23 de junho de 2016

Esqueleto no Armário: O cadáver de Celso Daniel nunca esfria.

20 de janeiro de 2002, Juquitiba, São Paulo.

O então prefeito da cidade de Santo André, Celso Daniel (PT), é encontrado morto nas proximidades do quilômetro 328 da BR-116. O corpo tinha marcas de pelo menos onze tiros. Ele havia sido sequestrado em São Paulo, capital, no bairro Jardins, dois dias antes, na sexta-feira, 18 de janeiro. 

Apesar de a polícia primeiramente ter tratado o caso como crime comum, alegando que teriam sequestrado o prefeito por engano, investigações futuras trouxeram à tona a grave possibilidade de que tenha sido um crime de motivação política. Tal fato se sustenta, acima de tudo, pela imensa quantidade de pessoas ligadas ao caso que vieram a ser assassinadas ou mortas sob circunstâncias suspeitas algum tempo depois. Abaixo, a enorme lista de "coincidências":
  1. Celso Daniel, janeiro de 2002.
  2. Dionísio Aquino Severo, acusado de ser o sequestrador de Celso. Morto em abril de 2002, dentro do presídio, poucos dias após ser encarcerado. Ele era uma das principais testemunhas do caso.
  3. Sérgio "Orelha", outro criminoso que teria ajudado Dionísio - o sequestrador - a se esconder, dias após o sequestro. Este foi brutalmente assassinado em novembro de 2002.
  4. Antônio Palácio de Oliveira, garçom que serviu Celso Daniel e Sério Sombra (principal suspeito de ser o mandante do crime). Assassinado em fevereiro de 2003.
  5. Paulo Henrique Brito, que testemunhou a morte de Antônio, o garçom, assassinado com um tiro nas costas em março de 2003.
  6. Otávio Mercier, investigador da Polícia Civil. Ele teria supostamente ligado para Dionísio, o sequestrador, na véspera da morte de Celso Daniel. Foi assassinado em sua casa, em julho de 2003.
  7. Iran Moraes Redua, agente funerário. Ele foi a primeira pessoa a reconhecer o corpo de Celso Daniel na beira da estrada. Assassinado em dezembro de 2003.
  8. Carlos Delmonte Printes, legista que constatou as evidências de que o prefeito Celso Daniel foi torturado antes da morte, foi encontra morto em 2005, no dia 12 de outubro, em seu escritório. Não há evidências de que sua morte tenha sido por causas naturais, mas também não encontraram indícios de violência. Há a suspeita de envenenamento, o que também não ficou provado.
  9. Josimar Ferreira de Oliveira, delegado que trabalhou em parte da investigação e que teria registrado o caso de Celso Daniel em Juquitiba, veio a ser assassinado em janeiro de 2015, justamente após outras informações sobre o caso terem vindo a tona novamente.
Notem que oito pessoas além do próprio prefeito morreram, estando todas elas ligadas de alguma forma ao caso, sem que qualquer das mortes tenha ocorrido por acidente ou causas naturais. Todas, sem exceção, foram mortes propositais ou sem explicação plausível. Outras "coincidências" também reforçam a teoria de assassinato político, como o fato de o vereador Klinger Souza, do PT de Santo André, ter sido ouvido em uma ligação com Sérgio Sombra, o maior suspeito de ser o mandante do crime, falando sobre o garçom Antônio de Oliveira, aquele que veio a ser assassinado um ano após a morte de Celso.

Sérgio Sombra era quem dirigia o carro junto de Celso no dia do sequestro, logo após terem saído de um restaurante. Há evidências que o conectam aos membros da quadrilha responsável pelo crime, o que prova ter sido tudo um plano bem orquestrado.

A família de Celso Daniel, em verdade, trouxe a questão política por terem conhecimento de esquemas de corrupção, extorsão e lavagem de dinheiro que envolviam alguns empresários e políticos de Santo André em uma operação que incluía chantagem e cobrança ostensiva de propina. A deputada Mara Gabrilli, PSDB, filha de um empresário que teria sido vítima do esquema, falou diante da CPI do BNDES para José Carlos Bumlai, relatando um pouco de sua experiência com o caso:


A morte de Celso Daniel ainda permanece um mistério. Mais de uma década depois e não se sabe ao certo quais as dimensões do caso. Romeu Tuma Jr, em 2014, deu uma entrevista ao programa Roda Viva, no qual também expôs um pouco de suas informações a respeito disso tudo. No entanto, ainda há muito a ser esclarecido. Sabe-se que há a possibilidade de envolvimento direto até mesmo dos grandes caciques do PT, como José Dirceu e Gilberto Carvalho. Outro nome conhecido que tem envolvimento no caso é o de Breno Altman, "jornalista" e dono do portal Brasil 247, empenhado na defesa do governo petista.

Em abril deste ano, mais uma vez esse caso voltou a ser assunto quando o Ministério Público Federal deflagrou a Operação Carbono 14, parte da Mega Operação Lava-Jato, entendendo que as ramificações sobre a morte do ex-prefeito de Santo André ainda não haviam acabado. O Partido dos Trabalhadores está atolado nisso até o pescoço, e certamente, no futuro, teremos a possibilidade de saber o que de fato aconteceu, quem esteve envolvido. Ou então tudo permanecerá no escuro, com pessoas morrendo aqui e acolá sem explicação aparente.

Esse é um esqueleto que se recusa a sair do armário vermelho.