5 de julho de 2016

Aprenda a desmascarar desonestos intelectuais (pt 1)

Existem vários gêneros de desonestidade e, no geral, todos mentem de vez em quando. Há quem minta quase que por hobby, sem propósito nenhum além de mentir; há quem conte mentiras para causar boa impressão; há quem minta apenas quando é necessário para obter vantagem em determinadas situações. Você não precisa sair por aí desmascarando todo mundo, pois isso dará muito trabalho e não lhe renderá nada, mas existe um tipo de desonesto do qual precisamos nos livrar: o desonesto intelectual.

Desonestidade intelectual é uma forma de mentir conscientemente, criando omissão proposital de fatos que não convém para a sustentação de uma tese ou teoria. Outra forma de desonestidade intelectual é a criação de "fatos" para validar uma ideia sabidamente errada ou uma afirmação questionável. Este é o tipo de desonestidade que nós precisamos aprender a combater, e não existe fórmula pronta porque ela aparece nos mais diversos níveis e às vezes em situações inesperadas. O que farei aqui é meramente dar alguns exemplos e sugestões.

Boa parte daquilo que se entende por desonestidade intelectual é baseado em falácias argumentativas e sofismas, e como são muitas as formas de falácia, aqui vou me atentar apenas para as mais corriqueiras, aquelas que acontecem o tempo todo.

Exemplo 1: Raciocínio pautado em falsa evidência ou ausência dela

Posso apostar que certamente já aconteceu com você de, em uma discussão qualquer, o seu interlocutor vir com uma afirmação e, como forma de sustentá-la, apresentar algo que na realidade não prova coisa alguma ou simplesmente usar como prova a ausência de provas. Isso acontece com relativa frequência e normalmente as pessoas não percebem. Curiosamente isso me aconteceu ainda ontem.

Estava justamente na página Modo Espartano lendo alguns comentários e, em uma postagem na qual mencionei Jean Wyllys e uma acusação falsa que fizeram contra ele, a de que ele teria feito um projeto para "mudar trechos bíblicos", um indivíduo surgiu negando uma das afirmações que fiz, a de que um deputado não tem alçada para "mudar a Bíblia" porque a Bíblia não é texto constitucional, não foi o Congresso quem fez. Segundo ele, era perfeitamente possível que um deputado alterasse um trecho bíblico (não, não é). Como "prova" do raciocínio apresentado, ele mostrou um link que levava a uma página LGBT. Nesta página havia um texto contando que no Canadá o parlamento aprovou um projeto cuja finalidade era proibir o uso de trechos bíblicos considerados homofóbicos como declaração pública. Ou seja, o tal projeto aprovado no Canadá era nada mais do que um projeto contra a liberdade de expressão religiosa, pois ele coibia o uso de "argumentos bíblicos contra os gays", mas não havia em tal projeto qualquer menção a alterar passagens da Bíblia.

Respondi ao indivíduo provando que ele havia mentido, e sua reação foi somente a de repetir o mesmo raciocínio e, depois, ficar rindo. Pronto. Foi provada a desonestidade dele ali mesmo, na hora, mas isso só foi possível porque eu analisei a "evidência" apresentada. Muitas pessoas acreditam em seus interlocutores e engolem o que eles "provam" como se fosse uma sustentação válida pelo simples fato de ter sido apresentada.

Outro exemplo disso é a teoria sobre o Pacto de Princeton apresentada pelo Olavo de Carvalho. Esta teoria trata de um suposto acordo feito entre diversos partidos latino-americanos, dentre eles PSDB, PT, PMDB e outros, para fingirem uma falsa oposição a fim de se perpetuarem todos juntos no poder. Tal pacto teria acontecido em Cuba, no ano de 1993. Segundo o próprio Olavo, a única "evidência" disso é um jornal cubano que tratou do assunto enquanto a mídia internacional e local se calou por completo. O que aconteceu com este jornal, no entanto? Ele foi destruído, alguns anos depois, pelo governo cubano, dando fim à última suposta prova.

Essa teoria é obviamente sem fundamento. Se é que tal pacto aconteceu de verdade, não temos como saber, o que importa é que a única pessoa que fala sobre ele ainda hoje é alguém que não esteve lá e que nunca viu nenhuma evidência e nem nos apresentou qualquer prova disso. O raciocínio é sustentado, portanto, na ausência de provas. Ele usa o argumento de que "a única prova que existia foi destruída pelo governo" como se isso provasse que realmente aconteceu. Não prova.



