3 de julho de 2016

Guerra Política | Triangulação

Quem conhece este site ou a mim, sabe que há muito tempo critico a postura de liberais, libertários ou até mesmo conservadores que têm verdadeira mania de achar que podem converter todo mundo. Apesar de quase sempre terem razão, no sentido mais puro do termo, na maioria dos casos estas pessoas são um pouco iludidas quanto aos propósitos naquilo que fazem, e exatamente por isso é comum ver debates nos quais o nosso lado tenta, inutilmente, convencer o outro lado de que temos razão. Com este artigo pretendo explicar porque isso é quase sempre uma tática ruim.


Peguei a imagem acima de um artigo escrito por Luciano Ayan, há alguns anos. A ideia geral aqui é praticamente a mesma.

Imagine que o triângulo represente um debate, no qual há você, seu opositor e outras pessoas que estão ali apenas assistindo a discussão. A plateia, no caso, pode ser de duas pessoas ou mil, tanto faz, o que importa é que elas não façam parte do debate diretamente. Agora, vamos determinar que tipo de debate é este. Se estivéssemos falando de uma discussão acadêmica, ou se o objetivo de ambas as partes fosse meramente dialético, então não faria muita diferença a forma como você aborda os assuntos. No entanto, a esmagadora maioria dos debates é político, mesmo que ele não seja sobre política.


Sim, um debate não precisa ter como tema a política para ser um debate político. O assunto pode ser qualquer um, um debate político é aquele no qual você discorda de seu oponente e não está disposto a aprender com ele, muito menos a ser complacente. Seu objetivo em um debate político é fazer as suas ideias parecerem superiores, mesmo que elas não sejam. O problema de alguns liberais nesse caso é que, pelo fato de as ideias liberais serem superiores, no sentido moral e racional, eles passam a crer que podem apenas dizer a verdade e que isso os fará vencer pelo mérito. E mais, alguns ainda acreditam, com isso, que poderão convencer o seu adversário a mudar de lado.

Obviamente esta é uma estupidez pautada na mais pura inocência sobre como o mundo realmente funciona. Entenda que em um debate o seu objetivo não deve ser, para começo de conversa, a conversão do adversário. Pelo contrário! A melhor coisa que pode ocorrer em um debate é justamente o seu adversário discordar de você até o fim, principalmente se suas ideias forem melhores que as dele. O objetivo primário que você deve ter em qualquer discussão é a plateia, as pessoas que acompanham o debate. Elas é que devem ser o seu alvo de conversão. E quanto mais você mostrar que seu oponente está errado, mais elas tenderão a ver que você está certo. A antagonização de ideias, se bem feita, é a melhor ferramenta nesse tipo de situação.

Sendo assim, se você se vê diante de um adversário forte, mas que comete erros, você deve explorar os erros dele. Se você se vê diante de um oponente fraco, então, melhor ainda. Force-o a errar ainda mais. Induza-o ao erro se preciso for. Quanto mais tolo e despreparado ele parecer diante da plateia, melhor para você. Nem mesmo tente convertê-lo, apenas aproveite o espaço para martelá-lo até que ele esteja completamente afundado. Debates não são mais do que um pequeno circo intelectual, e em geral pouco importa ali quem tem razão, mas quem parece ter razão ou quem, de fato, tem a melhor retórica.

Agora, trazendo essa situação para exemplos, podemos pensar em um debate público entre um liberal e um marxista. A primeira coisa que precisamos aceitar é que todo o discurso da esquerda é pautado em logro e fraude, nunca em fatos e verdades. Se o seu oponente é um mentiroso intencional ou apenas vítima de mentiras que foram contadas a ele, não importa. Não agora. Na realidade em um debate isso não faz a menor diferença. Para todos os efeitos, não subestime a inteligência e não superestime a moralidade de seu algoz. Trate-o sempre como alguém que pode ser mais esperto do que você e trabalhe sempre com a hipótese de que ele seja desonesto e não apenas estúpido.

Em economia, o marxista tende a defender ideias centralizadoras. Ele não pode fazer esta defesa sem apelar a sofismas e retórica barata, porque qualquer idiota sabe que a centralização econômica não funciona a não ser para aumentar o poder dos tiranos do Estado. O liberal, de modo geral, sabe disso. Se você usar a razão, a lógica e os fatos, certamente irá derrubar os argumentos dele. No entanto, não custa lembrar, o discurso do marxista é pautado em logro e fraude, e aí ele poderá aproveitar a sua honestidade contra você mesmo, exatamente como Ciro Gomes fez com Rodrigo Constantino naquele fatídico episódio que viralizou na internet.

Neste caso, em vez de ficar trabalhando no limite dos fatos, extrapole-os. Pense que seu objetivo é convencer a plateia de que seu adversário está errado e de que ele é imoral. Se for possível, leve-os a pensar que o seu algoz é alguém ruim, que mesmo ele sabendo que suas ideias são erradas ainda assim prefere defendê-las por interesses políticos. Aliás, acuse-o diante de todos de ser um oportunista, alguém que está ali em defesa de alguma entidade ou partido. Claro, faça isso de modo apropriado para a ocasião, nada de ser caricato, gritar "fora comunista" ou coisas do tipo. Apenas se insira no contexto e acuse seu oponente como uma pessoa imoral e ruim. Trazendo os fatos à discussão, sempre manipule-os de modo a atingir não apenas a razão, mas também a emoção da plateia, pois é isso que o seu oponente tentará fazer - mesmo que o faça inconscientemente.

Ao se sair bem, em situações assim, você terá mais chances de convencer as pessoas. Por outro lado, converter um oponente é algo que raramente acontecerá, justamente devido ao Efeito Backfire. Em geral nós tendemos a reforçar nossas crenças quando alguém as ataca diretamente, é assim com a maioria das pessoas. Eu, quando debato com alguém, nunca tenho a intenção de convencer aquela pessoa. Normalmente quero apenas "destruí-la", no sentido político do termo. A Guerra Política, segundo David Horowitz, é uma guerra de posição. Como em um jogo de xadrez, você precisa pensar sempre cinco ou seis passos a frente, talvez mais.