4 de julho de 2016

O que mais podemos fazer além de ir às ruas?

Um amigo me perguntou hoje quais são as nossas alternativas além de irmos às ruas, além de protestarmos contra o governo. Ele queria saber, de minha parte, que outras formas temos de pressionar o Congresso e atuar de modo a atingir nossos objetivos. Espero, neste artigo, esclarecer algumas ideias.


Passado

Sendo bem sincero, até meados de 2015 eu ainda não tinha muita fé que essas manifestações todas chegariam a atingir sua finalidade: o impeachment. Cheguei a dizer, em 2014, que a própria ideia do impeachment era absurda e que provavelmente nunca passaria no Congresso. É claro que, apesar deste equívoco que assumo ter cometido, nunca desencorajei ninguém e também nunca tentei sabotar o movimento. Pensei que, mesmo que não atingisse o objetivo maior, pelo menos atingiria alguma coisa.

Felizmente vivi o bastante para perceber que as manifestações de rua deram certo, elas serviram para mostrar ao Congresso que havia, de fato, muita insatisfação, e que não eram apenas umas poucas pessoas protestando, mas dezenas de milhões. Políticos agem por interesse, é óbvio que não iriam bater de frente com tanta gente assim e perder votos, ainda mais considerando que este ano tem eleição, e em 2018 novamente. Para garantir o ganha-pão, farão o que acharem necessário. Isso tanto é verdade que uma das mais proeminentes petistas da história do partido, a senadora Marta Suplicy, abandonou a legenda depois de anos e foi correr ao PMDB. Ela queria fugir de um navio que vai afundar, cedo ou tarde.

Essa é uma guerra que ainda não vai acabar, e é preciso ter isso em mente. Se quisermos nos ver livres de uma tirania velada, se quisermos acabar com a mão pesada do Estado nas costas do povo trabalhador, teremos que atuar firmemente e por um longo tempo. A queda de Dilma é um passo importante, mas é um passo de muitos. E visto isso, digo que podemos, sim, atuar em outras frentes, paralelamente aos protestos de rua.


Presente

Uma coisa que no momento está ao nosso alcance, por exemplo, é o ativismo judicial. As militâncias de esquerda são hábeis nisso, por isso elas têm êxito em calar qualquer oposição ao status dominante. Principalmente dentro dos movimentos mais jovens como MPL e UNE, ou mesmo a UBES e a ANEL, é recorrente o uso da pressão política para que se criem leis de exceção ou leis dúbias, que possam ser usadas a bel prazer para punir quem se opõe. E quando algum oponente fala, seja o que for, ele é enquadrado em "discurso de ódio", "racismo" ou qualquer outra coisa.

A Thaís Azevedo, que é administradora da página "Moça, não sou obrigada a ser feminista!", sofre processo no momento. O processo, obviamente movido por feministas, tem a clara intenção de silenciá-la. E o motivo é bem simples: Thaís faz duras críticas aos movimentos feministas. É só isso. Mas a pergunta que faço, então, é: Por que nós não estamos revidando? Alguém já pensou em processar aqueles militantes que cuspiram e quase bateram em um estudante que queria entrar na universidade usando a camiseta do Bolsonaro? Não importa se concordo com ele ou não, o que importa é que o rapaz tem todo o direito de usar a camisa que quiser. Os militantes de extrema-esquerda, por sua vez, agiram com truculência, foram violentos, e apesar disso ninguém os está processando. Por quê?

Também temos como possibilidade a atuação nos meios de comunicação e no meio artístico. A princípio esta ideia soa absurda, mas ela não é uma medida de curto prazo. Trata-se, na realidade, de uma tática de longo prazo que apenas integra a estratégia geral. Quando falo em "atuar nos meios de comunicação", quero dizer apenas que podemos incentivar nossos amigos a se formarem em jornalismo e comunicação, podemos incentivar pessoas que escrevem bem a criarem bons blogs para defender seus pontos de vista, podemos até mesmo nos unir a estas pessoas talentosas e, com planejamento, criarmos nossas redes de informação.

O que impede liberais de pararem de chorar porque a imprensa é vendida e simplesmente abrirem um jornal? Nada impede. Sei que pode ser algo caro, mas também não é necessário começar com tudo. Cria-se primeiro um bom site, e aí se mantém atualizado este site, sempre procurando averiguar ao máximo as informações para não publicar mentiras, e assim conquista-se a confiança do público. Este site, por exemplo, nem mesmo tinha domínio próprio até alguns meses atrás. Eu o mantinha como um blog no qual escrevia esporadicamente, e quando vi que tinha atingido certo público passei a escrever com frequência, comprei o domínio e no momento tento profissionalizá-lo.


