ter nos criticado pela busca de uma liberdade abstrata.

Outra coisa importante nessa crítica aos libertários é a noção de que eles não primam tanto pelo resultado. É um apontamento interessante, pois considero essa a nossa maior falha. O fato de termos ao longo do tempo nos dedicado mais ao discurso radical do que às ações práticas é o que nos torna uma não-opção. Quero dizer com isso é que, não raramente, mesmo entre aqueles que concordam conosco, é comum encontrar quem opte por representantes que, digamos, são bem distante do que desejamos.

É o caso de Jair Bolsonaro, assim como foi o caso do Pastor Everaldo em 2014. Muitos são os libertários e liberais que caem na armadilha de apoiar o primeiro que aparece com alguma promessa do tipo. É burrice? Sim, é. No entanto ela é justificável num cenário onde não nos apresentamos como opção viável. Apoiar Jair Bolsonaro - e ele não é conservador, é um nacionalista imbecil - é um erro do ponto de vista libertário, até mesmo um liberal apoiá-lo ou mesmo um conservador já é errado. Só que não podemos nos queixar disso diante do fato de não termos, até o momento, nos colocado à disposição. As pessoas não fazem escolhas com base na razão, quem opta por Bolsonaro é quase sempre um desesperado que odeia comunistas e acha que ele irá destruí-los, mas que sequer conhece o fato de o próprio deputado ter indicado comunistas para o Ministério da Defesa.

No cenário ideal, teríamos opções e, acima de tudo, seríamos uma opção. E enquanto libertários evitarem esse caminho a tendência é que sejam massacrados, esquecidos ou simplesmente fiquem alheios a tudo gritando do lado de fora. Não é a toa que muitas pessoas inteligentes e sensatas nos veem como um bando de lunáticos estúpidos, como radicais burros ou como jovens desmiolados. Na maior parte das vezes, damos espaço para essas críticas ao elegermos como representante um completo idiota ao nível de Paulo Kogos. Se as pessoas tiverem esse tipo de tolice como ponto de referência a nosso respeito, sinto informá-los de que não teremos a menor chance.

É verdade que considero também uma abstração estes conceitos kirkianos, tal como "moral transcendente" ou "prudentes restrições", mas isso não vem ao caso. No futuro poderei fazer um texto critico aos conservadores, no momento não considero necessário pois não os vejo como adversários. Acredito, isto sim, que devemos nos apoiar naquilo que eles têm de bom, evitando o que têm de ruim. Ponto.



24 de março de 2016

DOSSIÊ | Marina Silva


Marina Silva é uma das fortes candidatas à presidência para 2018, provavelmente alguém com as maiores chances de levar a disputa para o segundo turno. Entretanto, não são muitos que conhecem sua trajetória. Este dossiê apresentará alguns fatos.
- Nascida no Acre, Marina iniciou sua carreira política como vice-coordenadora da CUT em seu estado. Ainda na década de 1980, filiou-se ao PT e se elegeu vereadora por Rio Branco. (Fonte)

- Já em 1990, elegeu-se deputada estadual no Acre com uma votação expressiva. Quatro anos depois, se elegeu como Senadora, cargo foi seu até 2011, embora tenha ficado parte do tempo afastada do Senado. (Fonte)

- Em 1º de janeiro de 2003, foi nomeada Ministra do Meio-Ambiente pelo presidente em exercício Luis Inácio Lula da Silva, do mesmo partido. (Fonte)

- Marina permaneceu ao lado do PT mesmo diante do escândalo do Mensalão, e só veio a sair em 2009, por razões completamente distintas. Em seu comunicado, afirmou que saia do partido por conta de suas políticas que não levaram em conta a preocupação com o "desenvolvimento sustentável." (Fonte)

- Em 2009, surgiu um movimento supostamente apartidário de cidadãos que pediam uma candidatura de Marina Silva à presidência. Este movimento chegou a influenciar o Partivo Verde Europeu para que este solicitasse a filiação de Marina ao PV brasileiro. Em 2010, ela se torna candidata à presidência da república, ficando em terceiro lugar na competição. O site do movimento, no entanto, permanece até hoje e já não é possível encontrar mais nada sobre o assunto nele. (Fonte)

- Desde 2011 existe um site chamado "Marina Silva Presidente", que é abertamente controlado pela própria Marina, apesar de se dizer um movimento supra-partidário. (Fonte)

- Em 2013 a Carta Capital publicou um artigo no qual expunha que integrantes do Coletivo Fora do Eixo, controlador da Mídia Ninja, possuíam interesse direto na campanha de Marina. Pablo Capilé chegou a dizer que colocaria Bruno Torturra, seu parceiro no Coletivo, como candidato pela Rede Sustentabilidade, o partido de Marina. Torturra afirmou claramente ser "marinista." Vale informar que Pablo Capilé e o seu Coletivo já foram acusados, inúmeras vezes e por vários ex-integrantes, de praticarem pressão psicológica, social e assédio moral, por vezes até mesmo assédio sexual e trabalhos análogos à escravidão, mas isso não impediu que Marina Silva prometesse um Ministério para o mesmo. (Fonte 1) - (Fonte 2)