Exemplo 2: Raciocínio baseado em si próprio

Algo muito comum em debates é o interlocutor desonesto apresentar uma frase, solta e sem qualquer evidência que a acompanhe como se a própria frase se auto-provasse. Dias atrás, um amigo postou em sua linha do tempo um print de uma das inúmeras tolices ditas por Olavo de Carvalho. Desta vez, Olavo sugeria que "negar a autoridade do STF" era mil vezes mais importante do que o impeachment de Dilma. Claro que o próprio Olavo já é um farsante profissional, essa forma de raciocínio picado que ele desenvolveu serve justamente para que ele fique fazendo comentários semelhantes a este e assim fazer as pessoas perderem tempo tentando encontrar nas entrelinhas algo que ele não disse, mas que ele 'quis dizer'.

Um jovem, cuja foto de perfil era ele próprio usando uma camisa do Bolsonaro, apareceu no tópico e disse: "Mas Olavo tem razão mesmo, é muito mais importante negar a autoridade do STF do que tirar a Dilma." Aqui ele já cometeu o primeiro deslize, pois se limitou a repetir o mesmo que foi afirmado pelo próprio Olavo, sem sustentar a ideia e ainda afirmou que Olavo tinha razão por ele ter dito o que disse. Ou seja, para ele Olavo tem razão "porque sim", e não porque possui base e fundamentação no que diz.

De imediato o questionei quanto a isso, perguntando: "Então, como é que a gente faz para negar a autoridade do STF? Qual é o plano?" Ele nunca respondeu. De início se limitou a responder com ironias pobres e risadinhas, depois começou a apelar para frases como "Ora, mas é isso é óbvio. Como você não sabe como negar a autoridade do STF?" Este indivíduo era obviamente um coitado, um zé ninguém, mas ser burro nunca impediu ninguém de ser desonesto também. Ao responder dessa forma ele acabou provando que não sabia, nem mesmo fazia ideia, de como seria possível negar a autoridade do Supremo Tribunal Federal, e de quebra deixou evidente que concordava com o Olavo não pelo conteúdo e substância de sua fala, mas por ser o Olavo. Uma prova de idolatria cega, simplesmente.

A melhor forma de combater esse tipo de desonestidade aqui apresentada é justamente esta: fazer perguntas cujas respostas o mentiroso não saberá ou não poderá nos dar, e aí ele acaba apelando a táticas ridículas para tentar fugir do debate, como esse rapaz fez.


Exemplo 3: A Falácia do Espantalho

O tipo mais comum de desonesto intelectual é aquele que te ataca usando coisas que você não disse, mas que ele gostaria que tivesse dito justamente para que ficasse mais fácil de te atacar. Há algum tempo, escrevi um breve texto sobre minhas razões para ser contra a criminalização do comunismo e nele procurei, de maneira clara, explicar que meus motivos não eram ideológicos, mas táticos. Ao publicar este artigo em alguns lugares, um fulaninho apareceu afirmando que eu era contra a ideia apenas porque Eduardo Bolsonaro tinha apresentado o projeto.

Meu artigo, como você pode conferir, não menciona o Eduardo Bolsonaro e, de passagem, ainda menciona Jair Bolsonaro não para atacá-lo, mas justamente para mostrar que a ideia poderia facilmente se voltar contra ele, uma vez que a esquerda usaria premissas contidas no projeto para aplicar punição contra os seus "discursos de ódio". Ao ler o comentário do indivíduo, então, conclui que ele nem tinha se dado ao trabalho de ler o artigo ou, o mais provável, ele leu e não sabia como contra-argumentar, aí apelou para algo que gostaria que eu tivesse dito para tentar utilizar contra mim.

Neste caso o que fiz foi apenas ridicularizá-lo, dizendo que o texto não fazia menção ao Eduardo Bolsonaro e nem mesmo ao seu projeto, e sim à ideia de criminalizar o comunismo que não foi uma invenção do Bolsonaro. De quebra, argumentei que se ele tivesse lido o artigo (neste caso, acho que ele leu, mas disse isso para que passasse vergonha) saberia do que se trata e aí pararia de enxergar comunistas embaixo dos lençóis. Nisso muitos riram e passaram a ridicularizá-lo também. O infeliz sumiu e não apareceu mais.

Adição: É sempre importante lembrar que os debates servem não para convertermos o oponente. Por mais que queiramos isso, às vezes, no geral é quase impossível você converter alguém devido ao Efeito Backfire, ainda mais se a discussão ocorrer em público. O outro tende a não querer voltar atrás e ele tende a jamais admitir que você está com a razão. Nossa finalidade em um debate deve ser a de convencer a plateia - que pode ser de uma ou de mil pessoas - que estamos com a razão. Para isso, recomendo a leitura do artigo sobre Triangulação.


Na próxima parte deste artigo, que já está longo o suficiente, trarei outros exemplos e dependendo do feedback posso aprofundar estes aqui já apresentados.

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