13 de abril de 2016

Guerra Política - Exemplos práticos (pt 2)

Quem lembra daquele episódio entre Luiza Trajano e Diogo Mainardi, no Manhattan Connection, em 2014?

Na época, o assunto foi bem comentado, vários sites replicaram o vídeo e a esquerda se empolgou. Afinal, era ano eleitoral, e a empresária havia dado bastante munição para ser usada a favor do governo. Neste debate, Mainardi fez papel de idiota, apesar de estar com a razão. Hoje, como sabemos, a crise no varejo já chegou faz tempo e até mesmo a Magazine Luiza foi obrigada a fechar algumas de suas franquias. Naquele dia, entretanto, a narrativa de Luiza venceu as discussões e isso foi suficiente.

Vamos, agora, analisar o caso em seus mínimos detalhes. Primeiramente, veja o vídeo:


O primeiro ponto é que ela ganha, antes de se pronunciar, o auxílio moral de Ricardo Amorim, que provavelmente não a ajudou intencionalmente, mas por achar que era o correto a ser feito - embora não fosse, naturalmente. A maioria das pessoas não entende muito bem a guerra política, o jogo de narrativas e o poder de transformação que as palavras podem ter. Amorim diz que para ele a crise no varejo é "surpresa" por não perceber que diante dele há uma pessoa desonesta, fazendo uma atuação excelente e bancando a humilde.

A guerra de narrativas neste vídeo é clara. O que Luiza e os seus interlocutores chamam de otimismo é, na verdade, oportunismo e manipulação de informações. Naturalmente eles não a destratariam de tal forma, mas poderiam, se fossem politicamente atentos, tê-la confrontado com dados e esmagado essa pauta desde o início, sem sequer dar espaço para que prosseguisse com a desinformação. Resumidamente, ela dá as cartas, faz as apostas e decide o valor dos blinds. Os demais participam passivamente do jogo, pois sequer percebem que é um jogo.

Quando Caio Blinder faz seu comentário, ele foge um pouco do tema para algo que é mais tangente, isso após ela ter deliberadamente negado a possibilidade de uma crise. Entretanto, menciona somente en passant sua preocupação com a bolha de crédito, o que deveria ser no mínimo o foco de sua abordagem. Qualquer pessoa minimamente entendida em economia sabe que o governo federal empurrou a crise para que ela aparecesse somente após as eleições, e o método utilizado foi, justamente, a bolha de crédito. Se Caio precisava de uma bala de prata para carregar sua arma, esta foi sua oportunidade. Ele poderia ter dado o tom do debate a partir desse exato momento, mas não o fez. Em vez disso, deixou que uma empresária mancomunada com o governo ditasse as regras do jogo.

Aí, então, chega o derradeiro momento em que Diogo Mainardi participa da conversa. O conteúdo de sua fala é correto e adequado, ele faz um questionamento direto sobre o aumento da inadimplência, a queda no consumo e o fechamento de diversas franquias de lojas grandes. Ao final, ele menciona o fato de que a crise está só começando, deixa subentendido que irá piorar. Nisso tudo ele tem razão, e hoje sabemos muito bem o quão certo Diogo estava. No entanto, a sua forma de abordagem foi rasa e fraca. Ele gagueja muito, se atrapalha um pouco e deixa algumas brechas. A resposta de Luiza foi basicamente tentar desmenti-lo, e ela claramente não fez isso em momento algum, apenas disse que enviaria os dados para ele por e-mail. No entanto, isso basta. Em debates assim, a aparência é o que importa.

No decorrer de sua resposta, Luiza deixa absolutamente claro a que veio: defender o governo PT. Isso fica evidente sobretudo no momento em que a empresária fala do programa Minha Casa, Minha Vida, dizendo que antes disso houve três décadas perdidas. Algum dos interlocutores questionou isso? Não. Uma mentira dita escancaradamente, em pleno 2014, quando todos já sabíamos que o PAC havia sido a maior farsa eleitoreira da história, e um monte de economistas e jornalistas inteligentes se deixou levar por um discursinho fajuto.

Outro detalhe que não pode deixar de ser dito é que logo no começo, quando a empresária começa a respondê-lo, Diogo dá uma risada que pode ser ouvida. No final de sua fala, quando ela repete que irá enviar os dados por e-mail, ele responde com "me poupe, por favor, Luiza." Consigo entender o lado de Diogo, que se viu diante de uma pessoa falando as maiores baboseiras. O que não posso é perdoá-lo por subestimar tanto assim uma oponente esperta. Luiza Trajano é uma empresária de sucesso e foi a um programa de TV, transmitido para diversos países, com a única finalidade de defender as medidas econômicas do governo de Dilma Rousseff. Seria ela realmente uma ignorante? Claro que não!

Para piorar, depois desses desperdícios todos, Ricardo Amorim pergunta sobre o fato de não existirem empresas de varejo no Brasil entre as maiores do mundo. Luiza responde, novamente, defendendo de forma clara o governo. Inclusive encerra sua resposta com a frase "o que mais gera emprego depois do governo é o varejo brasileiro." Sim, isso também passou despercebido. Ninguém tentou pegar o gancho desse comentário e usar contra ela. Incrível, não é? 

O impacto disso tudo no público é o que mais importa. A maioria das pessoas não entende muito de economia, e certamente ninguém que concordou com a empresária foi, de fato, fazer algum tipo de pesquisa para averiguar a informação. Ademais, nenhum dos lados ali presentes provou o que disse, então claramente não se tratava de um debate acadêmico, mas político. Por esta razão, pouco importa quem está certo, só interessa quem sabe se comunicar melhor com o público. Pessoas como Ricardo Amorim e Diogo Mainardi não são hábeis comunicadores, eles são facilmente vistos como pessoas da "elite midiática." A postura de Diogo ao debochar da adversária reforça ainda mais o estereótipo, enquanto a empresária milionária e amiga do governo posa de "gente do povo." Até mesmo a fala errada de Luiza aparenta uma simplicidade que ela com certeza não tem, e isso se comunica bem melhor com os espectadores

Diante de tanta falta de tato político, ficou fácil para qualquer bobalhão de esquerda compartilhar esse vídeo. Mesmo que Luiza Trajano esteja errada de todo, ela parece ter razão, graças à colaboração daqueles que por obrigação moral deveriam destruí-la, seja por meio da retórica, seja por meio da dialética. Diogo, por sua vez, fica parecendo um otário, um aloprado falando mal do governo que não tem base nenhuma para isso.

A direita brasileira tentou, inutilmente, resgatar Mainardi e atacar Luiza, mas fez isso tarde demais. Perderam o timing e deram murro em ponta de faca. Naquela época, naquele momento, Luiza venceu não o debate em si, mas a narrativa. Ela venceu por saber exatamente como jogar e por ter sido sortuda o bastante de não encontrar opositores à altura. O quanto isso influenciou positivamente o governo? Não dá para dizer, mas sabemos que uma vitória, ainda que pequena, é bem melhor que uma derrota. Se esse debate tiver servido para dar um voto para Dilma, que seja só um voto a mais, já perdemos.