- Em 2014, durante os debates, Marina afirmou em resposta ao candidato Aécio Neves que teria votado favorável à criação CPMF na época do governo FHC, argumentando que "fez isso pelo bem do povo que precisa de saúde." No entanto, isso é mentira. Ela votou contra. Por qual razão, então, Marina teria mentido a respeito disso, apesar de dizer que o imposto seria bom para o povo? A razão é que em 2014 o próprio PT, seu ex-partido, tentava novamente emplacar a CPMF, o que a motivou a defender a pauta, contrariando Aécio Neves, que na ocasião se posicionou contra. Marina teve, portanto, uma postura favorável ao PT, seja em 1999 ou em 2014, quando já nem estava mais no partido. (Fonte 1) - (Fonte 2) - (Fonte 3) - (Fonte 4)

- Ainda em 2014, surgiu na internet um site chamado "Marina Silva Mente", que tinha por intenção expor discursos mentirosos da candidata à presidência. Antes mesmo de as eleições acontecerem, ainda em setembro, Marina entrou com representação no TSE, exigindo a retirada do blog do ar e direito de resposta. O relator do caso deferiu em favor de Marina. Vale ressaltar o exagero de se usar dez (10) advogados para entrar com representação contra um blog, ainda mais com o intuito de violar a liberdade de expressão. (Fonte 1) - (Fonte 2)

- Também no ano de 2014, foi publicado no Diário Oficial da União o Decreto 8.243, que pretendia criar nove conselhos, aos quais seriam submetidas políticas públicas e obras do governo. Estes conselhos, chamados "conselhos populares", na realidade seriam integrados não por pessoas do povo, mas por movimentos sociais aparelhados pelo governo. Na prática, seria a criação dos sovietes, uma tática do Partido Bolchevique de Lênin para aparelhar sociedade e Estado, tirando atribuições do poder legislativo. É o totalitarismo em sua essência. O sociólogo Demétrio Magnolli, o jurista Ives Gandra Martins e o jornalista José Neumanne Pinto alertaram, na época, que tal projeto pretendia dar poderes ilimitados ao PT, mas Marina Silva aprovou a ideia e, inclusive, criticou o governo por não tê-la tomado antes. Felizmente, o Congresso derrubou a proposta em outubro daquele ano. (Fonte 1) - (Fonte 2) - (Fonte 3) - (Fonte 4) - (Fonte 5) - (Fonte 6) - (Fonte 7) - (Fonte 8) - (Fonte 9)

- Em agosto de 2015, Marina Silva concedeu entrevista à Folha de São Paulo e defendeu o mandato de Dilma, alegando que Impeachment é "golpismo" e dizendo que é uma tentativa de violar a democracia. Na mesma entrevista a ex-petista defende a saída de Eduardo Cunha (PMDB), então presidente da Câmara dos Deputados. O colunista e analista político Reinaldo Azevedo lhe deu uma boa resposta sobre o ocorrido. (Fonte 1) - (Fonte 2)

- Contrariando o mínimo da ética e do bom senso, poucos meses depois Marina muda completamente de opinião, passando então a defender não só a derrubada de Dilma, mas de toda sua chapa, incluindo então o vice-presidente Michel Temer. Em janeiro de 2016, uma matéria publicada pela Revista Fórum apresenta uma fala de Marina que dá a entender que a mesma sempre concordou com as acusações de corrupção na campanha eleitoral do PT, pois ela afirma querer a cassação por meio do TSE devido a estas irregularidades. O que não se explica, no entanto, é a razão de ela ter, mesmo assim, defendido o PT poucos meses antes, um bom tempo após as eleições e as acusações de corrupção eleitoral. Na mesma matéria ela também entra em completa contradição com o que havia afirmado meses antes para a Folha, afirmando que impeachment não é golpe por estar previsto na constituição. (Fonte)

- Após algumas pesquisas eleitorais que a apontam como líder na disputa eleitoral para 2018, Marina Silva passou a defender ainda mais energicamente a ideia de cassação de chapa por meio do TSE. A razão? Se isso chegar mesmo a acontecer até o fim deste ano, novas eleições serão convocadas, e isso a beneficiaria diretamente. (Fonte)

Conclusão: Marina Silva é, como tantos políticos, uma oportunista que mal consegue esconder suas intenções. Diferente do que prega em seu discurso, suas ações demonstram verdadeira ânsia pelo poder. Ela é, de fato, uma socialista radical que saiu do PT apenas por achar o partido moderado demais. Sua proximidade com radicais de esquerda como Pablo Capilé também evidenciam isso, e seu apoio ao Decreto 8.243 é uma prova bastante contundente. A "nova política" de Marina é na realidade uma roupagem para a velha política de sempre e para benefício do totalitarismo de esquerda.

22 de março de 2016

DOSSIÊ | Luciana Genro

Diferente do dossiê sobre Bolsonaro, este aqui seguirá em ordem cronológica, sugestão que me foi dada por uma leitora. Também diferente daquele, neste aqui deixo claro: onde está escrito (Fonte), se você clicar, abre o link para a fonte. Assim você não precisa me perguntar onde estão as fontes, pois elas estão todas anexadas ao texto.

