23 de abril de 2016

O que podemos aprender com David Luiz?

Este artigo não é sobre futebol. Não se preocupe.

Dias atrás, em uma conversa de bar com alguns colegas, fiz duras críticas ao zagueiro David Luiz. Disse que ele, como defensor da Seleção Brasileira, ajudava muito mais o adversário do que sua própria equipe, e como evidência, falei sobre o passe errado que quase resultou em um gol de Suárez, falei sobre o dia em que ele esbarrou em Thiago Silva, seu companheiro de time, atrapalhando ainda mais a zaga. Não pude deixar de falar, obviamente, de suas diversas falhas de marcação na Copa de 2014, várias delas resultando em gols do adversário.

Antes mesmo que eu pudesse terminar a fala, um dos meus colegas ficou visivelmente irritado, bateu com a mão na mesa e gritou: "David Luiz é o único que luta pelo Brasil. Ele é o único que defende o time. Ele é torcedor fanático da nossa Seleção. Sem ele, não teríamos ninguém na zaga." Depois do showzinho ele passou a "argumentar", dizendo que David Luiz chorou na eliminação do Brasil em 2014 porque realmente ama sua pátria. Também disse que ele é honesto, joga limpo e que por isso merece nosso apreço.

Por acaso isso te lembra alguma coisa?

Não?

A conversa acima descrita jamais aconteceu, até porque ninguém é fã do David Luiz fora da internet. Alguém que ousasse defendê-lo em público poderia sofrer até mesmo agressões físicas. Criei esse exemplo apenas para explicar como funciona a mente de um Bolsominion* e como ele atua em qualquer discussão política. Na prática, os defensores mais fanáticos de Jair Bolsonaro são como crianças, pois julgam pretensiosamente as intenções dos outros - que, a propósito, eles não sabem quais são de verdade - e não as ações e os resultados.

Bolsonaro é o David Luiz da direita. É alguém que, ao menos da boca para fora, diz defender algumas de nossas ideias e princípios, diz torcer pelo nosso time, mas que na prática erra o passe, baixa a guarda e deixa o artilheiro adversário entrar no gol com bola e tudo. E isso quando não esbarra nos outros zagueiros, o que é ainda pior. O que diferencia David de Bolsonaro é que ele não possui uma legião de fãs débeis de raciocínio lógico. Na política, diferentemente do futebol, as pessoas parecem ter maior dificuldade em enxergar como o jogo funciona, por isso acham que intenções valem alguma coisa.

Pois bem. Eu não tenho como saber quais são as reais intenções de David Luiz na Seleção. Não sei se ele é mau zagueiro de propósito, porque alguém o pagou para isso, ou se ele é apenas um zagueiro ruim por inexperiência e falta de talento. O que eu sei é que ele é, de fato, um zagueiro ruim, e é isso o que interessa. Ele não fez seu trabalho como deveria, e no jogo contra o Uruguai o atacante Suárez quase fez um gol devido a uma falha que ele cometeu. É isso o que eu e todos nós sabemos. Este princípio se aplica, também, a qualquer outro caso, inclusive para a política.

Jair Bolsonaro tem como seu mérito a aprovação de um projeto de voto impresso - que, na realidade, consta no site da Câmara como sendo de Leonardo Picciani, e além disso o que ele conquistou foi uma legião de fãs que gostam dele não apesar dos erros que ele comete, mas principalmente pelos erros que comete. Seus fãs enaltecem nele o que ele tem de pior e de mais nocivo a si mesmo, são amantes da auto-destruição do próprio ídolo. É como se os fãs de Amy Whinehouse, em vez de gostarem de suas músicas, apreciassem o fato de ela se drogar até a morte. No entanto, se tirarmos isso dele, o que resta em Bolsonaro? Ele fala grosso e é turrão, certo? E aí acaba. Não há mais nada para ser apreciado.

Muitas vezes, quando critico Bolsonaro, pessoas que gostam dele me questionam sobre quem seria melhor opção. Normalmente esta pergunta é pautada na ilusão de que o deputado será presidente um dia, o que certamente não ocorrerá tão cedo. Deixando este fato de lado, indo ao que interessa, quero citar alguns exemplos de políticos de direita que, de fato, obtiveram resultados ou que pelo menos agiram em prol de alcançar mais do que idolatria na internet.

Rogério Peninha, do PMDB de Santa Catarina, é deputado federal há sete anos. Está, no momento, em sua segunda legislatura. Já na primeira legislatura ele emplacou o PL 3722/12, o projeto de lei que pretende revogar o Estatuto do Desarmamento, ao menos parcialmente. Um liberal pode olhar para este projeto e reclamar, dizendo que ainda não é a abertura ideal. Sim, não é, mas a vida não é ideal. O projeto em questão tem uma utilidade momentânea, e se ele passar será um pequeno passo na direção desejada. A importância deste PL é enorme, e esta é uma ação prática muito funcional de Peninha, mostrando que ele quer fazer algo de verdade.

