14 de setembro de 2016

Sua ideologia não te impede de ser articulado

Costumo ler e ouvir muitas vezes pessoas dizendo que algumas ideologias possuem vantagem sobre outras, principalmente no que tange a articulação política, argumentação em debates, etc. Isso pode ser verdade em determinados contexto, mas quem pensa assim normalmente está enxergando as coisas por uma visão... ideológica.


Para fins de abordagem, esqueça as ideologias que segue. Deixe de lado, por um segundo, aquilo em que acredita. Se passarmos a analisar mais friamente as situações, certamente vamos perceber que há alternativas boas em quase todas elas. Um exemplo que quero usar novamente é o debate entre Marcelo Freixo e Flávio Bolsonaro, no qual o último se saiu muito mal a respeito do tema em questão, que era o combate às drogas.

No artigo que escrevi a respeito, apenas critiquei a fraca atuação de Flávio e a tranquilidade com a qual Freixo o rebateu, mas não apontei alternativas. Na página, alguns seguidores sugeriram que a posição contrária a liberação das drogas, no caso o lado de Flávio, estaria em desvantagem e que isso poderia justificar sua fraca articulação diante do outro, que estaria em "vantagem ideológica". Isso, contudo, não é bem uma verdade.

Em primeiro lugar, eleitoreiramente falando o lado de Flávio era bem mais cômodo. A esmagadora maioria da população tem receio em relação a legalizar drogas, é bem provável que a maior parte das pessoas seja totalmente contra. O tema, que é praticamente um tabu, em tese deveria tornar a posição de Freixo mais difícil, uma vez que ao propor a legalização ele estaria batendo de frente com diversos valores sociais que já são bem estabelecidos.

De qualquer forma, ainda que a posição de Bolsonaro ali fosse mesmo mais difícil, ele tinha pelo menos duas boas alternativas para atacar Freixo de frente e, ainda que não o destruísse, pelo menos o deixaria em situação menos positiva. Uma destas alternativas é apelar à emoção das pessoas, o que certamente ele não fez com a ridícula piadinha do "bolsa-larica". Seria bem mais esperto da parte dele atacar Freixo em seu ponto fraco, que é justamente a relação dos usuários de drogas com suas famílias, algo geralmente muito triste e conturbado.

Lembre-se: eu te pedi para esquecer brevemente a ideologia que defende e analisar friamente a situação. O discurso de Freixo, quando ele mostra preocupação - ainda que falsa - com o policial e com o usuário que morre por conta do tráfico, tem apelo forte para as pessoas. Para rebater tal resposta, a réplica deveria também conter elementos emocionais fortes. Seria inteligente da parte de Flávio, se ele de fato fosse alguém articulado, agregar valor às suas palavras falando sobre a difícil situação de pais de usuários que precisam lidar com filhos em estado deplorável de saúde ou mesmo de sanidade mental, além dos casos em que os usuários cometem crimes e acabam com as famílias.

Outra alternativa, no entanto, seria aquela na qual Flávio não escolhesse um tema no qual sabe que o oponente possui vantagem - uma larga vantagem, visto que Freixo já foi professor e tem experiência em lidar com o assunto das drogas. Que tal, em vez disso, pegar o adversário em uma situação menos favorável? Quais temas seriam mais apropriados para pegar Freixo em sua fraqueza?

Um deles, certamente, é segurança pública. As propostas do PSOL para esta área são no mínimo ridículas, e não é difícil mostrar pras pessoas o quanto. Outra questão fácil para atacar Freixo é a quantidade de serviços públicos que ele defende, especialmente por estarem no Rio de Janeiro, um estado falido. Qualquer pessoa é capaz de compreender que o governo tem sido ridiculamente ineficaz na administração dos serviços essenciais, então fica fácil mostrar como ele não pode ficar responsável por ainda mais serviços.

Em relação a segurança pública, Flávio poderia ter aproveitado a deixa dada por Freixo em seu Twitter, quando este alegou que cidade segura é cidade iluminada e que não é preciso policiamento. Além disso, no atual estado de calamidade que está a segurança pública no Rio, qualquer candidato que se posicione à direita já tem vantagem, uma vez que as políticas de esquerda é que justamente transformaram a cidade no que ela é hoje.

Não faz sentido, quando você tem escolha, atacar o adversário em suas forças. O correto é sempre escolher suas fraquezas e explorá-las. Por isso, afirmo categoricamente, Flávio já errou ao escolher a pergunta. Depois, errou ainda mais na réplica, quando perdeu uma excelente oportunidade de expor o adversário com argumentos emocionais. E mais: Flávio ainda poderia ter jogado contra Freixo o caso Amarildo, uma vez que a ONG ligada ao caso recebeu muita grana que foi parar no gabinete do próprio deputado.

Saindo um pouco do debate entre Flávio e Freixo, quero também lembrar que quando se trata de eleições, sobretudo as majoritárias, ideologias e discursos raramente importam. Na prática, não se trata de conquistar os votos de quem pensa como você, mas de quem está indeciso. Por ideologia, geralmente quem concorda com você irá escolhê-lo de qualquer jeito, mas os indecisos, e principalmente os que não necessariamente sabem qual ideologia seguir, querem algo diferente: eles querem postura.

Forma e conteúdo são indissociáveis, este é um fato com o qual precisamos lidar. Não existe essa história de dizer que as pessoas precisam te escolher pelo conteúdo de suas ideias, pois é a forma através da qual suas ideias se apresentam que realmente fará com que elas sejam vistas. Neste caso, a postura é o que mais chama atenção.

Enéas Carneiro não era bem votado como candidato a presidência porque sua forma era caricata e aparentemente desequilibrada, sua forma de comunicação era ridiculamente falha, ninguém de fato entendia o que ele queria dizer. Lula, no entanto, com muito menos conteúdo conseguiu ser um dos políticos mais influentes da América Latina, tudo pode soube ajustar-se ao formato adequado.

Além disso, você não pode contar só com a aprovação. É preciso pensar também na rejeição. Políticos como Jair Bolsonaro conseguem, sim, uma legião de fãs, e isso faz parecer que eles têm tudo para ganhar. O que normalmente não se conta é o quanto há de rejeição por trás destes nomes. Se para cada fã adquirido um político consegue duas pessoas o rejeitando, ele tende a ser derrotado. É por isso que muitas vezes você precisa trabalhar tanto na sua imagem como na desconstrução da imagem adversária, e isso não se limita a uma ideologia. Qualquer pessoa pode ser articulada dentro destes moldes, seja ela conservadora, libertária, comunista ou nacionalista cristã.