 - Nascida em Santa Maria, Rio Grande do Sul, filha do político petista Tarso Genro, iniciou ainda jovem na militância estudantil através de uma corrente interna do PT, a Convergência Socialista, uma organização política de orientação trotskista, que por acaso é a precursora do próprio Partido dos Trabalhadores. (Fonte)

- Em 1994, Luciana Genro se elegeu deputada estadual e fez sua carreira como a maioria dos políticos de esquerda, se pautando em bandeiras sindicais, lutas por mais direitos e coisas do tipo. (Não é necessário fonte para isso)

- Em 2002 alçou carreira como deputada federal, ainda pelo PT. Logo depois veio a ser expulsa do partido por José Dirceu, por ser "radical demais", segundo ele próprio. No ano de 2003, junto com Heloisa Helena e outros ex-petistas, deu início a fundação do PSOL, Partido Socialismo e Liberdade, que só veio a ser consolidada em 2003. (Não é necessário fonte para isso)

- Em 2005, em pleno escândalo do Mensalão, o seu partido (PSOL) entrou com recurso contra Renan Calheiros e Sarney por... corrupção, ignorando completamente os membros do PT envolvidos no caso. (Fonte)

- Uma das maiores contradições de Luciana Genro (além do próprio Socialismo e Liberdade) é o fato de a mesma defender, em seu próprio site, o fim do financiamento privado de campanha ao mesmo tempo em que aceita doações da Gerdau e da Zaffari. Este fato foi amplamente divulgado, mas a esquerda se limitou a ignorá-lo, mesmo com a confissão da própria Luciana e uma tentativa não tão convincente de se justificar. (Fonte 1) - (Fonte 2) - (Fonte 3) - (Fonte 4) - (Fonte 5)

- Outra grande controvérsia de Luciana Genro é seu apoio ao ditador homofóbico Nicolas Maduro, da Venezuela. Em seu site ela escreveu em apoio total e irrestrito a ele, e há um vídeo bastante conhecido em que a psolista aparece, na Venezuela, fazendo campanha política para Maduro. No artigo publicado em maio de 2013, Luciana defende a Revolução Bolivariana, e critica o PT por ser, conforme ela, moderado demais. As provas de que Nicolas Maduro é homofóbico pode ser verificadas em diversos vídeos onde o presidente venezuelano aparece, ora insultando seus adversários políticos com pejorativos, ora incitando a população ao preconceito contra homossexuais. No Brasil, Genro se diz defensora das bandeiras LGBT. (Fonte 1) - (Fonte 2) - (Fonte 3) - (Fonte 4)

- Apesar de insistir na narrativa de que seu partido não é um aliado do PT, Luciana Genro apoiou Dilma no segundo turno em 2014. A mesma disse que ficaria neutra, mas deu instrução para "votar contra Aécio Neves", o que significaria, por concludência, votar em Dilma. (Fonte 1) - (Fonte 2)

- Em 2014, durante a corrida eleitoral, Luciana Genro deu entrevista ao programa The Noite, com Danilo Gentili, onde declarou que o seu socialismo "não é totalitário", e na mesma entrevista também negou que as experiências soviética e cubana sejam exemplos bem sucedidos de socialismo. Ela usou o clichê de que Marx foi deturpado (sim, disse isso, exatamente). Entretanto, em postagens feitas em seu próprio site, anteriores ao episódio, Genro mostra apoio total e irrestrito ao regime cubano - que, aliás, também perseguiu gays, matando-os muitas vezes. Há também fotos dela em Cuba, um delas bem conhecida. (Fonte 1) - (Fonte 2) - (Fonte 3) - (Fonte 4)

- Foram diversas as vezes em que Luciana Genro se posicionou contra o impeachment de Dilma Roussef. A mesma chegou a fazer textos em seu site desviando o foco para atacar Eduardo Cunha e outros políticos de outros partidos, e chamava impeachment de golpe até janeiro deste ano. Todavia, justamente no dia 21 deste mês, Luciana deu entrevista para o Clic RBS onde muda completamente seu discurso. Seria tal mudança motivada por fatos recentes divulgados contra o PT, ou tal mudança tem relação com o fato de que a psolista será candidata à prefeitura de Porto Alegre e quer tirar o corpo fora da linha de fogo? (Fonte 1) - (Fonte 2) - (Fonte 3) - (Fonte 4)

- Embora a "polêmica dos shortinhos" não possa ser diretamente atribuída à Luciana Genro, o caso do Colégio Anchieta, em Porto Alegre, ocorrido ainda este ano, é bem peculiar. Como que por mágica, justamente no ano em que a psolista concorrerá à prefeitura da cidade, surge um movimento de estudantes gerando uma polêmica, exigindo o "direito" de usar shorts curto em uma escola privada. Quem leu a carta do abaixo-assinado enviada pelas garotas pode facilmente observar o viés ideológico, nem de longe a ação foi espontânea. Além disso, como bem mostrou o site Senso Incomum, uma das líderes do movimento faz parte do Juntos!, uma corrente interna do próprio PSOL que atuou fortemente na campanha de Genro em 2014. (Fonte 1) - (Fonte 2)

