14 de julho de 2016

Desconstruindo Leandro Karnal, o sofista

Este artigo será longo, aviso. A ideia aqui é desconstruir o trabalho de alguém que pode ser facilmente chamado de farsante, um sofista posando de filósofo, um apologista que faz o personagem de um sábio intelectual. Para isso, vamos começar desde o início.



Karnal e o "espírito libertário"

A primeira vez que vi Leandro Karnal foi em uma excelente palestra, no programa Café Filosófico, mais ou menos na metade do ano passado. Antes disso nunca tinha ouvido falar do homem. Assisti a palestra inteira pela internet e, confesso, fiquei boquiaberto com a qualidade da oratória, a forma pela qual apresentou as informações. Sua fala é boa de ouvir, bem controlada, e o conteúdo desta apresentação me agradou bastante.

A palestra foi sobre "Medo da liberdade e Servidão Voluntária", com base nos escritos do libertário francês do século XVI, Etiénne de La Boétie. Ali, de primeira, tive a nítida impressão de estar diante de um intelectual libertário. Achei fantástica a sua palestra e até assisti novamente, depois de alguns dias. 
Se você tiver tempo e ainda não a conhecer, sugiro que assista também.

No entanto, pouco tempo depois, me veio a mente uma desconfiança. Pensei comigo sobre o motivo de eu, uma pessoa profundamente envolvida com a causa libertária e com tantos amigos que também são, nunca ter ouvido falar de alguém como ele. Questionei por quais razões o movimento libertário desprezaria alguém com tão boa oratória e com tão profundo conhecimento das ideias libertárias. Essa pulga atrás da orelha me levou a ir mais fundo.


Posicionamentos políticos velados - Por quê?

Na primeira palestra que vi, Karnal não chega a citar nominalmente nenhum partido político, nenhum parlamentar, nada que pudesse dar qualquer sinal de um posicionamento claro em relação a ideologia política. A primeira impressão foi a de que ele queria ser imparcial, mostrando apenas uma visão libertária da política. Embora eu adote posturas voltadas à Guerra Política, gosto muito do campo da filosofia e acho-a interessante quando apresentada de maneira mais profunda, sem preocupação com rótulos ideológicos. Mas este não é realmente o caso de Leandro Karnal.

Em várias pesquisas, encontrei um vídeo no qual Karnal começa fazendo críticas ao deputado Jair Bolsonaro, hoje no PSC, mas na ocasião ainda pelo PP. Fui assistindo a este vídeo ainda o considerando uma pessoa sensata - afinal, criticar Bolsonaro é plenamente justo. Entretanto, já nos primeiros minutos, ele cita Brecht, um escritor e dramaturgo comunista, em sua frase "a cadela do fascismo está sempre no cio". Neste momento, meu alarma acionou.

No mesmo raciocínio, Leandro segue com ataques ao que ele denomina conservadorismo, mas que já de imediato compara com o fascismo, e menciona pela primeira vez o PSOL, dizendo que não é comum ver seu avô do interior militando pela legenda, fazendo alusão ao fato de que pessoas mais velhas ou de pequenas cidades costumam ser "fascistas". Aqui eu pesquei a primeira ponta de sua desonestidade intelectual, porque sua comparação entre conservadores e fascistas não foi o suficiente, ele precisava ainda tentar rebaixar os conservadores insinuando que são "pessoas mal instruídas", "gente do mato".

Leandro se mostrou para mim a partir do momento em que menciona Jean Wyllys, sétimo deputado federal mais votado pelo Rio de Janeiro em 2014. Ali ficou bastante claro para mim que se tratava de simpatia pele PSOL, realmente. Em todo o restante do vídeo, Karnal faz duras críticas ao conservadorismo - na verdade o espantalho que ele inventou ali sobre o que é conservadorismo - e, para disfarçar, criticou a "polarização" da política (Marina Silva?). Em momento absolutamente nenhum ele critica medidas totalitárias apoiadas pelo PSOL, pelo Jean Wyllys ou pela Luciana Genro.

Como um homem visivelmente inteligente, com tanto conhecimento e uma postura aparentemente libertária, que no vídeo citado anteriormente faz duras críticas ao totalitarismo, a servidão e defende a liberdade, poderia ignorar que Luciana Genro todo o seu partido apoiam a ditadura venezuelana, aqui do lado? Como ele poderia criticar Jair Bolsonaro por ser oportunista - e é mesmo - e surfar na onda do movimento "conservador" (na realidade é um movimento liberal difuso e mal organizado), mas ao mesmo tempo se abster de criticar Jean Wyllys, um oportunista ainda maior que faz política em cima da morte e da desgraça de homossexuais, fingindo lutar por eles?

Foi então que procurei pela página do "filósofo libertário" no Facebook e descobri, ali, diversos posicionamentos políticos velados. Karnal é quase sempre vago em suas manifestações, mas é vago apenas o suficiente para deixar aquelas pontinhas soltas no ar. Sua estratégia, na realidade, é pautada naquilo que ele não diz, nas coisas que ele deixa "subentendidas". Se alguém questioná-lo quanto a qualquer situação específica, obrigando-o a se posicionar de modo claro, ele dá respostas evasivas, longas e jamais diz que "sim" ou "não".

