29 de fevereiro de 2016

Pautas Quentes | Os negros no Oscar

Sempre que algum setor da sociedade, geralmente aqueles que são considerados mais "privilegiados", sofre com a ausência de negros exercendo atividade de destaque, surge a carta do "racismo cultural", que é basicamente a acusação feita contra todo aquele setor por não dar o "devido" espaço aos negros.

Urge que o assunto chegou ao Oscar, e como se trata de pauta quente, neste texto pretendo mostrar as falhas básicas dessa reivindicação sob duas abordagens.

Abordagem nº 1 - Suponhamos que a esquerda esteja certa

Vamos partir do pressuposto da própria esquerda, baseando esta análise sob a ótica em que a única razão para não haver tantos negros premiados quanto brancos seja, de fato, o racismo. Assim, pura e simplesmente.

Dentro desta abordagem, tenho um ponto a levantar e que julgo de suma importância, a origem de tudo. E para isso, começo com a seguinte pergunta: Como poderiam premiar o mesmo número de atores negros e brancos, diretores negros e brancos, sendo que, na realidade, não há a mesma quantidade de negros e brancos no cinema americano? Entre todos os filmes lançados e que tinham alguma chance de concorrer ao Oscar, quantos deles tinham atores negros nos papéis de destaque, e quantos foram dirigidos por negros?

Para citar assim, de cabeça, sem fazer nenhuma consulta, consigo lembrar apenas do ator John Boyega, que interpretou Finn, em Star Wars: The Force Awakens. E, vamos considerar que ele estreou no cinema em 2011 e que este foi seu primeiro papel de destaque, se tratando portanto de um ator ainda inexperiente. Ainda assim, venceu o BAFTA na categoria "ator revelação", o que já é um bom reconhecimento a alguém que estreou há poucos dias no ramo.

Visto isso, conclui-se logicamente que há um número menor de negros atuando em filmes nos papéis de destaque se comparado ao número de brancos, razão pela qual seria matematicamente improvável - talvez impossível - premiar igualmente brancos e negros por isso. Então, partindo do pressuposto que propus no início, aquele em que a esquerda está certa sobre o racismo, não há como culpar a cerimônia do Oscar por isso. Se fôssemos levar a questão a sério, o foco deveria ser anterior, o que significa que deveríamos perguntar por qual razão há menos negros atuando nos papéis de destaque.

Esta seria a questão levantada pela esquerda se ela realmente desse importância para o assunto. A única razão pela qual se escolheu atacar o Oscar em si, desconsiderando a estrada que vem antes dele, é para chamar atenção à causa e ganhar dividendos políticos. É mais lucrativo atacar o efeito do que a causa, sobretudo se o efeito for uma premiação transmitida ao vivo para diversos países do mundo inteiro enquanto a causa for algo feito nos bastidores, por trás das câmeras, sem muitas possibilidades de aparecer e ganhar imagem.

Abordagem nº 2 - A realidade

Denzel Washington está no seleto grupo dos poucos atores na história do cinema premiados mais de uma vez. Ele, aliás, foi indicado outras tantas vezes ao Oscar, além de ter vencido diversos outros prêmios, e é de longe um dos atores ainda em atividade com a maior filmografia. Ninguém há de negar seu talento e carisma. Enquanto Will Smith, com uma filmografia bem menor, foi indicado três vezes ao Oscar, uma com vitória em À Procura da Felicidade. Até mesmo no filme Ali, que é uma clara apologia ao islamismo e aos Panteras Negras, ele foi indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro, e ainda ganhou o prêmio MTV Movie Awards como melhor ator.

Morgan Freeman, outro consagrado ator de Hollywood, tem um Oscar como melhor ator coadjuvante em Menina de Ouro, e foi indicado outras quatro vezes em duas categorias diferentes. Além disso, também venceu o Globo de Ouro como melhor ator de comédia, e foi indicado a este mesmo prêmio também outras quatro vezes. 

Jamie Foxx venceu um Oscar como melhor ator em Ray, filme que conta a historia de Ray Charles (outro negro muito querido na cultura pop), além de ter sido indicado a outro Oscar em 2004 como ator coadjuvante em Colateral. E Halle Berry, que não é uma grande atriz, venceu um Oscar como melhor atriz em 2002 pelo filme Monster's Ball, e venceu também um Globo de Ouro em 1999 por uma minissérie de TV.

Whoopi Goldberg também foi indicada duas vezes ao Oscar, vencendo uma delas como atriz coadjuvante. A mesma também foi indicada três vezes ao Globo de Ouro e ganhou duas. Samuel L Jackson, outro ator absolutamente consagrado pela crítica e pelo público, foi indicado várias vezes ao Globo de Ouro e uma vez para o Oscar pelo filme Pulp Fiction, que só não venceu por ter concorrido com ninguém menos do que Tom Hanks em sua maravilhosa atuação no filme Philadelphia.

Cuba Gooding Jr. venceu um Oscar como melhor ator coadjuvante em Jerry Maguire. Forest Whitaker também carrega um Oscar e um Globo de Ouro. Jennifer Hudson também possui um Oscar e um Globo de Ouro, ambos como melhor atriz coadjuvante. As atrizes Mo'Nique, Octavia Spencer e Lupita Nyong'o, todas pouco conhecidas, também têm suas estatuetas como atrizes coadjuvantes, além do Globo de Ouro, e até mesmo Queen Latifah, que é uma atriz medíocre, já foi indicada ao Globo de Ouro uma vez.

E agora, o mais importante: tudo isso aconteceu dentro de um país que tem apenas entre 12% e 15% de negros em sua população.¹ Acredito que isso encerre de vez o assunto.



28 de fevereiro de 2016

Pautas Quentes | A "polêmica" dos shorts

Hoje inauguro uma série em meu blog, cujo nome será "Pautas Quentes".

Todo o histórico do meu blog é composto por abordagens atemporais, nas quais muito dificilmente comento ou cito notícias e questões recentes. A razão disso é que eu não havia ainda pensado em como fazer, mas hoje tive um insight. Espero que curtam, pois farei mais textos assim de agora em diante.

