28 de abril de 2016

Como a esquerda vence? (Parte 1) | Metodologia Discursiva

Uma das ferramentas mais indispensáveis da guerra ideológica é o controle da narrativa. Esse termo, apesar de ser comum, não é algo com o que liberais estejam tão familiarizados. Os liberais em sua maioria são adeptos da lógica ou da ética, às vezes ambas as coisas, mas uma narrativa nem sempre precisa ter lógica, muito menos precisa ter ética. Ela só precisa ser construída de maneira convincente, e para ser convincente ela não apela à razão, mas às emoções das pessoas, aos sentimentos difusos.

NARRATIVA

A boa narrativa é aquela que surte o efeito desejado por quem a construiu e por quem a reproduz conscientemente, ela é construída a partir de interesses pessoais ou grupais, que podem ser interesses benignos ou malignos. Para uma narrativa ser boa ela precisa seguir uma Metodologia Discursiva, e esta metodologia deve fazer parte da convergência entre os desejos do seu desenvolvedor e de seu público alvo.

Quem constrói uma narrativa sempre tem um objetivo em mente, e se for uma pessoa inteligente ela buscará, para isso, atender a demanda que mais possa fazê-la se aproximar deste objetivo. Um exemplo muito claro do controle da narrativa pode ser visto em 2013, quando ocorreram as manifestações de junho e rolou todo aquele quebra-quebra entre polícia e manifestantes. A narrativa predominante na época foi a de que havia uma "minoria de vândalos" e que a "polícia fascista agrediu a população." Se isso era verdade mesmo, aí já é outra questão. O ponto é que esta versão dos fatos (narrativa) venceu não por ter sido a mais verdadeira, mas por ter sido a primeira e a mais repetida de todas. Sobre este assunto em específico recomendo o livro de Flávio Morgenstern, "Por trás da máscara", que analisou o caso ponto a ponto. Lá você encontrará várias informações precisas e interessantes sobre o evento e todas as suas ramificações.

Quem criou esta narrativa? Grupos de esquerda auto-proclamados como "mídia independente." Qual o público alvo desta narrativa? As pessoas que, bem intencionadas, acabaram sofrendo as consequências daquelas manifestações que de pacíficas tiveram apenas as manchetes de jornal. Obviamente a finalidade de alguns grupos ali foi a de criar frisson e desordem social, talvez com outros objetivos obscuros, mas claramente com a finalidade de dar vazão a algumas demandas dos próprios partidos de esquerda. Por puro azar as coisas acabaram saindo do controle. Não foi um ato tão bem orquestrado, mas ainda assim não se pode dizer que foi espontâneo.

ROTULAGEM E REPETIÇÃO

Quando uma narrativa sobre algum evento é criada pela esquerda, de maneira geral, ela é quase sempre recheada de rótulos (adjetivação). Um exemplo recente que podemos pegar é o caso da votação do Impeachment, em que alguns deputados que votaram "sim" por acaso também são investigados por corrupção. A narrativa que predominou na esquerda foi a de afirmar que o processo é ilegítimo por ser conduzido por pessoas supostamente corruptas. Esta narrativa foi tão forte e repetida com tanta frequência que, mesmo sendo parcialmente falsa, se tornou amplamente aceita. Com a insistência, a esquerda conseguiu fazer com que esta versão dos fatos (narrativa) fosse engolida por muita gente que nem de esquerda é, mas que acredita em valores como justiça e neutralidade. Por isso você viu e verá, por muito tempo, pessoas boas e honestas defendendo essa bandeira apesar de ser algo completamente sem sentido.

Se um liberal comum analisasse estes fatos sobre o impeachment, na maior parte das vezes ele tentaria ser imparcial, isso inevitavelmente o levaria a entender que o fato de um ser corrupto não é justificativa para que outro também seja. Só que a maior parte da esquerda não opera dessa maneira, por isso ela vê, nestes fatos, uma oportunidade. Ao enxergar a oportunidade, naturalmente ela joga com isso a seu favor, mesmo que a situação seja desfavorável. Às vezes eles perdem, mas sempre tentam ganhar, e é isso que importa.

