1 de julho de 2016

Carta aberta a Reinaldo Azevedo

Você é alguém que considero, pelo seu histórico, de alta estima para a direita brasileira, pois foi árduo crítico da imprensa "chapa branca" e pegou no pé dos petistas quando quase ninguém na "grande mídia" o fazia. Além disso, é autor de ótimos livros. Hoje, no entanto, me deparei com um artigo publicado em sua coluna na revista Veja, de dois dias atrás, no qual você afirma categoricamente concordar com a instauração de processo contra Jair Bolsonaro no Conselho de Ética.

A questão, para que fique bem fácil de entender, é relativamente simples: Bolsonaro é um ser ignóbil e desprezível pelo qual não nutro a mais remota simpatia, mas a lei, neste caso, tem sido usada com um peso e duas medidas, sendo aplicada a uns e não a outros. Aparentemente você quer ignorar este fato inegável apenas por não gostar do deputado em questão.

Tal artigo, somado a muitos que foram escritos antes dele, me levam a uma posição que muito me desagrada: a posição na qual, em nome da liberdade e da justiça, sou obrigado a defender uma figura sem o menor apreço por ela e para a qual só tenho duras críticas a fazer. O que fazem contra Jair Bolsonaro no momento não tem qualquer relação com justiça, está mais para retaliação. Você, muito melhor do que eu, sabe perfeitamente o que é isso. Você sabe o que é ser retaliado e sabe que a corja de extrema-esquerda deste país não tem qualquer escrúpulo. Ao defender a instauração de um processo dessa forma contra o deputado, queira ou não, você está realmente trabalhando a serviço da esquerda jurássica, aquela que está desesperada para não perder o poder.

Apesar disso, como não sou um fanático, darei a você o benefício da dúvida. Talvez este seja um posicionamento irrefletido de sua parte. Talvez, por mero descuido, você tenha se esquecido de alguém que no mesmo dia em que Bolsonaro declarou sua ridícula homenagem ao torturador Ustra, também declarou homenagem a Carlos Marighella e Lamarca. Provavelmente você se esqueceu da homenagem prestada por Jean Wyllys a Che Guevara e ao MST e outras bastante similares, feitas em geral por pessoas que chamam impeachment de golpe e acham que a Venezuela é uma democracia. Estas pessoas, diferentemente de Jair Bolsonaro, estão numa boa. Suas homenagens a torturadores, terroristas e assassinos não lhes rendeu processos no Conselho de Ética.

Sei que Bolsonaro não valoriza a liberdade e o devido processo legal, também sei que ele talvez não mereça a minha clemência. Mas não estou aqui para defender um deputado, e sim para defender a Justiça. Creio que você também aprecie este valor.


Adição: Por insistência de alguns leitores, que talvez não queiram ser injustos com você, foi solicitado a mim que acrescentasse a informação de que você também cobrou punição a Glauber Braga, Jean Wyllys e estes outros que homenagearam criminosos. Sim, eu sei que fez isso. Mas você não foi taxativo como tem sido em relação a Bolsonaro. Considerando o histórico dos homenageados Che Guevara e Marighella, ouso dizer que os deputados do PSOL mereçam punição até mais severa do que o boquirroto falastrão da direita. Por fim, mas não menos importante, reforço que este processo contra Jair Bolsonaro não tem a finalidade de "fazer justiça", mas de calá-lo. As pessoas por trás disso não são íntegras, são apenas totalitárias. Querem tirar Bolsonaro porque ele faz oposição, não porque ele cometeu erros.