3 de setembro de 2016

Não há mérito na derrota e nem honra na morte

Uma das coisas que frequentemente ouço, quando digo às pessoas que elas precisam jogar melhor a guerra política, é que elas preferem "não se rebaixar" para vencer, que preferem "perder com honra." Que me perdoem os amigos, mas esta é a desculpa dos perdedores.


Não existe nenhum mérito em perder. É claro que podemos aprender com as derrotas, podemos tirar delas algumas lições, mas não há nada de bom em perder. E diferentemente dos esportes, quando falamos de política estamos lidando com as nossas vidas. No longo prazo, um mau político pode fazer muito mais estragos do que uma surra ou um tiro. E, para todos os efeitos, também não é correto dizer que existam bons políticos.

Bons e maus políticos são assim definidos de acordo com aquilo que nos convém, e é assim que deve ser. A política precisa se ocupar daquilo que é oportuno, não da moral e da ética. É assim que o jogo funciona. Deste modo, se você luta, é necessário pelo menos lutar para vencer. A única honra é saber que fez o seu melhor e que, assim mesmo, foi vencido por um adversário melhor que você. De toda forma, não há méritos nisso, assim também não existe nenhuma honra em estar morto.

Perder com honra é um eufemismo para quem é fraco e, como pretexto, diz que faz isso em nome de algum ridículo senso de moral. A única forma de perder e ainda manter alguma honra é se fez tudo o que estava ao seu alcance para vencer, e isso é o mínimo também, não há nada para se orgulhar.

Insisto em dizer, embora pareça que boa parte dos leitores ainda não tem maturidade para compreender, que as táticas não possuem ética. Uma tática é apenas um mecanismo, uma ferramenta para um fim. A ética está nos fins desejados, nos objetivos. Se você tem objetivos em mente e abre mão de usar uma tática eficiente para alcançá-los, então você é um frouxo, é um perdedor. É alguém que se escora em supostos valores éticos nos quais não acredita realmente. Abrir mão da vitória em nome de um senso moral tosco é para os fracos.

Alguém lembra daquela vez em que Rubinho Barrichello estava ganhando a corrida, mas desacelerou o carro no fim para deixar Schumacher passá-lo? A razão pela qual ele fez isso é totalmente aceitável. Schumacher e ele eram da mesma equipe, mas o alemão precisava dos pontos para vencer, enquanto Rubinho com aqueles pontos não teria chance de levar o campeonato. Ele sacrificou a vitória pessoal pela equipe, para que a Ferrari levasse o título.

Muitos o criticaram por isso e, do ponto de vista de um corredor, o que ele fez pode ser considerado pouco nobre. Aí eu questiono: E se Michael Schumacher, em uma atitude de "nobreza", resolvesse não ultrapassar Rubinho? Eu sei o que aconteceria: Outro corredor os ultrapassaria e levaria os pontos, pois ambos teriam que desacelerar o carro para isso.

A questão, aqui, não é o que você não possa perder, e sim a de que é sua obrigação moral vencer. Para Rubinho não fariam diferença aqueles pontos, já que ele estava mal posicionado justamente por derrotas anteriores. Para o Schumacher, entretanto, os pontos seriam cruciais para aproximá-lo da taça. Ele aproveitou a chance e seguiu em frente, vencendo a corrida e posteriormente o campeonato também. É assim que deve ser.

Rubinho, que foi um dos 100 maiores corredores de Fórmula 1 do mundo - um feito interessante que eu e você provavelmente nunca teremos, será lembrado para sempre como um péssimo corredor. Não por esta corrida, mas por todo o seu histórico de derrotas. Michael Schumacher, por outro lado, é lembrado até hoje como um grande campeão, porque ele foi bom piloto e também um baita oportunista.