Conclusão: Não é surpresa para quem conhece o modo operante da esquerda que Luciana tenha esses feitos em seu histórico. Se fôssemos fazer um dossiê sobre seu partido como um todo, a podridão e as contradições seriam ainda maiores. Além disso, criar arruaça e pequenos conflitos faz parte das táticas trostskistas, que Genro e o PSOL seguem abertamente. Este ano ela é a pessoa mais cotada para a prefeitura de Porto Alegre, concorrendo diretamente com Manuela D'Ávila, do PCdoB. Pessoalmente, julgo que a maior evidência de mau-caratismo é a defesa que Luciana faz das pautas socialistas e o seu apoio ao regime venezuelano, que além ser a causa de uma crise econômica e política devastadora é também controlado por um ditador homofóbico, alguém que, muito pior do que Bolsonaro, nem mesmo tem vergonha de dizer que não gosta de gays. Esquisito para alguém que se diz defensora das bandeiras LGBT.

20 de março de 2016

DOSSIÊ | Jair Bolsonaro


Este dossiê foi atualizado em 16 de julho de 2016. Dentre as modificações feitas está a mudança de ordem aleatória para ordem cronológica.
- O partido no qual Bolsonaro passou a maior parte de sua vida política foi o PP, Partido Progressista - antes com outros nomes, mas o mesmo partido. Curiosamente, é o partido com o maior número de políticos corruptos, vários deles ligados aos casos do Mensalão e da Operação Lava-Jato. (Fonte)

- Ficou conhecido no exército após iniciar um motim por aumento de salários. Chegou a ser preso, pois violou ordens de seus superiores, mas foi absolvido na Corte. Após isso, ele aproveitou a fama e virou vereador pelo PDC - Partido Democrata Cristão, em 1988. (Fonte)

- Em entrevista concedida ao programa Câmera Aberta, de 1999, Jair Bolsonaro disse, com todas as letras, que defende a guerra civil como única alternativa para resolver o problema do Brasil. Disse, também, que defende a morte de seus oponentes políticos e que por ele estaria tudo bem se alguns inocentes morressem. Outra coisa dita na mesma entrevista, sem tirar e nem por, é que para ele o voto não resolve coisa nenhuma, o que é estranho para alguém que já àquela altura estava em sua terceira legislatura como deputado federal. (Fonte)

- Em dezembro 2002 Bolsonaro procurou Lula para conversar. Ele queria indicar José Genoíno (PT) e Aldo Rebelo (PCdoB) para o Ministério da Defesa. Em entrevista dada para a Folha de São Paulo, ele confirma ter votado em Ciro Gomes e Lula naquele mesmo ano. Lula deu um chá de cadeira e ele foi embora sem ter conseguido a conversa. (Fonte)

- Em um programa de TV, em 1999, ocorreu um debate que envolvia Bolsonaro, Jandira Feghali e outra figura do mesmo partido de Bolsonaro chamada Paulo de Almeida. Durante o programa, Jandira e Bolsonaro discordam apenas sobre a questão da ditadura militar, mas no restante concordam em tudo. Inclusive, aos 19 minutos, é possível ouvir Bolsonaro dizendo "Agora a Jandira subiu ainda mais no meu conceito." Eram quase amigos. (Fonte)

- Neste mesmo programa ele defendeu Paulo Maluf, e não foi a única vez que fez isso. Inclusive, é possível que Jair Bolsonaro tenha recebido dinheiro sujo para financiar suas campanhas. Ele próprio afirmou, em fevereiro de 2015, que "não sabe" se recebeu dinheiro sujo de Youssef (o doleiro no escândalo da Petrobrás). (Fonte)

- Bolsonaro sempre foi contra as privatizações. Em entrevista ao Jô Soares, chegou a afirmar que FHC deveria ser fuzilado por ter, segundo ele, privatizado aquilo que era o "patrimônio do povo brasileiro", ignorando o fato de que sem a privatização da Telebrás brasileiro nenhum, hoje, teria acesso à internet banda larga e telefone com tarifa baixíssima. Em outra entrevista ele também disse ser contra a privatização da Petrobrás. (Fonte 1) - (Fonte 2)

- De 2005 a 2010 foram diversas as vezes em que Bolsonaro declarou apoio à ditadura militar, por vezes dizendo que foi o melhor período da economia - ignorando, de propósito ou não, que foram os militares que criaram os maiores elefantes brancos, que foram eles que criaram o BNDES, sem o qual o PT teria desviado muito menos, e foram eles que detonaram completamente a economia gerando a hiperinflação que veio a assolar o país anos depois. (Fonte 1) - (Fonte 2) - (Fonte 3)

- Em 2010, Jair Bolsonaro aparece na lista com vários outros deputados que votaram a favor de aumento de salários para eles próprios. (Fonte)