A "polêmica" dos shorts

Enquanto liberal, estou longe de ser moralista e, inclusive, defendo que escolas nem sejam obrigatórias, mas eis que o assunto da semana tem sido a tal "polêmica" dos shorts curtos em uma escola de Porto Alegre.

O Colégio Anchieta é um dos mais antigos, e é de tradição católica. Não por acaso é também um dos colégios particulares mais caros da região, acessível somente a pessoas de classe média - o que por si só já deixa claro que seja, ali, um provável reduto da esquerda na cidade, como de costume. Também não é por acaso que o abaixo assinado entregue pelas garotas tenha, para não variar, toda a compostura e o linguajar comum aos movimentos da esquerda feminista, com aqueles mantras e conceitos abstratos sem nenhuma conexão com a realidade, jargões e bordões óbvios que não surpreendem nem mesmo no roteiro da novela Malhação.

A carta você pode conferir na íntegra aqui nesta reportagem tendenciosa (pró-manifestantes) do Jornal Zero Hora. Há outra matéria no mesmo jornal sobre este assunto, que você pode ver aqui. Seguem alguns trechos da carta/panfleto:

"Exigimos que a instituição deixe no passado o machismo, a objetificação e sexualização dos corpos das alunas; exigimos que deixe no passado a mentalidade de que cabe às mulheres a prevenção de assédios, abusos e estupros; exigimos que, ao invés de ditar o que as meninas podem vestir, ditem o respeito."

O tom da carta é esse. Note que a palavra "exigimos" aparece por três vezes em uma oração de quatro linhas. Note, também, as outras palavras destacadas, comuns ao linguajar da esquerda radical. Quando se diz para deixar no passado a mentalidade de que os assédios e estupros são de responsabilidade da mulher, isso dá a impressão de que esses estupros e assédios ocorram às pencas contra elas, as garotas (que tem entre 13 e 17 anos de idade) ali mesmo, naquele ambiente que, segundo elas, é algum tipo de zona de guerra. "Objetificação" e "sexualização" são termos bem vagos, também, e eles são vagos de propósito. A intenção não é lutar contra um problema real, mas criá-lo.

"Regras de vestuário reforçam a ideia de que meninas tem que "se cobrir" porque garotos serão garotos;[...]"

O trecho acima, por sua vez, contem duas coisinhas bem mais sutis, mas que são relevantes ao tom da carta. A primeira é a acusação de que "meninas tem que se cobrir", como se isso fosse mesmo verdade. A realidade é que regras de vestuários em instituições de ensino, empresas ou qualquer local público (até mesmo em ônibus) costumam ser válidas para ambos os lados. Garotos não podem andar sem camisa, algumas escolas não permitem o uso de bermuda e chinelo, e há empresas diversas por aí que permitem à mulher o uso de saia, mas não permitem que o homem use bermuda. Muitas empresas têm regras sobre calçados femininos permitindo que elas usem calçados abertos, mas proibindo homens de usarem chinelo. Essa acusação de que são regras para as meninas é apenas uma mentira.

A segunda coisa sutil neste pequeno trecho é a parte final, "garotos serão garotos." O que se quer realmente dizer com isso é que apenas garotos são "tarados", como se meninas também não olhassem para os meninos que acham bonitos. É um reforço à ideia de que o homem é esse ser maligno que se porta como animal, enquanto mulheres são apenas vítimas de tudo isso.

"Ao invés de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino. Nós somos adolescentes de 13-17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema."

Note que elas alegam sofrer humilhação pelo simples fato de existir uma norma de vestimenta, que é o uniforme da escola. É óbvio que não existe humilhação alguma aí. Quando estudava eu também tinha meus problemas com o uniforme, muitas vezes não o usava e ia para a diretoria. A diferença é que eu sabia que estava errado, fazia aquilo por mera transgressão das normas, para pagar de revoltado juvenil. O que essas garotas e todos aqueles que apoiam a causa querem, no fim, é justificar a infantilidade e a birra por meio de argumentos irracionais.

Contudo, isso é de menos. O pior mesmo é o que vem depois, quando alegam - novamente - sofrerem sexualização por parte de alunos e professores homens. Esta é um acusação gravíssima, pois indica algum tipo de assédio sexual ou verbal que possa ter ocorrido ou que ocorra naturalmente. Entretanto, é uma acusação aberta, sem alvo, feita "aos homens" e não a uma pessoa específica. Qual a razão disso? Simples: não aconteceu nada. Elas estão inventando uma causa, é o típico caso de "false flag" que a esquerda utiliza para legitimar pautas vazias.

O restante da carta é apenas mais do mesmo. Repetição dos mesmos mantras, mesmos jargões e mesmas mentiras. A palavra "humilhar" aparece mais umas onze ou doze vezes, dando a impressão de que uma simples regra de vestimenta, que só é válida dentro daquela instituição e que pode ser ignorada do portão para fora, é algum tipo de humilhação. O discurso é claramente forçado nesse sentido. É um apelo emocional sem nenhuma base racional. Contudo, há nos dois parágrafos finais algo que devemos analisar.

"A prioridade é ensinar para o ENEM e vestibulares, entendemos. Mas a educação social e política não pode ser deixada de lado. É por meio dela que construiremos uma geração melhor que a anterior; é por meio dela que criaremos um mundo onde mulheres não serão julgadas e humilhadas pelas roupas que escolhem vestir, pela forma que tem ou por quantas pessoas já transaram; é por meio dela que acabaremos com a realidade de que, a cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil e, a cada 11 minutos, 1 é estuprada[¹]; é por meio dela que criaremos um mundo onde cotistas não precisarão ouvir que "roubaram a vaga" de alguém que estudou a vida inteira em colégio particular; um mundo onde mães de crianças negras tenham certeza de que, no fim do dia, seus filhos voltarão pra casa; um mundo onde não perderemos mais vidas para a Guerra Às Drogas; onde mulheres não morrerão em clínicas clandestinas de aborto; onde a religião e a política não se misturarão; onde o capital não será mais importante do que a vida; onde os problemas de hoje serão solucionados."

