1 de agosto de 2016

A lição de Sabatella

Não que isso seja novidade para quem me acompanha, nem para quem acompanha Luciano Ayan, mas não custa dizer: A direita brasileira possui dificuldades cognitivas muito graves no que tange ao campo político. Como se já não bastasse a estupidez de críticos de Lula que idolatram Barack Obama, ou detratores do PT que umidificam suas calcinhas com discursos inflamados de Hillary Clinton - e, é claro, sem notar a menor contradição nisso, temos agora as pessoas que enxergam contradições lógicas em situações nas quais o que há, de fato, é puto oportunismo político.

O caso de Letícia Sabatella, que foi escrachada em uma manifestação de rua ontem por defensores do impeachment, é uma lição que temos que aprender. Sugiro, para fins didáticos, que lembremos de um caso bem recente, ocorrido no aeroporto de Brasília, quando Janaína Paschoal foi, de forma muito mais agressiva, agredida verbalmente - e houve quem quase a agredisse fisicamente. Certamente você viu o caso, mas se não o viu, clique aqui.

A situação é bem simples. Não há diferença essencial entre os dois casos - Sabatella e Janaína. Se retirarmos as personalidades envolvidas, ambos são casos de escracho, basicamente agressões verbais com a finalidade de intimidar, envergonhar ou apenas constranger opositores políticos. Quando colocamos as personalidades envolvidas é que vemos a diferença, pois temos de um lado o escracho feito por militantes petistas contra Janaína Paschoal, uma pessoa honesta que está apenas fazendo seu trabalho, enquanto do outro lado temos o escracho contra Letícia Sabatella, uma atriz que estava pouco lembrada na imprensa nos últimos anos, oportunista e que obviamente foi até lá para que a escrachassem e ela pudesse tirar disso algum proveito.

No entanto, as duas ações são igualmente políticas, exceto por um detalhe: Letícia Sabatella o fez de forma consciente e proposital, enquanto Janaína foi meramente uma vítima das circunstâncias. Só que isso, obviamente, não é exatamente um motivo para nos orgulharmos. Não há nada a ser prestigiado no fato de sermos meras ovelhas políticas agindo contra chacais em pele de carneiro. 

O que proponho, no caso, é algo bem simples: Temos que ser tão oportunistas quanto mil Letícias. Espero, contudo, que você tenha maturidade para entender que ser oportunista não significa mentir ou tirar proveito de gente inocente. O oportunismo é apenas o ato de aproveitar oportunidades para obter ganhos. Que tal, por exemplo, se alguns ativistas pró-impeachment comparecem próximos desses movimentos de extrema-esquerda durante os seus atos, munidos de câmeras ou celulares, para filmar toda a ação? Que tal se nós começássemos a jogar pra valer contra essa gente?

Quem conhece o Mídia Ninja e suas origens pode certamente lembrar de como tudo começou: Narrativas Independentes Jornalismo e Ação, é isso o que quer dizer "ninja". Na prática, não passa de um bando de moleques com celulares na mão. Eles filmam ações, editam apenas aquele pedacinho que interessa e jogam na rede. O rebanho dos idiotas compartilha e pronto. Muitas vezes, pessoas que não são ligadas em política mas que são cheias de boas intenções acabam comprando essas "narrativas independentes", que na realidade são meros recortes da realidade feitos em prol de resultados convenientes. Assim é.

O que mais me preocupa, de qualquer forma, é que tudo o que foi dito aqui deveria ser óbvio. Eu não precisei me formar em psicologia ou virar antropólogo para entender relações humanas tão básicas, nem precisei me especializar em semiótica e linguagem - embora eu estude de fato todas estas coisas. Tudo o que precisei para tomar consciência disso foi observar a realidade e entendê-la.