- Em 2011, Bolsonaro disse em um programa de TV que um garoto afeminado tem que levar porrada pra virar homem. Esta é uma afirmação indefensável sob qualquer aspecto pela ética libertária, pela Escola Austríaca ou mesmo por qualquer espectro existente dentro do liberalismo. A iniciação de agressão física é ilegítima, sempre. (Fonte)

- Apesar de sempre ter dito que é contra o desarmamento, talvez a sua única bandeira liberal, a verdade é que Bolsonaro nunca fez nada para impedi-lo. Ele sempre esteve mais preocupado em "detonar comunistas", o que é uma hipérbole para o fato de ele falar alto no microfone, algo inútil e dispensável. Quem realmente fez o projeto de lei que pode revogar o desarmamento foi o deputado Rogério Peninha, do PMDB. (Fonte)

- Apesar de frequentemente dizer que não tem nada contra os gays, as declarações realmente homofóbicas de Jair Bolsonaro são diversas e frequentes. Em uma entrevista dada ao programa da Sônia Abrão, o deputado afirma que sangue de homossexuais não é confiável para doação (desconsiderando que antes das doações são feitos exames de sangue), e em outra entrevista mais antiga, de 2011, o mesmo disse que preferiria ter um filho morto do que um filho gay. Não é preciso forçar muito a barra para interpretar o óbvio. (Fonte 1) - (Fonte 2)

- Em maio de 2014, Bolsonaro disse que gostaria de ser vice na chapa de Aécio Neves. Hoje ele nega, seus fãs repudiam o PSDB, mas quem não aceitou a parceria foi o próprio Aécio. (Fonte)

- Em 2015, Bolsonaro votou a favor de uma emenda em um projeto de lei que pretendia aumentar impostos. Seus fãs negaram, mas ele não. Em resposta, quando questionado, disse que votou a favor porque o PSOL votou contra, mostrando que está lá não pra ajudar você, mas pra aparecer. (Fonte 1) - (Fonte 2) - (Fonte 3)

- Fãs de Jair Bolsonaro atribuem a ele a PEC do Voto Impresso, tratando o tema como uma vitória do deputado. No entanto, verificando diretamente no site oficial da Câmara dos Deputados, consta que o projeto é de autoria de Leonardo Picciani, do PMDB, e não de Jair. Para justificar, alguns fãs do deputado alegam que ele teria pedido a Picciani para apresentar o projeto, alegando perseguição. Seria Bolsonaro, então, amigo de Picciani, a ponto de lhe pedir favores? (Fonte)

- Em 2015, Jair Bolsonaro fez diversas declarações contra os imigrantes no Brasil. A mais chocante, no entanto, é a declaração em que ele chama haitianos de "escória da humanidade", colocando-os lado a lado com radicais islâmicos, a despeito do fato de haitianos virem para cá com finalidades totalmente distintas, como procurar emprego e construir uma vida. (Fonte)

- De uns anos pra cá, Bolsonaro tem fingido que é liberal. Posta foto com livro do Mises e da Ayn Rand, fala que apoia "livre-mercado", e isso fez com que vários liberais acreditassem que "ele mudou." No entanto, nota-se que sua defesa do tal liberalismo é confusa. Na insistência em protegê-lo, liberais dizem que ele defende o "liberalismo econômico", o que não é verdade. Em entrevistas bem recentes, inclusive para o canal do Nando Moura, no Youtube, o deputado disse que adotaria medidas protecionistas para o mercado de bananas, e disse o mesmo em entrevista já linkada anteriormente, além de defender o corporativismo, que é uma medida anti-liberal. (Fonte)

- Em entrevistas mais recentes, Bolsonaro se contradiz sobre economia e sobre si mesmo. Especialmente no ano passado, ele deu entrevistas dizendo jamais ter apoiado a ditadura, o que é mentira. Depois, em outra entrevista, apoiou de novo a ditadura. Em entrevista dada este ano, ele apoiou novamente o Regime Militar, que segundo ele não teve nada de errado. (Fonte - Neste caso, vejam os vídeos da mesma entrevista em sequência)

- Numa entrevista concedida à Rádio Gaúcha, em janeiro deste ano, Bolsonaro soltou uma frase que é, no mínimo, uma pérola da incoerência. Ele disse: "Na ditadura, tinha liberdade de imprensa. Mas algumas eram censuradas." Esta frase é completamente sem nexo e denota que ele provavelmente é a favor de uma imprensa controlada pelo Estado, como na Venezuela de Chávez e Maduro. (Fonte)

- Em duas entrevistas dadas este ano, Bolsonaro deixou claro ser contra mulheres no mercado de trabalho, sendo uma delas para a ativista de esquerda Ellen Page. Alguns podem argumentar que ela ser de esquerda desmerece o documentário e a entrevista. Pode ser que sim, mas ainda assim o que vemos no vídeo é Bolsonaro dizer, com todas as letras, que a existência de gays (o que ele considera anormal e abominável) é causada pelo fato de mulheres trabalharem fora de casa. No mesmo vídeo ele compara bater em gays com agredir pessoas violentas, como se homossexualismo fosse comparável a algum tipo de crime. (Fonte)