Creio que para qualquer pessoa minimamente informada, a última frase destacada, a que fala sobre "o capital", seja mais do que uma evidência de que o movimento é, com toda certeza, de esquerda e ligado a partidos de esquerda. Mesmo assim, se você ainda duvida disso, leia este artigo de Flávio Morgenstern, no Senso Incomum, no qual ele prova que uma das lideranças do grupo é mesmo ligada ao PSOL e a movimentos feministas.

O restante do parágrafo é um conjunto de apelos aos mais diferentes grupos. É um tipo de "metralhadora" de jargões e lugares comuns, que serve como forma de atingir o máximo possível de "minorias" e conseguir delas o apoio. Até mesmo a guerra às drogas - a qual qualquer liberal normal é contra desde sempre - é citada ali, mesmo sem ter qualquer ligação com o assunto discutido. E bem no início do parágrafo, quando se fala em "educação social e política", escancara-se novamente o viés de esquerda dessa ação. Não só pela linguagem, que já é evidência o suficiente, mas também pela própria defesa da ideia. Ninguém tem maior interesse na aparelhagem entre escola e Estado do que partidos como PT, PSOL ou PCdoB. Fora isso, apelos aos negros, aos cotistas, e até citam números que são falsos ou simplesmente inverificáveis - como as mulheres mortas em clínicas clandestinas de aborto, um dado que é impossível de ser consultado.

E este é o encerramento da carta - ou panfleto ideológico, como preferir:

"Nós, alunas do ensino fundamental e médio do Colégio Anchieta, nos recusamos a obedecer a regras que reforçam e perpetuam o machismo, a cultura do estupro e slut shaming."

O termo "slut shaming" é tão vazio em nossa cultura que sequer existe uma palavra em português para descrevê-lo. O seu uso é feito apenas por feministas, pois não há qualquer base real para usá-lo fora de um discurso feminista. E, claro, "cultura do estupro" não poderia ficar de fora, afinal de contas é altamente necessário acusar um inimigo invisível que, por ser invisível, não pode ser visto: "a sociedade", "a cultura." Entretanto, curiosamente, é a própria esquerda que sai sempre em defesa de criminosos em detrimento de suas vítimas, isso inclui também os estupradores. A advogada de Direitos Humanos que defendeu um estuprador que matou - após ter abusado - de uma menina de 15 anos aqui em Joinville, não por acaso é a mesma advogada que trabalha para a Esquerda Marxista, corrente política que até pouco tempo atrás fazia parte do PT e que mais recentemente foi para o PSOL. A mãe da menina que foi estuprada e morta, no entanto, está lá sem nenhum amparo. Nenhuma feminista foi ajudá-la até hoje, e isso já aconteceu há anos.

Agora, saindo um pouco da carta e do colégio em si, tenho aqui outra coisa para pontuar.

Estava hoje circulando pela internet e me deparei com uma matéria esquisitíssima do G1, cujo título é: Garota se revolta após ser impedida de doar sangue por usar shorts 'curto'. Sinceramente, já vi filmes no mínimo parecidos com este antes. Não é estranho que algo tão incomum tenha ocorrido justamente agora, tão convenientemente? Já doei sangue algumas vezes e já vi pessoas com vestimentas muito variadas. Aliás, nunca nem mesmo ouvi falar de casos assim, pois geralmente os bancos de sangue estão desesperados por mais coletas. Os únicos casos mais controversos em que vi recusas foram casos de homossexuais impedidos de doar, pois de fato existe o preconceito de que todo homossexual necessariamente tenha aids. Fora disso, implicar com vestimenta definitivamente não é um caso comum.

Tenho a impressão de que essa será mais uma daquelas notícias arranjadas para dar sustentação a uma pauta fajuta. Consigo imaginar os próximos slogans utilizando essa manchete, dizendo que "preferiram seguir normas conservadoras² em vez de salvar vidas", entre outras coisas semelhantes.

Vamos ver no que vai dar.

E sobre o colégio, invoco a máxima liberal: propriedade privada, regras privadas. Sendo uma escola particular, ninguém é obrigado a estudar lá. Fim de papo.


¹ - O Mapa da Violência, que contem dados oficiais do governo (que é de esquerda) desmente os "dados" apresentados na carta.

² - Quando a esquerda tem a oportunidade, ela sempre usa o termo "conservador" ou suas variações genéricas para se referir a qualquer grupo que se oponha às suas ideias. O objetivo é nivelar toda a oposição e tratá-la como igual, trata-se de um rótulo, que será usado mesmo que você não seja e nunca tenha sido conservador na vida.

26 de fevereiro de 2016

Bolas Quadradas - Um ensaio sobre política | Lançamento

Hoje publico meu primeiro "livro", entre aspas mesmo. Não se trata realmente de um livro. Ele tem apenas cinquenta páginas e é, na realidade, um ensaio sobre política. Abaixo vou resumir um pouco da essência deste ensaio para que você o veja e, se achar bom, compartilhe por aí. A publicação dele é gratuita por ser a primeira coisa que publiquei nesse sentido, então quero medir o efeito disso.

"Bolas Quadradas" pode parecer um nome estranho, mas já no início você entenderá a razão dessa escolha. De fato, a principal intenção desse ensaio é instruir politicamente os liberais e libertários para que eles se tornem mais eficientes em suas abordagens e projetos. Os princípios, táticas e ideias expostos aí, entretanto, servem bem a qualquer ideologia. Não há nada que impeça um conservador ou mesmo um socialista de usá-los.

Ao longo do ensaio abordo questões que são centrais, sem me preocupar muito com o que é tangente. Um dos melhores capítulos, a meu ver, é o que fala sobre as Janelas de Overton. Também recomendo fortemente a leitura do capítulo "Forma e Conteúdo", onde explica conceitos de publicidade política, semiótica e linguagem.

Como a maioria de meus seguidores sabe, defendo uma fragmentação da "direita", que no livro está definida como a oposição à esquerda. É claro que liberais e libertários entendem que não somos realmente de direita ou de esquerda, mas o uso desse conceito, nessa forma, serve ao propósito do raciocínio aí inserido. Para outros contextos, considere o Diagrama de Nolan.


