15 de agosto de 2016

A 'direita true' se recusa a jogar contra a esquerda, mas joga contra a própria direita

Tenho observado, há meses, um curioso padrão de comportamento por parte da *direita true, que embora negue veementemente participar da guerra política de modo eficaz contra a esquerda, joga contra a própria direita de um modo relativamente eficaz. Tal fato me leva a concluir, aliás, que o grande interesse por trás dessa parte específica da direita não é sequer vencer a guerra contra a esquerda, e sim tomar para si mesma o monopólio da oposição. E explico.

Figuras vergonhosamente ridículas como Luana Bastos ou Patrícia Lélis, para começar, surgiram no berço da direita true. Elas eram até pouquíssimo tempo atrás idolatradas pelos bolsominions e olavettes, eram tratadas como "musas da direita". Quando nós, da "falsa direita", dizíamos que esse nível insano de idolatria revelaria-se como um grande erro, a resposta da direita true era sempre a mesma: nos rechaçar.

Hoje, após um amargo e triste episódio, essa turminha descobriu o óbvio: as duas não passavam de oportunistas querendo fama e dinheiro, acusações idênticas àquelas que esta mesma direita true fez contra membros do MBL. Pelo que posso perceber, esse tipo de coisa vai continuar acontecendo. No futuro outras dessas fraudes chamadas de "musa" ou "mito" vão se mostrar como são, e aí será mais choro e ranger de dentes. Claro, eu avisei e pretendo assistir de camarote.

Um ponto curioso sobre os ataques que foram feitos contra o MBL no último ano, entretanto, é que eles se encaixam em um padrão de jogo. Foram ataques, em sua maioria, contra a índole do grupo e seus integrantes. Quando olavettes passaram a atacar o Kim Kataguiri a mando de Olavo, eles o chamaram de farsante, trapaceiro, pilantra e traidor, adjetivos que atingem a moral. O mesmo aconteceu quando começaram a atacar Fernando Holiday após ele ter se assumido homossexual. Passaram a fazer piadinhas e trocadilhos para tentar humilhá-lo, sendo que o próprio Olavo se refere a ele sempre fazendo referência ao fato de ser gay, como se fosse pejorativo por si só.

Da mesma forma que Luana Bastos e Patrícia Lélis sabotaram o PSC por dentro, queimando o filme de um monte de gente do partido, os neo-conservadores comandados por Olavo de Carvalho tentaram sabotar o MBL e o movimento pró-impeachment como um todo. Não deu certo, mas só porque eles são incompetentes demais para isso.

O padrão de ataques feitos contra o Movimento Brasil Livre, no entanto, segue quase integralmente o padrão dos ataques que a esquerda faz contra seus inimigos, e é justamente esse o padrão que se esperaria ver a direita usar contra a esquerda, porque ele é eficaz. No entanto, a direita true não utiliza este padrão para atacar a extrema-esquerda, somente outros grupos de direita. Não é irônico?

Perceba, por exemplo, que os ataques da direita true contra os extremistas de esquerda costumam ser pautados em ataques ao comportamento e à competência, não à índole ou à moral. Diferente do modo como agiram com Kim Kataguiri, não lhe dando nem mesmo o benefício da dúvida, os ataques contra figuras da esquerda feitos por eles costumam ser muito menos eficientes e bem menos incisivos. Eles chamam Carina Vitral, presidente da UNE, de "garota ingênua", de burra, estúpida, etc., mas para o MBL e seus representantes os ataques são pesados, pois ferem a honra diretamente, exatamente o que deveriam praticar contra a extrema-esquerda.

O líder do MBL, Renan Santos, foi atacado recentemente tanto pela extrema-esquerda quanto pela direita, e exatamente pelo mesmo motivo: uma acusação falsa de um suposto crime administrativo, uma fraude empresarial que de fato não aconteceu. Renan Santos não está respondendo criminalmente por isso, aliás. Mas um jornalista do UOL, meses atrás, publicou a matéria sobre o assunto e, não para minha surpresa, a matéria foi usada como arma política justamente pela mesma direita true que sabe que o UOL é um site esquerdista.

Ontem mesmo, aliás, vi um desses vermes da direita true atacando Renan Santos na internet usando exatamente o mesmo padrão. Ele mesmo sabia que a matéria do jornalista era falsa - tanto que ele foi processado por isso e está quietinho hã um bom tempo - mas continuou a usá-la para ferir a honra de Renan. Ironicamente, eles nunca fazem isso contra um esquerdista. Nestes casos são bem menos eficientes e muito pouco persistentes.

Luciano Ayan, por exemplo, foi duramente atacado pela ala true da direita quando "rompeu" com Olavo de Carvalho no fim do ano passado e início deste ano. O fato de ele usar um pseudônimo, que até então nunca tinha sido problema para eles, passou a ser usado como argumento contra a índole do blogueiro. O próprio Olavo de Carvalho, que já havia inúmeras vezes elogiado o trabalho de Ayan e dito que o pseudônimo não era problema, passou a atacá-lo com esta retórica. Novamente, não se vê os colegas fazendo isso contra a extrema-esquerda, apenas contra a direita.

É com base neste padrão comportamental, que pode ser observado nos casos de Ayan, MBL, Francisco Razzo ou Marco Antônio Villa - todos que, em algum momento, foram vítimas da direita true - que afirmo, de modo claro, que essa direita quer apenas ter para si o monopólio da "oposição", mas não quer vencer a esquerda. Mesmo porque, para manter este padrão de ineficiência patética que ela tanto insiste em administrar, é necessária a existência predominante da extrema-esquerda.

Para manter a retórica ridícula olavette é preciso que existam abominações como PT, PSOL, Levante Popular da Juventude, etc. Da mesma forma, para que possam insistir no argumento esdrúxulo de que Bolsonaro é "a única opção", eles naturalmente precisam minar todas as outras opções, por isso atacam até mesmo Ronaldo Caiado, que fazia oposição à esquerda desde quando Olavo era astrólogo - e quando defendia o Lula - e desde os tempos em que Jair Bolsonaro andava de mãos dadas com o PCdoB na Câmara dos Deputados.

De fato, é uma parte da direita que se recusa a jogar para derrotar os inimigos, mas se esforça para jogar quando o objetivo é derrotar os potenciais aliados. É por isso que com essa gente eu não me misturo, são a escória.


*Direita true não tem a ver com ideologia ou posição política, é um comportamento, um modo operante. É a parte da direita que se auto-proclama "a verdadeira direita", tratando todo o restante da direita como uma "falsa direita". Não importa quais sejam as posições específicas, o direitista true pode ser um conservador, um nacionalista ou até um liberal. Contudo, observa-se que o comportamento é extremamente comum entre neo-conservadores (olavettes, por exemplo) e nacionalistas (bolsominions e fãs do Enéas Carneiro)