- No dia 17 de abril deste ano, em seu voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff, o deputado Jair Bolsonaro aproveitou para declarar uma homenagem ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um torturador da Ditadura Militar que teria, supostamente, torturado Dilma Rousseff (carece de provas). Depois da votação ele reforçou este posicionamento em diversos vídeos. (Fonte 1) - (Fonte 2)

- Ainda no mês de abril, a UBE (União Brasileira de Escritores) entrou com uma denúncia contra Jair Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional por conta de seu discurso, considerado apologia a tortura. (Fonte)

- Em 1º de maio deste ano, fãs de Jair Bolsonaro organizaram um ato em apoio ao deputado. No entanto, foi um enorme fracasso. Algumas cidades reuniram menos de vinte pessoas e até mesmo no Rio de Janeiro, estado pelo qual ele foi eleito, as manifestações tiveram baixíssima adesão. (Fonte)

- Bolsonaro virou réu no Supremo Tribunal Federal devido a ofensas trocadas com a também deputada Maria do Rosário, do PT, em ocasião anterior. A deputada havia na época protocolado denúncia contra ele, mas o STF veio a aceitar a denúncia somente no dia 21 de junho. A razão alegada pela acusação e que foi aceita no caso é de que Bolsonaro teria incitado ao estupro por fala direcionada contra a deputada em questão. (Fonte)

- No mesmo dia em que virou réu no STF, Bolsonaro fez um apelo pedindo por clemência, alegando que por ser parlamentar deve ter imunidade em sua liberdade de expressão. O pedido de clemência acabou irritando muitos de seus fãs, que consideraram a atitude covarde. (Fonte 1) - (Fonte 2)

- Ainda no mês de junho, devido a sua declaração em homenagem ao Coronel Brilhante Ustra, feita no dia 17 de abril durante a votação pelo impeachment de Dilma, o deputado Bolsonaro passou a responder um processo disciplinar no Conselho de Ética, que pode resultar na cassação de seu mandato. (Fonte)

- Outro ato em apoio ao deputado foi fracassado. Este ocorreu no primeiro domingo de julho, dois meses após o ato anterior, reunindo cerca de 300 pessoas em São Paulo e apenas 100 no Rio de Janeiro, segundo dados da própria Polícia Militar. (Fonte 1) - (Fonte 2)


Conclusão: Bolsonaro não mudou. Ele está apenas agindo como agiu em toda sua vida, como agiu na época do quartel, ou como agiu em 2002 ao apoiar o PT numa época em que todos apoiavam o PT. Ele percebeu a onda liberal crescente, viu que estão carentes de representantes, e entendeu que ali havia um bom nicho de votos. Quem acredita que ele mudou está inebriado por uma boa propaganda, por uma onda. Bolsonaro não é mais do que o novo Collor. Pode não ser corrupto, como muitos dizem, mas Leonel Brizola e José Alencar (que chegou a ser vice do Lula) também não foram e nem por isso eram boa gente.

11 de março de 2016

O PT cairá. E depois?

O Partido dos Trabalhadores está cercado de inimigos, até mesmo entre aqueles que já foram seus amigos. E entre os que ainda estão no barco - são poucos - o desespero já bate a porta.

Sim, meus amigos, a corja irá cair, cedo ou tarde. Pode até ser que Lula não seja preso. Pode ser que Dilma não sofra o impeachment. Ainda assim, os dias do PT estão contados. A situação chegou em um ponto do qual não há mais nenhum retorno possível. Podem adiar a morte do partido, podem mantê-lo moribundo por mais algum tempo com a ajuda de aparelhos, mas o fim é inevitável.

O que vivemos é um momento histórico, de fato. Talvez até possamos chamar isso de "revolução", no fim das contas. A mobilização contra o PT vem numa espiral crescente há anos e creio ter atingido seu auge em 2016. E naturalmente, quando este partido cair, vou comemorar, desejando que leve o máximo de canalhas consigo. Só que isso tudo ainda deixa uma questão a ser levantada: O que virá depois?

Quem me acompanha neste blog deve ter notado que quase não me dedico a falar do PT por aqui, não como foco. A razão disso é que eu não preciso falar, pois há muitas pessoas falando o que eu penso sobre o partido por aí. Meu trabalho aqui sempre foi outro, e com este texto quero incentivá-lo a refletir sobre tudo o que poderá ser feito após a queda da cleptocracia e do totalitarismo petista.

Minha maior preocupação, a princípio, é quem será colocado no lugar de Dilma quando tudo isso acabar. Como disse, pode ser que ela nem seja deposta do cargo, talvez ela termine seu mandato normalmente e tenhamos que eleger alguém lá em 2018. E quem será? Sugiro que não caiamos no mesmo erro de outras revoluções, em que o velho regime caiu e foi substituído por outra coisa tão ruim quanto - ou pior. Sei que é difícil ser pior que o PT, mas não é impossível. 