Agradeço especialmente ao meu colega Octávio Henrique, tanto pela revisão textual quanto por ter me ensinado que o uso de ponto final antes do "mas" é indesejável.

Leia com carinho.





24 de fevereiro de 2016

Uma tréplica racional

Meu velho amigo Arthur Rizzi ficou incomodado com algumas críticas feitas no texto "O Duplo Padrão e a Direita Inimiga", onde afirmei que ele seria um fã de Olavo de Carvalho e que estaria a serviço de interesses dele, ainda que não soubesse disso. Em réplica, Arthur fez um texto chamado "Inimigo, com orgulho!", assumindo papel de oposição aos liberais. 

Ótimo. Ele admite que conservadores nos veem como inimigos e isso é o que venho dizendo há muito tempo. Não há nada para reclamar até aí. Contudo, o texto segue em parte até correto ao resgatar fatos históricos, mas vejo esta também como uma tentativa de desviar o real intento dessa discussão toda, que foram algumas de suas falsas acusações contra os liberais feitas no primeiro artigo, o que originou tudo isso.

De sua réplica, vou me atentar - por agora - apenas ao seguinte trecho:

"[...]os liberais de fato estão no centro do espectro e que na maioria dos casos, prefere se aliar a esquerda. É o que temos visto no Brasil..."

Que o colega me perdoe, mas esta afirmação é simplesmente mentirosa. Dentro do contexto brasileiro, sobretudo nos últimos tempos, liberais tem sido a maior força anti-esquerda que esse país já viu. O movimento conservador existe, mas se resume a uma trupe de papagaios sem miolos que se condicionam à repetição de mantras, isso quando não estão criando climas de pressão e perguntando "Você vai votar no Bolsonaro em 2018, sim ou sim?". Os ditos liberais ou libertários de esquerda no Brasil são tão repudiados pelo próprio movimento que basta se manifestarem para serem rechaçados às pencas. O site Mercado Popular, a quem meu amigo cita em sua réplica, é um dos sites liberais mais criticados pelos próprios liberais devido a seus posicionamentos mais à esquerda. Eu mesmo, neste blog aqui, já fiz dois textos criticando-os e criticando também iniciativas como Coletivo Nabuco e até mesmo o EPL. A aceitação destes poucos liberais de esquerda dentro do próprio movimento liberal é tão baixa que, quando surgiu o PSL - LIVRES, só o fato de Carlos Góes estar lá já foi motivo de desconfianças de xingamentos por parte de muita gente.

A saber, não é preciso esforço para achar liberais que apoiem ideias de direita, e é mil vezes mais fácil encontrar um liberal que se diga "liberal-conservador" do que um que se diga "liberal de esquerda." O primeiro é tão comum que já é até visto com normalidade na maioria dos espaços. Não adianta o amigo buscar coisinhas do passado, da Revolução Francesa ou de outros contextos sociais - como outras nações e culturas - para tentar justificar uma afirmação que é simplesmente errônea. Não há a mais remota possibilidade de afirmar, com alguma razão, que liberais brasileiros apoiem a esquerda. Isso simplesmente não ocorre. Mesmo os liberais que dizem ser de esquerda ainda assim se posicionam de modo antagônico a partidos como PSOL e sobretudo PT. Essa história de "se aliar à esquerda", aqui no Brasil, ou não aconteceu ou não acontece há muito tempo.

E, diante dos fatos, o que é esse tal movimento conservador, tão grandioso e tão invisível? Quais são os mentores do conservadorismo brasileiro e o que eles têm feito para mobilizar projetos, pessoas e ações concretas? Pela internet conheço um monte de conservadores, alguns muito inteligentes, autores de boas análises e, inclusive, meu próprio amigo Arthur Rizzi e os demais integrantes de seu site. Intelectualmente eles estão bem, sim, não há o que negar quanto a isso. Mas no campo prático, na vida real, o que os conservadores têm feito para frear os avanços da esquerda?

O MBL foi organizado por liberais. Eles cometeram vários erros, sim, e também já os critiquei por isso. Mas ainda assim foram eles que, bem ou mal, botaram o pau para quebrar. O NOVO e o PSL, que vem surgindo como uma boa alternativa a quem odeia a esquerda, são iniciativas liberais. Os conservadores formaram algum partido ou seriam seus únicos representantes os deputados Bolsonaro (pai e filhos) e Marco Feliciano, que nem mesmo conservadores são? Nos atacam por não termos representação política, mas pergunto: quem são os representantes políticos do conservadorismo brasileiro? A desgraça é tão grande que eles precisam idolatrar figuras como Enéas Carneiro, um nacionalista autoritário que se aproxima de Hugo Chávez no campo das ideias, ou então precisam citar Olavo de Carvalho, que com exceção do Pondé é o único que se diz conservador e tem alguma notoriedade hoje.


Outra passagem de sua réplica que trago para análise:

"
A direita, geralmente, prefere uma economia livre. Mas essa nunca foi a pauta principal da direita, a pauta da direita sempre esteva voltada pras tradições, pra moral e para a cultura."

Primeiramente, é falso que a direita prefira economia livre. Pelo menos é falso dentro daquilo que nosso amigo em questão define como "direita" na frase seguinte. Veja que ele determina "direita" como sendo aqueles que lutam em prol de tradições, moral e cultura. Dentro desta premissa, que não é minha, mas dele, poderíamos supor que nacionalistas e até mesmo socialistas ortodoxos são "de direita" e, portanto, totalmente desfavoráveis a uma economia livre. Todos nós sabemos e isso é bem provado que nacionalistas, neoconservadores e socialistas ortodoxos, cada um do seu próprio modo, são adeptos de uma centralização econômica, o engessamento da economia como meio de sobrevivência. Se a premissa de Arthur Rizzi estiver correta não há como negar que o próprio Stalin fosse "de direita", vez que ele era defensor das tradições, da moral e da cultura. E Chávez também o foi, bem como Evo Moralles ainda o é. De fato, se isso é ser "de direita", meu nobre amigo admite sem querer que eles possuem mais proximidade com socialistas do que qualquer liberal jamais conseguiria ter.