Por que velar sua posição ideológica? O Pondé, que se mostra como conservador, sempre fez isso de maneira bastante clara. Não há nada errado nisso. Também não há nada errado em Slavoj Zizek se assumir como um neo-socialista. Estranho é alguém com a clara intenção de manipular as pessoas em prol de sua vertente ideológica ficar disfarçando posição. Tem coisa aí!



Escola sem partido e "filósofo" sem máscara

O projeto Escola Sem Partido pode até ser questionável. Nunca me posicionei claramente a respeito porque considero uma questão complexa, há uma linha tênue neste caso que divide a liberdade de expressão e a censura. Embora eu veja como correta a preocupação dos proponentes em evitar a massificação ideológica e partidária que a esquerda faz nas escolas, também vejo como um risco à própria liberdade se o projeto se estender a interpretações não contidas na ideia original. Pretendo vir a falar disso outro dia, não agora.

No entanto, Leandro Karnal tem um posicionamento claro sobre isso, o que é estranho para quem raramente se posiciona claramente sobre qualquer coisa. E isso ficou bem claro em sua entrevista para o Roda Viva.

"Escola sem partido é uma asneira sem tamanho, é uma bobagem conservadora, é coisa de gente que não é formada na área e que decide ter uma ideia absurda que é substituir o que eles imaginam que seja uma ideologia em sala de aula por aquilo que é outra ideologia, por uma ideologia conservadora." (Leandro Karnal)
Acima fica claro de que lado Karnal está, ele é completamente favorável ao formato atual de ideologia política nas escolas. Depois, tenta disfarçar ao dizer que seria bom que o professor mostrasse várias formas de ideologia, mas nega que isso não aconteça hoje ao chamar de "delírio" da direita a ideia de que a ideologização dos alunos ocorra. Claro, isso tudo ainda é pouco perto de seu cinismo, que vem logo em seguida, ao negar que líderes de movimentos de esquerda sejam de fato formados nas escolas.

Sim, eles são. E isso não é algo que ocorra por mero "acidente de trabalho". Pelo contrário, trata-se de prática consciente e direcionada a isso, não é por acaso que estudantes de ensino médio, quando têm em sala um professor hábil e ligado a partidos de esquerda, se engajem em movimentos como Passe-Livre. Inclusive, já presenciei professores convidando seus alunos em sala a participar de manifestações de rua, o que vai até além da simples apresentação da ideologia, trata-se de colocar alunos menores de idade em risco.

Karnal, muito experiente e inteligente, sabe perfeitamente que isso acontece. Se pesquisarmos um pouco quem são, hoje, os grandes líderes de partidos de esquerda no país, quem comanda os movimentos "sociais" e quem controla grande parte da imprensa, veremos que em sua grande maioria são pessoas que no passado se formaram em universidades cujos professores eram também de esquerda. Membros do PSOL atuando na área do jornalismo que se formaram, justamente, com professores que também eram ligados ao PSOL, e o mesmo ocorre com gente do PT, do PSTU e por aí ai. Isso acontece, é um fato, e negar que aconteça é coisa de gente cínica.

É claro que tal prática não funciona com todos, ninguém disse que e assim. É óbvio que há jovens cientes disso e muitos deles naturalmente discordam do professor. No entanto, o que dizer de casos em que professores deram notas ruins ao aluno não por ele ter errado, mas por ter se expressado? E as questões em provas que são feitas de forma limitada, dando ao estudante apenas as opções que interessam ao professor? Ou podemos falar de professores que se sentem donos da sala, tipo esse:

E que tal, ainda, falarmos sobre os alunos claramente influenciados por professores - e defendidos por eles - que fazem coisas aberrantes nas universidades brasileiras?




Que exista a doutrinação ideológica, que ela seja feita sobretudo por gente de extrema-esquerda e que ela resulte em coisas repugnantes como estas não é mais uma questão de opinião, tampouco é coisa de uma "direita delirante". É um fato. Um fato, aliás, do qual se orgulham os próprios imundos que praticam isso contra as crianças e adolescentes. A posição de Leandro Karnal, no entanto, é a de alguém que endossa isso tudo e finge que não acontece o que de fato acontece. Isso é coisa de canalha.

Em outro trecho da entrevista, quando lembra de sua postura de "isentão", Karnal dá outras pistas que evidenciam de que lado ele está. Abaixo, dá para perceber exatamente o que ele quer dizer, mas ele não diz, deixa apenas subentendido.

Karnal quer deixar a ponta solta para que alguém puxe por ele. Ao dizer que "o Brasil é a terra do golpe", ele faz alusão clara ao impeachment de Dilma Rousseff. Entretanto, impeachment nenhum pode ser comparável a qualquer tipo de golpe de Estado, e Leandro sabe disso. O impeachment é um remédio político constitucionalmente previsto em democracias que em nada se parece com um golpe. Se presidentes tivessem o poder de fazer qualquer coisa sem nenhum tipo de consequência, isso significaria que vivemos em uma ditadura. O fato de existirem consequências é o que difere a ditadura da democracia. Com o impeachment de Collor e Dilma, nunca fomos tão democráticos!

O fato é que o tal Leandro Karnal engana bem, tem uma excelente retórica, é bom orador e, acima de tudo, domina o assunto. Não é um idiota qualquer, é um manipulador profissional que engana um monte de gente, até mesmo gente inteligente. É preciso ficar atento a pessoas como ele.