Não tenho respostas prontas aqui. Se você me perguntar o que fazer lá na frente, eu realmente não sei responder. O que aconselho, então, é que nós todos, liberais e libertários, desde agora comecemos a nos preocupar com o avanço de nossas ideias e com a construção de uma base sólida. E não basta fazer isso apenas fora da política: temos que fazer pelo lado de dentro também.

Este ano teremos as eleições municipais, e nelas devemos pelo menos chamar atenção. Você provavelmente conhece outros liberais e simpatizantes, não é? Junte-se a eles. Forme uma chapa, concorra a algum cargo, filie-se a algum partido que seja condizente com seus planos. Mesmo que seja para não eleger ninguém, ao menos use o espaço que puder para ganhar terreno.

Embora não pareça, sou um libertário extremamente radical. Sou, aliás, um anarquista dos mais puristas. Se existisse um botão mágico que eu pudesse apertar para que todo político e agente da Receita Federal deixasse de existir, instantaneamente, já o teria apertado. A questão é que nós precisamos infiltrar nos mecanismos mais profundos da máquina a maior quantidade possível de libertários e liberais, sobretudo os mais radicais. Os totalitários estão no poder e não é pelo fato de serem moderados, pois eles não são. PT é um partido de extrema-esquerda e com intenções ditatoriais já comprovadas, mas ele soube jogar o jogo e conseguiu o poder sem usar uma arma de fogo.

O que desejo, para o bem das ideias liberais, é que os próprios liberais passem a ser mais maliciosos. E digo o mesmo aos libertários. Se vamos destruir o Estado e reduzi-lo a pó algum dia, é difícil afirmar. O que eu não quero é ter que aguentar mais quatro, oito ou doze anos de algum político também totalitário no poder tendo toda a máquina à sua disposição. E se não pudermos evitar que o próximo presidente seja ruim, evitemos que ele tenha o poder de estragar nossas vidas como os outros tiveram.

Entremos no Estado para enxugar a máquina. Quanto menos poder o governo tiver, menos poder ele terá.


10 de março de 2016

Pautas Quentes | A militância histérica - criminosa - de Lula

Estado democrático de direito, esta entidade invisível pouco compreendida, passou a ser evocada com frequência após a condução coercitiva de Lula na última sexta-feira, dia quatro de março. Outras entidades também foram evocadas, tais como "sequestro de Lula" e "ataque às instituições democráticas". Tudo balela, discursinho pronto para enganar bobos.

O primeiro ponto sobre a condução de Lula é que ela só foi coercitiva porque ele mesmo quis assim. Como relatou Luciano Flores, delegado da Polícia Federal, ao ser intimado para depor o ex-presidente afirmou que só sairia de lá algemado. E assim foi. Obviamente a intenção de Lula não foi apenas a de enfrentar a autoridade que lhe forçava a sair do local, foi também uma estratégia política, uma artimanha para chocar a imprensa. Não é todo dia - infelizmente - que vemos políticos tão populares sendo levados com algemas para algum lugar, algo incomum assim causaria a impressão de que houve contra Lula alguma forma de ação exagerada por parte da polícia.

Não por acaso foi exatamente esse o discurso usado por ele, o molusco, horas mais tarde em sua reunião com todos os membros da facção criminosa chamada Esquerda Brasileira (PT, CUT, UNE, MST, PCdoB, etc), vídeo que foi mostrado na íntegra durante o Jornal Nacional e repetido posteriormente no Jornal da Globo, esta imprensa "golpista" que "não dá" espaço para a esquerda falar. Na reunião, o ex-presidente reafirma não ter nenhuma relação com o sítio e nem com o apartamento no Guarujá, ambos locais repletos de pertences pessoais dele próprio. 

A última foi do Ministério Público de São Paulo, que denunciou Lula por falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Em resposta, petistas alegam que o ex-presidente sofre "perseguição política" e repetem o discurso de que Lula foi "sequestrado" pela Polícia Federal ao ser levado para depor. No Twitter, a conta do partido chega ao ridículo de chamá-lo de "preso político", sendo que o próprio nem mesmo foi preso até o momento.

A parte final é a melhor. "Precisamos todos reagir. Agora!", trata-se de um claro chamado para a guerra, que pode se dar tanto no campo das disputas políticas quanto por meio da violência pura e simples. A julgar pelos fatos ocorridos no último fim de semana, certamente a última opção foi a escolhida. Se tem algo que certamente viola o tal "estado democrático de direito" é um partido declarar, oficialmente, que é preciso agir contra a lei e contra os trâmites jurídicos. Num país sério, pessoas ligadas à atual direção do partido estariam na cadeia por incitação à violência, no mínimo.

O resultado da militância pró-Lula é sempre o mesmo: buscar a violência. No fim das contas, o que querem é o poder totalitário, absoluto e completo. Por isso jamais aceitarão que um ex-presidente é apenas um cidadão como qualquer outro e que, exatamente no estado democrático, ele precisa responder às leis como todos nós. A intenção de defender Lula quando ele simplesmente é tratado como cidadão que cometeu um crime - e um crime grave - não se diferencia muito daqueles casos em que a mãe defende o filho assassino. A diferença, talvez, é de que a mãe é mãe, enquanto esses militantes sãofanáticos sociopatas com sede por poder.