Irônico, não é?

É claro que a discussão sobre o que vem a ser economia livre pode variar. Alguns socialistas acham que estão lutando por liberdade, assim como alguns malucos que pedem intervenção militar também acreditam nisso. Dia desses até vi um nacionalista que se dizia nacional-liberal. Estas aberrações lógicas são aberrações, mas existem. O ponto é que eu sei bem que meu amigo Arthur não é desses tipos. Ele não é um ignorante sem consciência do que fala. E com base nisso não posso negar que haja um quê de más intenções naquilo que ele escreve.

Fugindo das suposições, volto a fazer perguntas.

Se os nobres conservadores, essa direita da qual meu amigo diz fazer parte, realmente se importam tanto assim com questões culturais e morais, quais têm sido suas ações concretas para preservar estas ideias?

Os liberais vêm criando think tanks, movimentos de nicho, associações e entidades que atuam nesta área. Especialmente nos últimos anos o movimento liberal cresceu e tem agido no campo prático. Até mesmo a eleição de Marcel Van Hattem (Rio Grande do Sul) - único político ainda decente dentro do PP - foi conquistada por uma equipe liberal e teve até a participação de Fábio Ostermann. Na Argentina, nossa vizinha, o atual presidente é um liberal que está literalmente destruindo pilares que sustentam a esquerda. Eu mesmo sou presidente e fundador de uma entidade que promove as ideias liberais em minha cidade, através da qual atuei não apenas intelectualmente, mas moralmente, e me expus em um debate público contra o movimento negro após o mesmo ter atacado uma pessoa inocente. No atual momento trabalho para pegar a liderança de um partido por aqui e, assim, conquistar terreno. No entanto, onde estão os conservadores? O que têm feito, senão críticas a nós enquanto fazemos o trabalho sujo de agir contra a esquerda?

A verdade é que meu amigo se equivoca duplamente ao afirmar que liberais ajudam a esquerda por aqui. Isso não apenas é falso como seu proporcional inverso é verdadeiro. Nós, os liberais, é que somos a verdadeira pedra no sapato de qualquer coletivista hoje existente nas terras tupiniquins. Podemos vacilar em algum ponto, não somos perfeitos e eu mesmo não falo por todos, somente por mim e pelos que voluntariamente concordam com o que digo, mas ainda assim estamos muito a frente no que diz respeito a frear a mentalidade vermelha que assola o país há décadas.

Para finalizar, ele repete a mesma afirmação desmentida em minha resposta:

"
A legítima direita é aquela que numa situação hipotética, em que se tenha que escolher entre a tradição e a economia, pesando na mesma balança eficiência econômica e os valores que a sociedade construiu ao longo de séculos, escolhe os valores."

Errado, sr. Arthur. Muito errado.

Não existe essa história de escolher entre os valores ou a economia. Não para os liberais. Para nós, são os princípios éticos que vêm primeiro. A economia vem depois, como consequência deles. Livre-mercado não é um princípio do liberalismo, é um fim. Nós lutamos para chegar a isso e sabemos que, para que aconteça, é necessário passarmos antes por questões éticas que envolvem, naturalmente, questões sociais, políticas e morais. Nós nunca precisaremos escolher entre "valores" ou "economia", pois nossos valores têm na economia apenas uma finalidade lógica, não uma prioridade.

Quer você admita ou não, ser liberal é isso. E guarde os espantalhos para usar no milharal.

23 de fevereiro de 2016

A Importância da Estética Discursiva

Muitos liberais e principalmente libertários têm negligenciado as questões estéticas, por isso fazem discursos que, aos olhos ainda virgens dos que não conhecem nossas ideias, parecem chocantes, agressivos ou até desumanos demais. Por outro lado, aos olhos de quem diverge intelectualmente, tais abordagens parecem revoltadas e infantis, por vezes até mesmo irracionais.

Acontece que ainda se crê muito na ideia de que o conteúdo é só o que importa, e por corolário pensa-se na forma estética como supérflua. Pura bobagem! A forma como as ideias se apresentam é o único meio sob o qual podemos enxergá-las. É, portanto, a realidade concreta. Deste modo não há sequer distinção que se possa fazer entre forma e conteúdo, vez que a forma faz parte do conteúdo.

Qualquer discurso doutrinário ou ideológico é composto pela ideia defendida, pela proposta inclusa na ideia, pela forma como a ideia é defendida e, também, pelo indivíduo que discursa, incluindo a sua trajetória, que será sempre alvo de desconfianças ou de créditos. Qualquer tentativa de separar forma e conteúdo é um embuste, intencional ou não, pois isso a que os puristas intelectuais chamam de "conteúdo" nada mais é do que uma abstração indemonstrável. É, no máximo, uma pseudo-realidade paralela a qual somente eles próprios têm acesso.

A verdade é que toda a estética é responsável pela primeira impressão, sendo então a responsável por agradar ou desagradar. E uma vez que a ideia desagrada existe maior dificuldade para que ela avance, tornando mais difícil sua implementação. Ignorar isso é um atestado de preguiça intelectual, além de ser um erro estratégico imperdoável.


De fato, o mundo estético é o único que pode ser visto, ouvido ou sentido, portando o único mundo verdadeiro. Algo diferente disso é uma ilusão de realidade criada para agradar o ego de intelectuais incompetentes.


"As razões pelas quais se chamou este mundo de 'mundo das aparências' provam, pelo contrário, sua realidade. Qualquer outra 'realidade' é indemonstrável." (F. W. Nietszche)

15 de fevereiro de 2016

Por que ainda existem socialistas?

Todo mundo - sim, todo mundo - sabe que o socialismo, aquele da teoria econômica perfeita que melhoraria a vida da classe operária, fracassou na projeção de seu intento teórico. A economia socialista é sem dúvida nenhuma um disparate impossível de funcionar e a história bem o prova.

