2 de julho de 2016

Guerra Política | Teoria do 'Agendamento'

Em 1963, o historiador Bernard Cohen formulou o raciocínio de que a imprensa, em sua forma mais branda, ainda é plenamente capaz de pautar as discussões. Segundo ele, "a imprensa pode não ter êxito em nos dizer o quê pensar, mas ela é espantosamente eficiente em nos dizer sobre o quê pensar." Sua frase é um bom resumo sobre a teoria do 'agendamento', mas aqui pretendo explanar mais profundamente o assunto.

O que é agendamento?

Basicamente, a teoria do agendamento se refere ao fato de que os temas que são publicados na maior parte ou em todos os veículos de comunicação se tornam, por um breve período de tempo, os mais importantes a serem discutidos. Um exemplo recente que podemos usar aqui foi o BREXIT. Durante pelo menos três dias só se falou nisso - inclusive neste blog, no qual postei três ou quatro artigos sobre o tema. As abordagens, em geral, levantavam duas questões: medo e ódio.

O medo foi explorado por alguns jornais que trouxeram a informação parcialmente verdadeira de que a saída do Reino Unido causaria um "colapso econômico", e também foi explorado por jornais que veicularam notícias as mais absurdas, como o possível fim da série Game of Thrones ou a expulsão de estrangeiros que vivem na Inglaterra. O ódio, então, foi explorado pelos mesmos jornais ou por outros no momento em que trouxeram a abordagem sobre a questão da imigração, levando a crer que os britânicos são todos um bando de xenófobos. A Folha de São Paulo, a propósito, publicou um texto ridículo que afirmava, com todas as letras, que os britânicos são culturalmente hostis a qualquer tipo de estrangeiro. Chegaram até ao cúmulo de veicular matérias chamando os ingleses de "eurofóbicos".

Certamente nem todas as pessoas que leram acreditaram nisso, mas este não é o ponto. O agendamento foi bem sucedido a partir do momento em que estes temas relacionados ao BREXIT passaram a ser foco de todas as discussões. Foram raros os portais que trouxeram questões diferentes, como a independência jurídica e financeira, a liberdade para a tomada de decisões e a autonomia britânica perante seu próprio povo. Estas questões não foram trazidas porque não eram, obviamente, do interesse dos maiores veículos de imprensa, e exatamente por isso elas quase não foram faladas.

Como acontece o agendamento?

Há três passos importantes para que ocorra o tal agendamento. O primeiro deles é o alinhamento editorial entre vários veículos independentes de comunicação. Este alinhamento não precisa ser necessariamente combinado, basta que ele já exista. Existindo uma quantidade razoável de grandes mídias dispostas a veicular exatamente as mesmas notícias, já há possibilidade de agendamento.

O segundo passo é que as mídias envolvidas sejam grandes veículos de massa, como emissoras de TV e rádio, grandes empresas de jornalismo e sites multiplataforma. No Brasil, por exemplo, existe a Rede Globo, que por si só controla pelo menos 25% disso tudo. Há a editora Abril, que também possui alta influência. Se estes dois veículos e mais alguns estiverem alinhados em transmitir uma mensagem, o agendamento é posto em prática com facilidade.

Há, ainda, um terceiro passo, que é a forma de abordagem. O agendamento não tem como funcionar a partir de análises técnicas e abordagens sofisticadas ou profundas demais. São poucas as pessoas dispostas a ler um enorme texto analítico sobre a crise econômica, sobre a história da imigração no continente europeu, etc. Se os jornais, ainda que poderosíssimos, prezassem por uma abordagem complexa demais para o seu público, o agendamento não surtiria um efeito tal qual normalmente é desejado. Para que ele funcione, a linguagem precisa ser clara, objetiva e muito simples. Os jornais só precisam publicar textos breves, com informações mastigadas e já formatadas, de modo que o leitor ou espectador apenas pegue a opinião pronta, sem a possibilidade de maiores reflexões.

Mesmo que, no fim das contas, muitos espectadores e leitores venham a discordar do que foi noticiado, o ponto é que aquele se torne o assunto. Então não tem problema algum se muita gente discordar do que foi dito, desde que falem sobre o que foi dito.