Há, ainda relacionado ao item anterior, uma coisa importante a ser feita: Temos que parar de compartilhar links de sites vendidos como Folha de São Paulo ou UOL. Estes sites não são mais voltados ao jornalismo, são apenas propagandistas de esquerda. A sugestão que dou é que, sempre que possível, se você ver uma matéria a respeito de um tema em algum site do tipo, procure a mesma informação em outro site qualquer e compartilhe. Temos que parar de valorizar o trabalho de quem não merece. Há muitos bons sites surgindo por aí, e mesmo que eles apenas reproduzam as notícias destes jornais maiores, ainda assim devemos valorizar quem defende a verdade, não quem defende interesses partidários.

Nós também podemos começar a escrever bons livros, até mesmo na área de literatura. Esta é outra ideia que surtirá efeito a médios e longos prazos, só que uma hora teremos que começar. Nos últimos anos têm surgido vários autores brasileiros com viés liberal ou conservador, e isso é bom. Quanto mais, melhor. Então se você tem boas ideias, se você acha que escreve bem, comece a escrever seu próprio livro. Depois procure alguma editora, negocie e dê o seu jeito de publicar. O que importa é ocuparmos terreno.



Pressionando políticos

As manifestações de rua criam pressão na classe política. Milhões de pessoas insatisfeitas são milhões de votos, e nenhum político que se preze está disposto a perdê-los. Mas esta não é a única forma de pressioná-los, nós temos outros meios.

Pensando a nível local, como uma cidade ou um governo estadual, uma coisa interessante é que a população se una e comece a frequentar sessões da câmara, no início até mesmo ouvindo o que cada um diz para pescar informações contra os políticos da região. Com o tempo a própria sociedade civil, devidamente organizada, pode apresentar projetos na câmara municipal ou na Assembleia. O que recomendo, para diminuir o poder dos políticos, é a criação de projetos de revogação de leis estúpidas, redução de impostos e, é claro, redução dos próprios salários deles. Se a população estiver em peso pressionando é bastante provável que a maioria dos políticos irá preferir não bater de frente com ninguém.

Um grupo de liberais, de libertários ou de conservadores que eventualmente não queira se envolver na política diretamente também pode se utilizar disso para prejudicar partidos e políticos que considerem piores, em geral os mais ávidos por poder e controle. A pressão se cria através de seis, dez ou trinta pessoas que estejam dispostas a perseguir estes políticos e escrachá-los ou simplesmente fazer vídeos filmando as ações deles, postando na internet depois. Nós temos a internet, que é uma ferramenta ampla e muito útil, a nosso favor.

Ainda na internet, é perfeitamente possível criar sites ou páginas voltadas exclusivamente a fiscalizar o trabalho de parlamentares ou mesmo de um prefeito, um governador, etc. Reunir pessoas em um ideal como este não é difícil, e é perfeitamente possível aproveitar demandas que já são populares para mobilizar um bom número de gente. Uma demanda que é fácil de conseguir atender é a redução de impostos, ou até mesmo a abolição de impostos. Para isso basta termos o discurso certo. Muita gente acha que impostos são usados para pagar o hospital público ou a polícia militar, mas no geral a maior parte dos tributos se volta para sustentar o próprio sistema em si mesmo. Se as pessoas começarem a ter essa noção, as coisas podem começar a se ajeitar.

Nas escolas, muitas vezes, ocorre a chamada doutrinação escolar. Vários pais de alunos são pessoas comuns, leigas, o tipo de gente que não entende do assunto. Mesmo assim, muitos são pessoas que não gostam do PT ou do PSOL. Se nós soubermos aproveitar as coisas a nosso favor, uma coisa que podemos fazer é justamente instruir pais de estudantes, sobretudo os que estão em idade ginasial ou secundarista, os que ainda estão em fase de salvação. Se os pais souberem o que acontece de verdade nas escolas eles mesmos começarão a tomar providências, talvez eles mesmos virem suas armas contra o estado se forem devidamente instruídos a isso.

Enfim, as possibilidades são muitas. Creio que consegui explanar tudo de forma clara. Caso necessário posso fazer outros artigos sobre isso no futuro.