O engano, entretanto, é acreditar que os socialistas - do passado e do presente - realmente tenham como intenção fazer esse sistema dar certo (considere que o "certo" seja aquilo que é bom para todos, conforme a proposta teórica). A teoria econômica socialista é falha em seus fundamentos e a prática já mostrou que ela não funciona. Só uma quantidade pequena de pessoas leigas é que ainda acha isso possível, mas as classes que comandam esses movimentos socialistas não são estúpidas. Pelo contrário! Elas são compostas por pessoas com conhecimento e estudo, muitas vezes gente inteligente, porém mal intencionada. A ideia de que o socialismo é utópico também é outra que passa longe da realidade. Uma utopia é algo bom que não é possível de acontecer ou que não nos é tangível. O socialismo, ainda que só na teoria, não é bom, ele é essencialmente perverso e tudo o que aconteceu nas tentativas de pô-lo em prática são os frutos diretos e intrínsecos à ideologia em si.

Sendo assim, o socialismo é na realidade uma distopia. E como toda distopia, pode até não ser agradável ou não ser justa - e não é. Mas está longe de "não funcionar." Economicamente, a teoria socialista pode ter falhado como proposta de melhoria da sociedade, todavia ainda é extremamente vantajosa para quem controla esses regimes ou os grupos que lutam por eles. O fato de ainda existirem socialistas não é meramente a ignorância de uns e outros, e sim a existência de muitas pessoas espertas lucrando direta e indiretamente com isso.

O indivíduo que defende ideias socialistas ortodoxas no luxo de seu iate, andando de picape por aí, vivendo uma vida abastada enquanto os seus próprios seguidores morrem de fome, obviamente não é um idiota que não entende de economia. Ele é, na melhor das hipóteses, um hipócrita, e na pior podemos dizer que ele seja um criminoso oportunista. A defesa moral do socialismo é perdoável em adolescentes, pois eles têm sonhos e são geralmente precipitados, muitas vezes são até burros. Qualquer adulto que defenda estas ideias não é nem de longe um inocente, é alguém que, pouco ou muito, está ganhando algo com isso.

Quem professa injúrias contra a classe média ganhando alguns milhares de reais numa universidade pública, trabalhando claramente em defesa do governo, jamais pode ser chamado de estúpido ou de ignorante. Esse tipo de pessoa é desonesta até a medula. O indivíduo que lidera o Movimento Sem Terra mas possui carros que custam o preço de uma casa certamente também não é bobo.

O socialismo pode até ter fracassado como modelo de sociedade ou como a economia ideal que diz ser, mas politicamente ainda é uma ideologia lucrativa para muita gente. E em maior ou menor grau, quase todos os seus defensores estão de algum modo sendo literalmente pagos para isso. É por isso que ainda existem socialistas.


12 de fevereiro de 2016

8 motivos para libertários NÃO tolerarem a esquerda

Ainda que no contexto brasileiro os libertários, de modo geral, repudiem a agenda regressista*, e mesmo que deixem isso exageradamente explícito, existe uma minoria no meio libertário que apoia ou, pelo menos, que age de forma condescendente com a esquerda. Esta minoria, os chamados "left-libs", são normalmente muito criticados, rechaçados e até excluídos pelos outros libertários, inclusive por mim.

Vamos aos pontos.

1 - Ação e discurso.

Muitos libertários são simplesmente ingênuos em confundir aquilo que os regressistas* dizem sobre si mesmos e aquilo o que realmente são. Isso ocorre até mesmo entre os que atacam a esquerda, mas é ainda mais comum entre estes que a apoiam. A defesa da "diversidade", pauta que é "comum" entre alguns libertários e regressistas, é um bom exemplo disso. O que diferencia é a prática, pois os libertários defendem, de verdade, qualquer tipo de liberdade sem dano a terceiros, enquanto a esquerda, no discurso, cobra privilégios a uns em detrimento de outros e, na prática, toma ações que diretamente prejudicam estas mesmas pessoas a quem diz defender.

A "igualdade", pauta que virou sinônimo de luta contra a pobreza, vem sendo também aceita por estes libertários que dizem se preocupar com os pobres. O problema é que a esquerda não liga para os pobres de verdade, ela apenas os usa com a finalidade de vencer eleição através do populismo. Todas as medidas que a esquerda defende, de cabo a rabo, servem apenas para aumentar a pobreza e a estado-dependência.

O "pacifismo", por exemplo, é uma das bandeiras que a esquerda usa para fingir que é contra a violência e contra as guerras, o que já está mais do que provado ser uma mentira. As lutas contra o racismo, o feminismo, entre outras coisas, são simplesmente engôdos que os regressistas usam, fingindo que são suas pautas legítimas e causas nobres, mas tudo isso serve apenas de trampolim para o que é o real objetivo destes grupos: o poder através de um Estado aparelhado e gigante.

Visto isso, é totalmente válido afirmar que o discurso da esquerda tem como base o roubo e a desvirtuação de pautas originalmente libertárias, enquanto sua finalidade prática é o roubo e a desvirtuação da própria sociedade. Não há nada de boas intenções aí.

2 - Diferenças essenciais.

Uma das bandeiras que a esquerda vem usando é a legalização das drogas. Outra bandeira também defendida por ela é o direito ao casamento civil para os homossexuais. Estes libertários, por falta de atenção aos detalhes ou canalhice pura, acreditam que também lhes seja lícito não atacar a esquerda nesses pontos, mas a verdade é que estas bandeiras não são legitimamente libertárias, são apenas ideias libertárias usurpadas e distorcidas para atenderem aos interesses da extrema-esquerda.

O que a extrema-esquerda quer é que o Estado controle esses setores, preferencialmente em forma de monopólio. Os libertários querem apenas a ausência do governo quanto a esses assuntos. Sobretudo quanto ao casamento, nunca houve necessidade da intromissão governamental. A união amorosa entre dois adultos pode ocorrer formalmente através de contratos privados ou de um "acordo" religioso, ou pode simplesmente ocorrer de maneira informal. Isso vale para qualquer união, inclusive a homo-afetiva. Se uma religião só aceita casamento heterossexual, cabe aos homossexuais que queiram se casar procurarem um cartório e registrar sua união ou então acharem outra igreja que os aceite como são. O governo simplesmente não tem nada a ver com isso.

