21 de abril de 2016

A direita deve rejeitar Bolsonaro antes que ele a destrua.

Esqueça a ideologia. Não importa se você concorda ou não com as ideias deste deputado, nem se você simpatiza com ele ou se pretende votar nele por "falta de opção." Sejamos pragmáticos e analisemos a questão do ponto de vista dos resultados atingidos, não apenas do que nós gostamos ou deixamos de gostar.

Como analogia para o caso, sugiro que reflita sobre o seguinte exemplo:

Você contratou uma equipe de seguranças privados para proteger sua casa. Nesta equipe há o chefe, em quem você deposita confiança e de quem você espera a maior responsabilidade. O chefe de segurança é muito bem pago e bem treinado, no entanto, é irresponsável. Certo dia, em vez de proteger sua casa, como você espera, ele esquece o alarme desligado, deixa o portão aberto e vai até o bar da esquina comprar cigarro. Neste meio tempo uma quadrilha de ladrões entra e rouba tudo em sua casa, pondo em risco sua família.

Agora, considere que o chefe da segurança é Jair Bolsonaro, e a quadrilha de ladrões é composta pelos partidos da extrema-esquerda, como PT e PSOL. Trazendo isso para o que ocorreu no dia 17 e que já vem ocorrendo há bastante tempo, o que temos é um fato incontestável: Bolsonaro trabalha em prol da esquerda no Brasil. Pode não ser intencional, e até acredito que não seja, mas tudo o que ele tem feito é um favor direto ou indireto para políticos do PSOL e do PT. Bolsonaro, assim como o chefe da segurança que você contratou, não foi a pessoa que te causou mal diretamente, mas ele te prejudicou a partir do momento em que você depositou nele a confiança que ele não merecia. Na prática, o que ele fez foi te deixar desprotegido e facilitar o trabalho do inimigo.

Por que usei este exemplo como analogia? É para que você entenda que quando figuras como Jean Wyllys falam ou fazem algo ruim e errado, além de isso já ser esperado por nós, é algo que podemos usar contra eles. Quando Glauber Braga evocou Marighela, ele nos deu uma oportunidade de mostrar uma face pouco conhecida da esquerda brasileira, que idolatra criminosos como se fossem heróis. Porém, houve um empecilho, algo que atrapalhou nosso jogo e dificultou o aproveitamento disso: Jair Bolsonaro e sua boca enorme.

Se em vez de enaltecer um torturador e falar em 1964 ele só tivesse dito coisas sensatas, como o fato de que Dilma cometeu vários crimes, hoje poderíamos ter 100% de aproveitamento político nas barbáries ditas e cometidas pelo PSOL, PCdoB e PT no domingo. Se Bolsonaro tivesse votado como Tiririca, de forma objetiva e rápida, pelo menos não teria atrapalhado. Só que ele não consegue ser assim, ele adora ser irresponsável e falastrão. No fundo, parece querer manter o personagem infantiloide do "cabra macho e sem papas na língua", talvez porque aprecie muito ser chamado de "mito" na internet.

Fazendo as contas, podemos determinar que o saldo político da semana foi o seguinte:
  1. A esquerda saiu menos queimada do que deveria, graças ao "equilíbrio" de forças entre Bolsonaro e Jean Wyllys, que viraram o assunto da semana, em vez de o assunto ser o psolista que enaltece Marighella ou o petista que ama o Lamarca.
  2. A narrativa ridícula de que impeachment é golpe ganhou mais força, visto que Bolsonaro, provavelmente uma das figuras mais conhecidas da direita no país, foi falar justamente do golpe de 64. 
  3. A cuspida de Jean Wyllys, que poderia ser capitalizada como uma ação deplorável e resultar em cassação de mandato foi amenizada, tanto porque Eduardo Bolsonaro cuspiu nele de volta, mostrando maturidade de alguém na pré-escola, quanto por Bolsonaro ter dito coisas absurdas em tom de destaque.
  4. O comentário de Bolsonaro reforçou também o espantalho da esquerda contra a direita, no qual todos nós somos defensores da ditadura.
  5. Jair Bolsonaro pode ser cassado por conta disso. Se acontecer, é uma lição para que aprenda a deixar de ser boçal e burro.

Por conta desse saldo, voltamos algumas casas no tabuleiro. Não creio que isso afetará muito o processo de impeachment, mas certamente no campo prático ficamos um pouco mais distantes de derrubar a narrativa mentirosa da esquerda sobre a sociedade. E reitero, ainda, que não é este um caso isolado. Quando se trata de Bolsonaro, falar bobagens sem pensar nas consequências é uma regra.

Podemos recordar do caso recente em sua entrevista ridícula a Ellen Page, na qual ele faz uns comentários completamente desnecessários e compara gays com criminosos, como se uma coisa tivesse mesmo a ver com a outra. Na mesma entrevista ele dá uma "cantada" na atriz, completamente fora de contexto e sem objetivo algum. Nas suas entrevistas esse tipo de coisa é corriqueira, e para cada acerto o parlamentar tem pelo menos uns cinco erros cometidos. Por que não lembrar, também, de seu comentário acerca de ter um filho gay, quando ele disse que daria porradas até o rapaz virar homem?

Esse tipo de coisa, mesmo que seja a opinião verdadeira dele, não serve para nós. E pode até ser que aquele garotão da universidade fique genuinamente indignado ao ouvir as falas de Bolsonaro, mas políticos espertos como Marcelo Freixo, Lula, Ivan Valente e afins não ficam chocados, eles ficam felizes. Nada melhor para a guerra ideológica do que um adversário que atira no próprio pé o tempo todo. A direita não pode cometer o erro de dar mais espaço do que já deu a esse deputado, pois ele é auto-destrutivo. Sim, ele tem uma legião de fãs, mas não são fãs muito inteligentes. Em geral, quem escreve "Bolsomito" não é capaz de ligar os pontos, são pessoas que só querem alguém para idolatrar e por acaso o escolheram.

A conclusão a que posso chegar com o caso é que se você é liberal, conservador, ou mesmo ou neoconservador, ou ainda que você seja só um indivíduo que não quer a esquerda no poder, a melhor posição que você pode tomar é a de isolar-se o quanto for possível deste homem e deixá-lo se afundar sozinho. Quanto mais próximos estivermos de Bolsonaro, mais perto estaremos da derrota.



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