24 de abril de 2016

O cuspe é uma declaração de guerra ao povo.

Acompanho muito a blogosfera da esquerda e percebo que há certa homogeneidade no direcionamento de suas pautas sobre a questão do cuspe. Como mencionei nos últimos três artigos aqui postados, parece que tudo isso de cuspir nas pessoas não foi tão ao acaso assim. É, pelo contrário, uma situação orquestrada.

Tudo começou na votação pelo Impeachment de Dilma na Câmara dos Deputados, quando o deputado psolista Jean Wyllys cuspiu em seu opositor, o deputado Bolsonaro. O cuspe foi comprovadamente premeditado, pois encontraram uma filmagem que mostra Wyllys falando para Chico Alencar, seu colega de partido, que cuspiria no opositor, segundos antes do ato. Entretanto, até quinta-feira este parecia ter sido um caso isolado, o que veio a ser desvendado após o cuspe dado por José de Abreu, o ator petista da Globo, em um casal que o confrontou em um restaurante de São Paulo.

O deputado Jean Wyllys, após o feito, não se desculpou. Pelo contrário, ainda inventou toda uma estória sobre ter sido agredido pelo deputado Jair Bolsonaro, insinuando que o cuspe foi meramente um revide. Pura mentira, é óbvio. Só que a sua versão dos fatos incluía as palavras-chave, o recado para a militância entender que aquilo ali foi só uma deixa, não foi o grande ato. Jean chamou seu opositor de fascista, não porque ele defende a ditadura militar e as torturas, mas pelo simples fato de ser opositor. Para qualquer um da esquerda, não ser de esquerda já é fascismo. Só que dessa vez o "fascista" usado na frase possuía um intuito diferente. Jean não queria apenas ofender e rotular um oponente, o que ele queria era, de maneira codificada, justificar e legitimar sua ação sob a desculpa de que cuspir em fascistas é, por assim dizer, um dever, não um motivo de vergonha.

Essa mensagem codificada foi rapidamente captada pela militância de esquerda. O esquema de dog whistle é o que os líderes socialistas utilizam neste caso, pois assim só interpreta corretamente as mensagens dadas aqueles que já fazem parte do clube. Com isso, nem você, nem a imprensa e nem mesmo a marionete socialista Jair Bolsonaro percebeu o que realmente acontecia. E seu discurso em defesa do Coronel Ustra foi, na realidade, a senha. Foi uma senha que ele deu de bandeja aos militantes de esquerda.

Vejamos, primeiramente, o que Bolsonaro falou em seu discurso:


O deputado, que é tido como um dos maiores representantes da direita - grande erro, aliás, que a direita o deixe representá-la -, elogiou Eduardo Cunha. Este é o primeiro pecado, pois ao fazê-lo, Jair Bolsonaro associa inevitavelmente o presidente da câmara, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, com a imagem de todo o movimento de oposição ao PT. É certo que Cunha foi figura importante nesse processo, mas ele não merece créditos e louvores por isso e certamente há de pagar por seus crimes.

Após elogiar Cunha, Bolsonaro segue seu discurso recheado de clichês da direita intervencionista, falando inclusive em Foro de São Paulo e enaltecendo o Golpe de 1964 (ou contra-golpe, se preferirem assim). Ao fazer isso, o deputado mais uma vez destrói a oposição - ou seja, nós - associando sua imagem a algo que é tido no imaginário popular como a pior ditadura do mundo e que é ensinado nas escolas desde a década de 1980 como Golpe Militar. Assim, a militância de esquerda pegou o gancho e imediatamente fez o link, colando a imagem do Golpe Militar com a do impeachment. Seu discurso foi um imenso desserviço para toda a direita, e sua homenagem ao Coronel Ustra foi apenas patética.

A blogosfera de esquerda, obviamente, ficou feliz com isso. Agora podem usar todo esse pacote de informações para associar os opositores da esquerda, aqueles que lutam pelo impeachment e todos os que querem o fim do PT com o que há de pior: o fascismo. Não importa, caro leitor, se isso é verdade ou não. Importa é que será uma narrativa convincente. É por isso que todos os movimentos da extrema esquerda estão usando vorazmente esses fatos a seu favor. A cuspida de Jean Wyllys, que os direitistas mais otimistas acharam que iria prejudicá-lo, na realidade o ajudou ainda mais, exatamente como previ que seria no exato dia do acontecimento. O fato de José de Abreu ter repetido o ato e ainda ter se orgulhado disso no Twitter também reforça a narrativa. E ele repetiu inúmeras vezes que cuspir na cara "dos fascistas" é plenamente normal.

É questão de tempo para que avancem um pouco mais. As cuspidas são só o começo. Já disse isso em outros textos e vou repetir: Não vai tardar para que cheguem às vias de fato. E é através das cuspidas que irão conseguir o que querem, ou seja, conseguir que alguém de sangue quente revide, seja agressivo e bata com vontade. O rapaz que sofreu a cuspida do ator global poderia muito bem ter partido para a porrada, e talvez o fizesse se não fossem os seguranças ali presentes. Cedo ou tarde isso vai acontecer, e quando acontecer, eles terão conquistado exatamente o que desejam: a barbárie.

Por estas razões, reitero meu pedido: A direita precisa rejeitar Jair Bolsonaro e tudo o que ele representa, ou seremos todos destruídos por ele.


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