Do ponto de vista libertário não existe justificativa para discordar disso.

3 - Conivência e apoio a criminosos.

Em pequenos e grandes casos, a esquerda regressista apoia bandidos, e geralmente o faz por motivações políticas. A defesa dos "Direitos Humanos" tem sido há muito tempo um bom modo de ganhar votos e, ao mesmo tempo, incentivar a prática de pequenos delitos, sempre com foco bem direcionado. Uma vez que delinquentes são apoiados e não punidos, no médio prazo a esquerda os usa em forma de militância, ou então ela se aproveita de suas mazelas para fazer propaganda ideológica. Somando isso com o total desprezo pelas vítimas dos criminosos, percebe-se facilmente que "Direitos Humanos" é algum tipo de privilégio exclusivo a quem comete erros e atrocidades - ou de quem pertence aos grupos extremistas da esquerda.

Há também o fato de que muitos deles lucram, literal e financeiramente, com esse estado de guerra urbana. São muitas ONGs, muitos escritórios de advocacia, muitos políticos e até partidos ganhando com isso. Vale notar que parte dessa violência urbana também só existe por causa de outras medidas regressistas tomadas no passado. Será que foi mesmo acidental, fruto de uma ingenuidade bem intencionada? Duvido.

4 - Liberdades civis.

Já vi e ouvi, de diversas pessoas, que a direita defende liberdade econômica enquanto a esquerda defende liberdade civil. Ambas são afirmações erradas. Nem toda a direita é pró liberdade econômica. Os nacionalistas e os neoconservadores (Enéas Carneiro, Olavo de Carvalho, etc) são inimigos declarados do livre mercado. E a esquerda, de modo geral, só defende a liberdade dela mesma. Também não existe uma linha mágica que separe liberdades civis e econômicas, pois muitas coisas para serem feitas envolvem ambas as coisas. A liberação das drogas, por exemplo, tem muito mais a ver com liberdade econômica, mas a direta é em sua maioria contra, a despeito do fato de que as drogas movimentam uma enorme parcela da economia mundial.

De qualquer forma, que tipo de liberdade civil é essa em que não se pode ter uma arma? E como podemos chamar de liberdade uma lei que proíbe pessoas de fumarem em estabelecimentos privados, ou a lei que proíbe os restaurantes de colocarem um saleiro sobre as mesas? Que tipo de liberdade civil é essa que quer "democratizar" - leia-se controlar - a imprensa e a internet, com o claro intuito de policiar opiniões? Todas estas bandeiras foram e ainda são defendidas, senão até mesmo criadas pela extrema-esquerda.

A verdade é que se dependesse dos regressistas nós viveríamos vigiados como em "1984", de George Orwell, e existiriam até fiscais dos movimentos sociais patrulhando as ruas. Para cada vez que morresse um "membro" de alguma dessas "minorias", mesmo que por acidente, dez homens brancos e católicos seriam fuzilados como forma de cobrar a "dívida histórica."

Regressistas são avessos à liberdade.

5 - Apoio a ditaduras e partidos nefastos.

Este é um ponto óbvio. A esquerda discursa em prol da democracia, mas age pela ditadura. Enquanto defendem partidos e governos que, de modo bastante claro, atentaram ou ainda atentam contra a humanidade, contra a civilidade e contra a tolerância, eles assinam o atestado de que rejeitam os mais básicos princípios da ética. Defender "direitos humanos" fazendo vista grossa para os crimes de Fidel Castro, ou então discursar em defesa da causa LGBT enquanto defende Nicolás Maduro, são provas cabais de canalhice.

Mais uma vez, não há nada de boas intenções aí.

6 - Inimizade declarada.

A esquerda age como nossa inimiga, pensa como nossa inimiga e, acima de tudo, ela nos vê como seus inimigos.

Muitos libertários destes citados, por serem bem intencionados, estúpidos ou meramente oportunistas, acreditam que aproximar-se ao discurso de esquerda poderá trazê-los para o nosso lado. Novamente, o equívoco é acreditar que o discurso da esquerda seja de boa-fé. Na prática, o que geralmente vejo ocorrer é que os libertários que fazem isso são usados pela esquerda em defesa dos discursos que beneficiam a ela. Nesse contexto é mais fácil que libertários se convertam ao esquerdismo do que o seu contrário.

7 - Intransigência.

Regressistas são boçais totalmente intransigentes com os nossos posicionamentos, ou com qualquer coisa que destoe do que eles defendem. Por isso, é ilusão acreditar em diálogos e acordos. Quando são contrariados eles não conversam, apenas batem o pé, gritam ou tentam de algum modo burlar as regras para se dar bem. Quando debatemos, eles não ouvem nossas ideias, ficam apenas tentando encontrar qualquer coisa em nossa fala que possa servir para nos rotular pejorativamente.

Para a extrema-esquerda conseguir o que quer, não importam os meios usados. Por isso é que intencionalmente monopolizam as virtudes e nos demonizam por não concordarmos com isso.

8 - Coletivismo.

Caso você não esteja devidamente convencido de que a esquerda é mal intencionada, ainda resta uma coisa a se abordar.

Supondo que os discursos dos canhotos representem aquilo em que acreditam, o fato é que eles ainda são coletivistas. O coletivismo é, resumidamente, o completo ou parcial esmagamento da liberdade individual, perpetuado através de mecanismos destrutivos. Literalmente, sacrifica-se a liberdade em troca daquilo que algum burocrata considera o "bem comum", tão subjetivo que pode significar absolutamente qualquer coisa.

Isso não é nada libertário.

Concluo, portanto, este breve texto. E sugiro que diante disso, se você é um desses libertários descritos anteriormente, não sirva aos interesses progressistas e não seja tolerante com eles, pois eles não são e nem serão tolerantes com você. Trate-se como inimigos, pois é isso o que eles são. E eles já sabem disso, falta você saber também.


* Regressistas são aqueles que se dizem progressistas mas que, na prática, defendem ideias medievais e violam direitos humanos se for necessário para fazer valer suas bandeiras.