Outro grande acerto deste mesmo deputado é sua recente proposta de extinção do Imposto Sindical, em parceria com o também deputado Paulo Eduardo Martins. Sim, você pode argumentar que ambos são colegas de Bolsonaro e que o apoiam, mas isso não faz diferença. O que importa é que eles não cometem os erros de Bolsonaro e tem, em seu favor, seus próprios acertos. Além disso, mais do que meramente uma redução de impostos, esta proposta é também uma forma de reduzir influência financeira de sindicalistas pelegos do governo federal petista. Sem esse dinheiro eles terão pelo menos mais dificuldades.

Ronaldo Caiado, senador pelo Democratas, é outro que tem um bom histórico. Ele sempre foi opositor do PT, para começar, diferente de Jair Bolsonaro que apoiou o partido durante toda a década de 1990, chegando a votar em Ciro Gomes e Lula, além de indicar Aldo Rebelo e José Genoíno para o Ministério da Defesa em 2002. Caiado é um opositor mais inteligente também, pois faz mais além de falar: ele fala e age. Seus discursos contra o PT, suas críticas duras ao Lula e sua feroz oposição à esquerda é uma marca, mas ele não para por aí. Além de palavrório, Caiado é um dos que mais protocolou pedidos de abertura de CPI contra o PT, e foi ele quem protocolou uma representação contra Dilma por improbidade de administrativa.

Outro que também vem acertando bastante é o deputado estadual Marcel van Hattem, do Rio Grande do Sul. Ele é provavelmente um dos políticos mais jovens da direita, mas já tem um bom histórico. Recentemente lançou este vídeo, para influenciar a narrativa contra o governo não apenas no Brasil, mas também fora dele. Vale a pena conferir seu trabalho.

Pessoalmente, nenhum destes políticos citados me agrada. Eu não gosto de político nenhum. A diferença entre eu e um libertário normal é que faço algo em busca de resultados, sou pragmático. Logo, o que me resta é atuar naquilo que está dentro do meu alcance, e é justamente por pragmatismo que eu insisto: Bolsonaro é um péssimo caminho para nós. Não é uma questão de ideologia. Creio até que Paulo Eduardo Martins ou mesmo o Rogério Peninha pensem como Bolsonaro sobre diversos assuntos, o que me interessa é que eles não agem como Bolsonaro. Este é o ponto.

Uma pessoa me disse, há poucos dias, que o lado bom em Bolsonaro é que ele bate de frente com a esquerda e que "desconstrói seus discursos", só que esta informação é apenas parcialmente verídica. De fato, ele bate de frente com a esquerda, mas a forma como faz surte efeito inverso ao desejado. É claro que ele ganha com isso, de qualquer forma, porque publicidade negativa ainda é publicidade. A rejeição das pessoas contra a esquerda em geral também o favorece no momento. No entanto, isso não muda os fatos. Para a direita como um todo, o saldo acaba se tornando negativo, pois ele reforça o espantalho que a esquerda criou para nós, dá embasamento a uma narrativa falsa de que toda a direita é pró-ditadura, e de quebra ainda reduz qualquer chance que temos de tirar da esquerda o monopólio das virtudes.

Como estou nisso há muito tempo e converso com muita gente, percebo os efeitos destas ações na prática. Em uma conversa que tive com uma garota, meses atrás, ela deixou claro para mim que não apoiava o movimento liberal porque para ela Jair Bolsonaro é um maluco. Expliquei que apenas parte do movimento liberal o apoia, mas que a maioria nem mesmo gosta dele. Assim mesmo, não adiantou. A garota, que era leiga e não mal intencionada, simplesmente engoliu a narrativa que a esquerda fez sobre a direita porque Jair Bolsonaro se posiciona exatamente da maneira que a esquerda quer que ele se posicione. Ele literalmente joga pelo outro time, intencionalmente ou não.

Acredito, agora, que com uma analogia envolvendo futebol tenha ficado mais fácil compreender os pontos. Como disse, não é uma questão de ideologia. Nós precisamos nos desligar da imagem de Bolsonaro para o nosso próprio bem, apenas isso. Ele é nocivo e irá nos destruir se o aceitarmos como nosso representante.

*Bolsominion é um termo que se refere apenas aos fanáticos pelo Bolsonaro, o que inclui quem o chama de "mito" e quem faz campanha na internet para ele em 2018 ainda em 2016.