14 de julho de 2016

Em democracias, direitos são tirados aos poucos, nunca de uma só vez

Vamos falar sobre armas, novamente. Gosto muito desse assunto porque vejo a questão do monopólio das armas como uma espécie de prioridade. Ela é, justamente, uma das maneiras que os governos têm para cercear outras liberdades sem nenhum risco de retaliação - isto, é claro, em regimes democráticos, já que em ditaduras a censura é feita às claras. Uma frase muito conhecida e atribuída a Benjamin Franklin diz: "Quanto todas as armas forem de propriedade do governo, este decidirá de quem são as outras propriedades."

Se olharem na playlist no topo deste site, vão ver que uma das músicas ali presentes é justamente God & Guns, da banda Lynyrd Skynyrd. E eu nem sou cristão, sempre fui ateu, mas considero as armas sagradas e levo como sacrilégio absoluto que queiram limitar a minha liberdade em tê-las. Não me surpreendo, no entanto, ao ver que queiram cercear nossa liberdade. Sempre existem aqueles com sede de poder e controle, e sempre haverá gente para acreditar nestas pessoas. O que me incomoda é ver as pessoas que em tese deveriam defender essa liberdade com unhas, dentes e armas de fogo, caindo em armadilhas tão óbvias e tão claras quanto a luz do dia.

Um exemplo disso que apresento aqui é o Partido Democrata, nos EUA. Lá as leis estaduais são bem diferentes umas das outras, mas em geral é possível ter armas com relativa facilidade nos Estados Unidos. Muito mais fácil do que é na maior parte dos países, incomparavelmente mais fácil do que aqui. Não preciso, portanto, mostrar qualquer dado técnico, todos sabem que as armas em si não trazem nenhum tipo de insegurança. O Brasil é um dos países menos armados do mundo e é justamente um dos mais violentos. Os Democratas, por sua vez, querem mudar isso. Há muito tempo eles tentam a todo custo passar leis de restrição ao porte de armas de fogo.

Em certa conversa com amigos meus, liberais, falei sobre isso. Mostrei a eles que há diversas tentativas por parte dos Democratas em barrar a liberdade quanto ao porte de armas. Sabe o que alguns deles me disseram? Eles disseram que as restrições sugeridas pelos Democratas "não são tão pesadas assim". Disseram que eram leis mais brandas, que só dificultariam um pouquinho o acesso.

Sim, é verdade. São leis muito mais brandas do que as restrições impostas aqui no Brasil. Só que o Brasil não é exemplo, nós vivemos como ratos em uma gaiola cheia de serpentes, somos presas fáceis e sobreviver por aqui é mais uma questão de sorte do que talento ou habilidade. O problema, meu caro, é que liberdades em regimes democráticos são removidas aos poucos. Em um país como os EUA, ninguém seria louco de propor um Estatuto do Desarmamento nos moldes brasileiros. Quem fizesse isso seria visto como um louco, um insano. Lá a cultura é outra. É exatamente por isso que as propostas dos Democratas quanto ao armamento civil são "mais brandas", porque eles precisam fazer a população aceitar estas medidas.

Hoje as pessoas aceitam que se dificulte um pouco o acesso às armas, amanhã dificultam um pouco mais, e aí os anos passam e as pessoas não têm mais liberdade alguma. Não se trata, portanto, de birra ou mera ideologia. É uma questão de princípio. Se aceitarmos as pequenas restrições agora, aceitaremos as grandes depois. É por isso que leis como a do farol baixo obrigatório que entrou em vigor esta semana são repudiáveis. Você pode até argumentar é algo banal ligar o farol, e é mesmo. Mas isso é banal agora, o que virá depois disso pode não ser.

Liberdades sempre nos são tiradas em pequenas fatias, leis abrem precedentes para outras leis. É assim que funciona. E é preciso ter em mente que sempre haverá gente disposta a nos tirar a liberdade, sempre haverá quem queira nos cercear. É por isso que não podemos tolerar nem mesmo o pouco, para que amanhã ou depois não precisemos tolerar o muito.