8 de fevereiro de 2016

7 razões para os liberais NÃO apoiarem Bolsonaro

Muitos podem achar que é birra minha. Mas, tenho boas razões práticas, éticas e lógicas para dizer que o apoio a Bolsonaro, pelo ponto de vista liberal, é totalmente anti estratégico e incoerente.

Vamos, primeiro, às razões práticas.

1 - Má publicidade.

Mesmo que Jair Bolsonaro estivesse sempre certo em seus posicionamentos - e não está, ele não é uma pessoa conhecida por boas razões. Com exceção daqueles que são seus fãs e seguidores, o deputado é nacionalmente visto como um histérico boçal ou como um extremista. Obviamente, muito daquilo que a esquerda diz a seu respeito é mentira ou exagero, mas este fato não a impedirá de massacrar sua imagem. De cabeça, consigo pensar facilmente em umas cinco ou seis formas de vender negativamente sua imagem em uma campanha. Certamente, se eu consigo, a esquerda consegue ainda mais, pois é uma máquina de difamação.

2 - Ausência de plataforma.

Como disse o Raphael Lima, do canal Ideias Radicais, apoiar Bolsonaro é apoiar uma pessoa, não uma ideia. O que ele realmente pretende? Que tipo de ideias defende? Tudo o que temos é sua inócua - e inútil - atuação parlamentar, algumas declarações em vídeo e uma porção de entrevistas contraditórias. Ora defende a ditadura, ora diz jamais tê-la defendido. Já disse que é contra privatizações, mas também disse defender Estado Mínimo e Livre-Mercado. Simplesmente não há nada palpável.

3 - Precipitação.

Estamos em fevereiro de 2016. As eleições para presidente ocorrerão daqui a dois anos e meio. No momento, sabemos pouco. Nem mesmo temos ideia de qual será a configuração do pleito eleitoral. Portanto, antes de pensar em apoia-lo, é necessário perguntar:

  • Ele será candidato? Você tem certeza?
  • Quem mais irá concorrer?
  • Caso ele seja mesmo um candidato, quais partidos irão apoia-lo?
  • E se ele continuar no PP, de onde diz que vai sair há anos, mas nunca sai, e portanto nem chegar a ser candidato, o que você tem como alternativa?
  • Supondo que haja opções melhores do ponto de vista liberal, como o NOVO ou o PSL, ou um candidato de oposição com chances reais de vencer, como Ronaldo Caiado (DEM), para quê apoiar o Bolsonaro?
  • E as prioridades? Será que as eleições de 2018 deveriam ser nosso foco, agora?

4 - Cenário político.

Como dito no item anterior, falta bastante tempo a eleição de 2018. Até lá muita coisa pode acontecer. A crise pode piorar, assim como Lula pode morrer ou Dilma pode sofrer impeachment. Algumas previsões até podem ser feitas. Mas nada será decidido agora.

5 - Associação.

Se o movimento liberal apoiar a figura de Jair Bolsonaro, mesmo que por razões puramente práticas (se é que existe alguma), é preciso pensar no efeito colateral disso. Ao darmos esse apoio, quer ele vença ou não, todas as coisas que ele vier a fazer, boas e ruins, serão associadas a nós. Dado o histórico de bobagens ditas, pessoalmente eu não arriscaria. Até porque é um erro que custará caro. Levaremos pelo menos uma geração para corrigir algo assim.

Agora, vamos às razões éticas e lógicas.

6 - Discursos anti-liberais.

Sei o quanto os liberais brasileiros odeiam a esquerda. E estão corretos em odiá-la. Mas, não devemos nos iludir com a besteira de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Nem tudo o que está à direita nos é útil ou positivo.

Bolsonaro já defendeu - e ainda defende - a Ditadura Militar um sem número de vezes. Ele já declarou ser contra a privatização de diversas estatais (como Telebrás e Petrobrás). Não muito tempo atrás, também, disse que meninos afeminados deveriam levar porrada para, segundo ele, "aprenderem a ser homem." Talvez você ache esta última declaração meio banal, mas não é. É uma evidência de comportamento e ideologia que viola de todo a ética liberal. Não é possível imaginar qualquer argumento liberal para defender tal raciocínio.

7 - Supostas mudanças.

Diante das afirmações feitas acima, muitos reagem dizendo que ele está mudando - ou que já mudou - e que tem se tornado um liberal. É verdade que de uns dois anos para cá seu discurso está um pouquinho diferente. Mas, há duas semanas ele deu entrevista reforçando parte do que foi exposto no sexto item.

Assim mesmo, acho totalmente razoável desconfiar dessa mudança. Além de ser algo radical e superficial demais, existe o histórico do indivíduo que sustenta, facilmente, a suspeita de que tudo seja puro oportunismo. Sofrer uma mudança tão brusca como essa, aos sessenta anos, justo quando o movimento liberal cresce exponencialmente, é digno de dúvidas sinceras. Será que ele diria ser liberal em 2006, quando o movimento ainda não encheria uma Kombi?



Duvido. Particularmente, vejo esta mudança alegada como uma forma esperta de se perpetuar no cargo em que ocupa. Contudo, se ele realmente mudou, o que não é totalmente impossível - ainda que altamente improvável, é cedo demais para afirmar com certeza. Sugiro que esperem desconfiados e atentos. Precisamos, para saber se houve alguma mudança de verdade, de algumas evidências que só o tempo poderá nos dar.

E são estas as razões que considero principais. Entretanto, fiz este apanhado geral com intuito de expor o raciocínio aos liberais que consideram estratégico apoiá-lo. Logo, se você é um fã e concorda com tudo o que Bolsonaro diz e faz, nada disso é para você. Pessoas que chegam a esse nível de idolatria não são liberais, são no máximo casos perdidos.


Promessa: será a última vez neste mês que falarei sobre Bolsonaro. Se não houver mais necessidade, pretendo não falar sobre ele até o fim do ano. Basta, para isso, que liberais parem de apoiá-lo. Tudo o que eu tinha a dizer sobre este senhor já está dito aqui e em outros artigos feitos anteriormente.