25 de junho de 2016

Como a esquerda vence? (Parte 2) | Monopólio da Virtude

Creio que boa parte de meus leitores já saiba, mas não custa dizer, que parte fundamental da guerra política bem como da guerra de narrativas é o uso do monopólio da virtude. Também já é sabido que certos grupos políticos fazem isso, uns melhores que outros, e que alguns simplesmente parecem não fazer, como os liberais, os libertários e os conservadores.

Há no cenário brasileiro dois nichos políticos que fazem uso deste método, um deles é o neoconservador, sempre com seus discurso "contra a corrupção" e "a favor do Brasil", e outro é, sem nenhuma dúvida, a extrema-esquerda, composta majoritariamente por movimentos sociais estudantis (UNE ou UBES, por exemplo) ou por movimentos de nicho como MPL e MST. A diferença, no caso, é que os neoconservadores da ala olavette fazem um uso ruim dessa tática. Da forma como usam ela basicamente não funciona muito bem, por isso são frequentemente ridicularizados por isso e só agradam suas próprias fileiras. Já a extrema-esquerda é muito bem sucedida no uso dela, e vamos entender o motivo.

Como monopolizar a virtude?

A maneira menos eficaz de se fazer isso é criar formas de apelo indireto e abstrato. Essa imagem de ser "contra a corrupção" não é ruim, mas ela não gera empatia. Popularmente falando, nossa população já é tão saturada com a corrupção que chegou em um estágio no qual nem se importa tanto assim. As pessoas, de modo geral, já aceitam normalmente a afirmação de que "todo político é corrupto", elas já não creem mais que políticos sejam pessoas honestas. A extrema-esquerda também utiliza abstrações, mas só quando a convém, como nos momentos em que culpam "a sociedade" pela violência urbana.

Para monopolizar a virtude de maneira eficaz é preciso seguir uma das regras de David Horowitz: manipular medo e esperança. Os partidos e movimentos da extrema-esquerda, apesar de estarem em dificuldades agora, ainda são muito fortes e conseguem fazer direitinho este jogo. Para exemplificar, peguei algumas postagens da internet, sendo duas delas diretamente da página do ex-presidente Lula. Vejam só:


Esta postagem não é nada sutil. Trata-se de uma clara mensagem de monopólio da virtude. Veja, por exemplo, que a primeira frase já denota algo de positivo sobre o nordeste, trazendo à mesa uma emoção para pessoas que vivem lá e que realmente acreditam em Lula. O segundo parágrafo faz o oposto. Embora seus adversários não sejam citados nominalmente, Lula antagoniza a questão com o clássico "nós contra eles". O "dizem por aí que" é um claro exemplo disso. Importante notar que, neste caso, como ele está deliberadamente mentindo, não citar o nome de quem diz que nordestinos são desinformados é estratégico, assim as pessoas vão ler e elas próprias vão pensar em quem antagoniza Lula. De imediato cada pessoa terá, em mente, nomes de outros políticos e movimentos que atuam contra o PT.

O terceiro parágrafo traz a antagonização novamente, dessa vez é "nordeste contra o sul", como se houvesse uma rivalidade. Infelizmente há muita gente de direita, incluindo liberais, que veste esse espantalho e fala mal de nordestinos como se houvesse mesmo essa disputa. Não há, é fato. Também há a importante "informação" de que o nordeste cresceu com Lula e Dilma, algo que deixa a sensação de justiça e esperança, ao mesmo tempo que causa medo em relação a quem se opõe ao PT. Pode parecer bobo, mas funciona com pessoas leigas e bem intencionadas.

Outro grande exemplo eu resolvi tirar da página Jornalistas Livres, que em geral é uma página de propaganda de esquerda, o que me leva a crer que o nome correto seria "publicitários livres".


A primeira coisa a ser observada nessa postagem é a foto, que propositalmente pega a frase na parede: "Por uma sociedade justa." Lindo, não é? O indivíduo com o microfone está usando boné da CUT e um adesivo escrito "Fora Temer". No texto da postagem, que é sobre o "Festival da Utopia" (só o nome já é um apelo emocional para jovens, diga-se), logo de início utiliza-se a palavra "democratização", algo que significa, na prática, exatamente o inverso do que realmente quer dizer (leia a parte 1 desta série). Em seguida, mais uma vez, a antagonização "nós contra eles", falando sobre os veículos de imprensa e grandes conglomerados de comunicação.

A peça chave, a que mais se comunica com os jovens, é o trecho em que está escrito: "Você compra um celular, e tem alguma coisa a dizer, você vira um Roberto Marinho." A tática, aqui, é justamente a ideia de dar poder ao povo, que no caso não é bem o povo, mas os jovens militantes da própria esquerda. Contudo, o que importa é a narrativa, e ai tanto faz quem são as pessoas desde que o objetivo seja atingido. Jovens, em geral leigos e afobados, adoram esses discursos inflamados. É o tipo de coisa que poderia estar em uma música da Rage Against The Machine (sobre a qual ainda escreverei).

Outra postagem do ex-presidente Lula, ainda sobre o "Festival da Utopia", traz estes elementos:


Qualquer pessoa que realmente conheça o PT percebe o cinismo absurdo dessa postagem. Ela inclusive contradiz, de fato, o que estava na postagem que mostrei anteriormente, pois aqui ele trata de "paz entre os povos", sendo que na postagem anterior criou uma falsa antagonização de "nordestinos contra sulistas". Só que essas coisas são sutis aos olhos da maioria, passam despercebidas. Neste caso aqui, a postagem é bobinha, é simples, fala de paz, diálogo e "mundo melhor", dando a impressão de que a extrema-esquerda que defende Che Guevara e diversos assassinos sanguinários é pacífica e amigável. O objetivo de um texto simples como esse é meramente passar a imagem de bom mocinho, de alguém preocupado com o futuro, com a juventude e essas baboseiras de sempre, que no fundo quase todo mundo sabe que é mentira mas compra assim mesmo.

É importante ter em mente que hoje, passados uns bons anos, se tornou normal criticar o PT e atacar Lula, mas não era assim no início. No começo da década passada isso era tão raro que dá para contar nos dedos quem o criticava. O que estragou a imagem de Lula perante o povo nunca foi seu populismo, mas o seu largo envolvimento em escândalos de corrupção. A imagem dele, com o passar dos anos, se desgastou, e hoje é associada à mentira, à corrupção, à malandragem. Por isso a insatisfação popular é mais comum. Porém, o mesmo Lula, se ninguém tivesse descoberto nada do que ele e seu partido fizeram, estaria hoje mesmo na presidência novamente e provavelmente seria considerado um herói, tudo por causa da manipulação das emoções do povo.

Para não prolongar muito o artigo, decidi trazer apenas estes três exemplos que explicam bem o que quero mostrar. Contudo, se você acha tiver dúvidas e quiser trazer outras postagens para análise, basta entrar em contato diretamente pelo Facebook.

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