Outros exemplos

Há quase três semanas saiu uma notícia, que foi publicada aqui também, sobre um terrorista ligado a Al Qaeda que entrou no Brasil ilegalmente, vindo pelo Uruguai. O fato foi mencionado em pouquíssimos portais e simplesmente não virou assunto. A Rede Globo não noticiou isso no Jornal Nacional, também não foi publicado nada de destaque a respeito disso em outros grandes portais. Apesar de ser uma informação de altíssima relevância, ela ficou em completa tangência, simplesmente porque não foi "agendada".

Por outro lado, no dia em que ocorreu o massacre na boate em Orlando, bem como nos dias subsequentes, não se falou em outra coisa que não o desarmamento civil. Naquele domingo, o atentado tinha acabado de acontecer, ainda nem era meio dia, e os jornais já estavam pautando a discussão, trazendo como tema a questão das armas de fogo e não a do terrorismo em si. Como isso foi o que a imprensa agendou, foi exatamente sobre isso que falamos por dias. O mesmo caso ocorreu em novembro do ano passado, durante os atentados em Paris. Não se falou de outra coisa além do desarmamento civil. Isso porque o desarmamentismo faz parte da agenda internacional dos grandes veículos de mídia, isso não acontece apenas no Brasil, mas em todo o ocidente.

Como driblar o agendamento?

O agendamento é praticamente inevitável, e isso é preciso que se compreenda. Sempre existirão interesses em jogo e pessoas poderosas para financiá-los. O que podemos fazer, como alternativa, é praticar exatamente a mesma coisa, mas seguindo uma agenda opositora.

Já disse isso por aqui outras vezes, mas insisto: quem se opõe a esquerda precisa parar de chorar quando ela usa táticas inteligentes para validar suas bandeiras e, em vez disso, passar a usar táticas igualmente eficientes para combatê-la e fazer prevalecer seus interesses. Uma ideia que não é difícil de se por em prática é a criação massiva de portais de notícia, feitos por profissionais mesmo, para trazer assuntos com viés de direita. Claro que no início ninguém vai poder competir com os veículos de imprensa já consolidados, mas em algum tempo, de qualquer forma, isso se torna plenamente possível.

Além disso, é perfeitamente aplicável a ideia de parar de cair feito pato nos estratagemas da esquerda. O deputado Marco Feliciano, por exemplo, quando ocorreu o massacre em Orlando foi prontamente ao Twitter negar que o ataque tenha sido homofóbico, fazendo exatamente o que interessa à esquerda que ele fizesse: antagonização. Se ele fosse minimamente inteligente teria partido por um caminho bem mais fácil e que lhe traria resultados, como aproveitar o fato de que o ataque foi mesmo homofóbico - sim, foi - e atribuir esta culpa ao islã, que é uma religião que rejeita violentamente a homossexualidade. De quebra ele poderia trazer uns vídeos em que membros do ISIS aparecem jogando homossexuais de cima de prédios como punição por serem gays, entre outras coisas. O deputado, nesta situação, foi um trouxa. Ele mordeu a isca fazendo o jogo que a esquerda queria que ele fizesse.

Outro caso típico foi a situação patética do debate entre Carioca e Tico Santa Cruz na Rádio Jovem Pan. O Carioca, crítico do PT, foi feito de marionete por um indivíduo que nem inteligente é. Tico apenas apelou à narrativa petista de que outros políticos também praticaram as pedaladas, acusando no caso o governador Geraldo Alckmin, e o Carioca fez o favor a ele de morder a isca e ainda balançar o anzol. Se ele fosse uma pessoa esperta, em vez de ser feito de trouxa por uma ameba intelectual do nível de um Tico Santa Cruz, ele teria apelado a uma narrativa totalmente distinta, forçando Tico a ficar na defensiva.

Neste caso específico, quando Tico acusa Geraldo Alckmin de também ter praticado as pedaladas fiscais (e, em verdade, ele não o fez), o Carioca poderia apenas ter forçado Tico a reconhecer, ali mesmo, ao vivo, que ele concorda que o que Dilma praticou foi crime e pronto. Afinal, se ele queria o impeachment do Alckmin por ele ter feito "a mesma coisa que a Dilma", tudo leva a crer que ele concorda com o impeachment dela também. Pronto. Simples. Mas o Carioca optou por um caminho tortuoso, caindo na lábia do Tico, tentando indiretamente até defender o governador. Com isso ele fez o que o Tico queria que ele fizesse. Só depois de ter apanhado feito criança é que ele se portou como adulto e tentou jogar direito, mas aí já era tarde.

Por fim, deixo este link, que contém um aprofundamento a respeito da teoria do agendamento. Bons estudos.