E o que dizer sobre esta mensagem do ator José de Abreu, que atualmente faz o papel de Lula (chefe de uma organização criminosa) na novela das nove! Deleite-se com a cordialidade, com o respeito e com a tolerância raivosa e petulante da esquerda:

Quando ele diz "vão ter guerra", podemos facilmente presumir que este seja o apito de cachorro que ele e outros usam para chamar silenciosamente a militância violenta. A ideia é inflamar a raiva dos soldadinhos voluntários que darão seus corpos para defender o líder, enquanto ele próprio obviamente permanecerá no conforto de seu apartamento ou no iate.

O discurso de que Lula é um preso político ou mesmo de que sua condução forçada não foi necessária, quando ela foi, não passa de uma manobra discursiva para incutir na mente dos militantes ainda pacíficos que eles precisam se mexer, precisam acabar com tamanha "injustiça" contra o "pai dos pobres", o homem que "tirou milhões da miséria" desviando bilhões de reais num esquema gigantesco de corrupção e poder totalitário sobre a nação. Para quem baba essas palavras isso é só um joguinho de tabuleiro, então não há problema nenhum em brincarem com as vidas das outras pessoas. 

A esquerda é criminosa e ela o é conscientemente. Esses discursos criminosos devem ser punidos com o rigor da lei, pois aí sim veremos o tal estado de direito em sua plenitude.


8 de março de 2016

Análise Crítica: al-Qaeda e o que significa ser moderno - John Gray

NOÇÕES GERAIS

Um livro publicado em 2003, apenas dois anos após os atentados de 11 de setembro em Nova York e Washington, recheado de previsões políticas e econômicas hoje concretizadas. Ler este livro em 2016 chega a ser irônico, pois a análise fria de John Gray, feita com olhar crítico para a história, se assemelha muito aos noticiários vistos nos últimos anos. O autor definitivamente enxergou além do óbvio, mostrando ao leitor uma análise racional que prova, mais uma vez, algo que com frequência tenho dito: A realidade destrói até mesmo a melhor das teorias.

PONTOS POSITIVOS

O livro é curto e de fácil leitura, não enrola o leitor com floreios desnecessários. Nada surpreendente para a cultura inglesa, mas muito raro em filósofos ou analistas políticos. Apesar de curto, ele é suficiente para explicar de modo bastante claro que o terrorismo organizado da Al-Qaeda é, de fato, fruto da modernidade.

Um mito derrubado no livro é também a noção de que o futuro é sempre melhor, o ideal positivista que influenciou o pensamento marxista e até mesmo a mentalidade liberal. Nesta obra, o conceito de "modernidade" é desmistificado, apresentando-se também o lado negativo de ser moderno, algo que nossa cultura ocidental normalmente ignora. Gray tem como foco uma visão histórica que não ignora os detalhes, por isso ele compreende, melhor do que a maioria, as diferenças culturais e suas incompatibilidades. Ainda assim apresenta algumas ideias que podem servir como solução de conflitos violentos, caso sejam seguidas.

Curiosamente, o autor prevê em 2003 o legado maldito da gestão de George W. Bush, prevê o colapso econômico ocorrido anos mais tarde e também prevê o avanço do terrorismo além da própria Al-Qaeda. É como se ele estivesse nos avisando, há 13 anos, que o ISIS viria e seria ainda mais nefasto.

PONTOS NEGATIVOS

O autor usa o termo "liberal" em um sentido americanizado, como se a palavra fosse sinônimo de "democrata" ou mesmo de "esquerda." Entretanto, fora dos EUA, o liberalismo é essencialmente republicano. Muitos acham que república e democracia são a mesma coisa, o que é um equívoco. E o uso que John dá à palavra "liberal" nesse sentido fica evidente quando ele trata nações de regime democrático como "nações liberais." Para entender a diferença, basta saber que o Brasil é um país democrático, enquanto a Suíça é uma república. Claro, ignore o fato de o nome oficial do país ser "República Federativa do Brasil", vez que até o nosso federalismo é por si só uma piada.

Também é difícil entender o que o autor chama, em certos momentos, de "livre-mercado global" ou mesmo suas menções ao "neoliberalismo." Aparentemente, a ideia de livre-mercado que ele utiliza para o livro é semelhante à visão keynesiana, não à visão propriamente liberal. Contudo, julgo que John deveria ter se preocupado em ser mais claro nesse aspecto, pois em dados momentos não dá para entender se ele concorda com ideias liberais ou não - embora, para a análise essencial do livro, este fato seja secundário.

CONCLUSÃO

O livro é muito interessante para quem gosta de análises políticas sob a ótica mais severa dos fatos históricos. Dito isso, também recomendo a leitura para qualquer pessoa que queira ver uma boa crítica ao positivismo, que ainda é uma praga comum no meio liberal, praga que espero poder ver erradicada ainda em vida.

De 0 a 10, minha nota é 8.