17 de junho de 2016

O que é Guerra Política?

Enquanto libertário, tendo bastante contato com este nicho, percebi que há uma forte tendência para se negar os mecanismos políticos no que tange a alcançar resultados práticos. Só que isso não acontece só com libertários, mas também com liberais, com conservadores e com diversos outros grupos que não são de esquerda. Para começo de conversa, uma coisa deve ficar clara: política não se restringe a partidos, estado, eleições, congresso, etc. Isso é o nosso sistema político.

Não acho que a maioria das pessoas tenha isso muito claro, mas 90% do que fazemos na vida envolve negociação, persuasão ou coerção. As duas primeiras são atividades políticas, a última não, pois coerção é violência, ainda que não seja violência física propriamente.

Se você quer pintar a casa de azul e a sua mulher quer pintar de branco, primeiramente sua mulher está errada e você sabe, azul é bem melhor. O que lhe resta diante disso é convencê-la, ou terá que negociar, oferecer a ela uma troca voluntária por algo que seja de seu interesse. A outra alternativa é matá-la e jogar o corpo em um rio, mas as duas primeiras podem resolver um empecilho sem nenhum dano para ninguém, o que é sempre mais desejável e apropriado.

A maior parte do que fazemos é política, isso até mesmo no trabalho. E a própria guerra política, nos moldes aqui discutidos, entra em outras esferas que não são apenas o nosso sistema político. Minha posição sempre foi a seguinte: eu analiso quais são minhas opções em uma situação, e se percebo que todas são ruins, escolho a que é menos ruim. É isso ou o suicídio lento. Quer gostemos ou não, a realidade não nos dá outras escolhas.

Nós temos basicamente três opções:

1) Entender como tudo funciona e, da melhor maneira possível, tentar chafurdar na lama da desgraça para enfim ter algum êxito.

2) Entender como tudo funciona mas sentir nojinho da lama, e aí deixar os porcos no controle da sua vida.

3) Não entender nada, tomar a pílula azul e ser feliz e ignorante.

As pessoas realmente sábias e interessadas em resultados sempre escolherão a primeira opção, que é a única capaz de atingir algum efeito positivo em suas vidas. As que escolhem o segundo tipo, apesar de serem inteligentes, não são sábias por justamente não serem capazes de utilizar sua inteligência em algo realmente útil. As que estão no terceiro grupo, entretanto, podem ou não estar nele por escolha, e aí cabe uma investigação específica para cada caso.

Um exemplo claro de pessoas que se inserem no segundo grupo, a meu ver, é o de muitos conservadores e libertários, aqueles até mais do que estes. Vejo diversos conservadores que são muito cultos e inteligentes, que leem muito, que entendem como o mundo funciona, mas que não possuem a capacidade ou o interesse para tornar útil todo esse conhecimento. É o caso de grandes escritores e pensadores brasileiros da nova direita, que incentivam seus seguidores a terem uma participação simbólica e tímida na política.

Jair Bolsonaro, que para qualquer pessoa realmente entendida nem mesmo pode ser considerado conservador, no máximo nacionalista, é alguém que se enquadra neste mesmo caso. Não importa se eu gosto do que ele diz ou não, ao menos para este artigo. O ponto aqui é tratar de intenções e resultados práticos. Bolsonaro não possui resultados práticos, simples assim. É alguém que como deputado federal há décadas teve efeitos nulos em tudo o que planejou, justamente por ser completamente desmerecido pelos outros. A verdade, neste caso, é que mesmo se Bolsonaro tivesse apresentado bons projetos, ou mesmo que ele tivesse buscado votar contra projetos ruins de outros parlamentares, ainda assim o resultado teria sido igual a zero, porque o maior problema dele não é ideológico, mas metodológico.

O que Bolsonaro fez, por exemplo, para lutar contra o desarmamento civil, sua única bandeira genuinamente liberal? Ele falou bastante no microfone da Câmara, deu algumas entrevistas, e só. Quem foi lá e de fato apresentou um projeto para revogar o Estatuto do Desarmamento foi o deputado Rogério Peninha, do PMDB, já em sua primeira legislatura. Quem lançou um projeto para acabar com a contribuição sindical obrigatória (a.k.a. imposto sindical)? Foi Paulo Eduardo Martins, do PSDB.


Fora do sistema político, há muito o que também pode ser feito. A guerra política é mais do que mera disputa de partidos e ideologias, é também uma batalha que se luta no campo cultural, midiático, literário, educacional, etc. Uma alternativa para libertários que não querem mesmo entrar no estamento burocrático do Estado é desenvolver um bom trabalho literário, cinematográfico, musical, entre outras formas de arte. A arte sempre foi utilizada para fins políticos e é, hoje, um centro de formação de uma elite de esquerda. Outra opção é que estas pessoas comecem a se formar em áreas essenciais como jornalismo, filosofia, história ou sociologia, que são justamente onde se criam os "formadores de opinião".

Minha parte eu tenho feito. Além de escrever diariamente neste site e semanalmente em outros, estou trabalhando em um livro e pretendo, em um futuro próximo, ingressar na área da literatura com apologia ideológica travestida de estória. Creio que este seja um bom caminho para alguém que, como eu, não pretende se candidatar a nenhum cargo público.