As adjetivações são imprescindíveis na guerra política, e isso se dá por uma razão muito simples: Na maioria dos casos, quem lê ou ouve o que você diz não tem conhecimento profundo sobre o assunto, e para que alguém lhe dê crédito basta que você pareça dizer a verdade, logo isso nos leva a uma tendência maior de pessoas que queiram, de fato, uma "opinião formada." Sendo honesto, quantas foram as vezes em que você procurou um texto para ler em algum site do qual não gosta? Quantas vezes você já buscou ler, friamente, algo escrito por pessoas de quem você sente nojo?

A verdade é que a maioria de nós se limita ao nosso mundinho, nossa própria bolha, e é natural que aceitemos com maior facilidade quem tem uma opinião pronta do que uma pessoa que apresente dados, fatos científicos, análises frias e reflexões. Neste contexto, o rótulo é uma forma de facilitar a "opinião formada." Se você rotula, você facilita o trabalho de quem te ouve ou lê, porque ele não precisará refletir sobre o fato para concluí-lo uma vez que você já fez a conclusão.

APELO EMOCIONAL

Uma narrativa eficiente não se preocupa em ser coerente e racional, pois isso é na maioria dos casos completamente irrelevante. Para ter eficiência a narrativa precisa apelar para os sentimentos das pessoas, não para a lógica e para os fatos. Entenda que ter razão e parecer ter razão são coisas distintas. Uma pessoa muito inteligente e bem informada, através da razão, poderá analisar os fatos sob sua própria ótica e chegar a conclusões que ela mesma desenvolveu. Porém, essa mesma pessoa, se receber o estímulo emocional certo, pode chegar a conclusões diversas por mera indução.

O controle das narrativas é tão importante que a esquerda não abre mão disso. Veja, por exemplo, o caso do cuspe de Jean Wyllys em Bolsonaro. Um fato que poderia servir para destruir a carreira do deputado psolista virou, ao contrário, uma arma a seu favor, um trunfo. Seu ato, que seria repudiado caso Bolsonaro não tivesse destruído essa oportunidade e ficado de bico calado, virou uma espécie de vitória moral sobre seus adversários. Agora não apenas estão repetindo o ato por aí, estão até mesmo legitimando-o moral e politicamente. E a forma como legitimam o ato em si não é apelando para a razão, mas para a emoção. Ao dizerem que Bolsonaro apoia tortura e que isso é "crime contra a humanidade", eles reforçam o sentimento de que um cuspe é simbólico perto de um crime tão hediondo. Essa narrativa não seria tão fácil de vender, mas Jair Bolsonaro optou por fazer a coisa mais burra que poderia ter feito e acabou jogando para o time adversário.

Entenda, portanto, que não importa se os fatos estão ou não de acordo com a versão dos fatos (narrativa). Se o que eles dizem é mentira, a forma como dizem faz parecer verdade. E parecer verdadeiro é mais importante do que apenas ser verdadeiro. Quem diz a verdade e parece estar mentindo não consegue nada, mas quem mente e parece verdadeiro consegue tudo.

CONCLUSÃO

Como este site é sobre guerra ideológica e política, naturalmente não estou te contando tudo isso para você chorar por aí e reclamar que a esquerda é desonesta e corrupta. Todo mundo já sabe disso. A razão pela qual estou compartilhando esse conhecimento é para que você o adote e internalize o jogo. O que mais desejo ver, no futuro, é uma quantidade grande de liberais dominando vários setores da sociedade da mesma forma que a esquerda faz hoje, e isso será possível se houver esse tipo de entendimento. Portanto, não adianta reclamar. Façamos a nossa parte para vencê-los. Sejamos adultos, afinal!