29 de março de 2016

Guerra Política - Exemplos práticos

Já é sabida por quem me segue a influência que tive de analistas e estrategistas políticos, tais como Saul Alinsky, Gramsci ou David Horowitz. Muitos, quando cito os dois primeiros, confundem um pouco as coisas e acreditam que eu seja algum tipo de comunista. Pelo contrário, me tornei anti-comunista tão logo percebi, na teoria e na prática, o quão perversa é a ideologia e o quão nocivas são as pessoas por trás dela. Já o Horowitz, que em minha visão é mais um conservador, foi provavelmente o primeiro sobre o qual tive conhecimento que percebeu, de forma brilhante, as mesmas coisas que eu, porém com mais clareza e método.

David é autor de "A Arte da Guerra Política", infelizmente não traduzido por nenhuma editora brasileira. No entanto você pode encontrar uma boa parte do conteúdo deste livro em um vídeo de Silvio Medeiros no Youtube e também no site do analista político Luciano Ayan

Para este artigo, elaborei uma coisa que talvez possa interessá-los. Muitas vezes quando falo em guerra política, algumas pessoas me perguntam sobre aplicações práticas, pedem exemplos. Geralmente eu os tenho na ponta da língua, mas para evitar ficar reescrevendo isso a toda hora, vou tratar dois deles aqui. No primeiro passo apontarei o evento ocorrido e suas falhas, no segundo irei mostrar como nós, liberais, poderíamos nos sair bem em uma situação similar. Aos trabalhos!


Exemplo 1 - Debate entre Luciana Genro e Levy Fidelix, 2014, Rede Record.


Primeiro, veja o vídeo:



Vamos ao quadro geral.


- O primeiro ponto é que a pergunta de Luciana para ele foi, obviamente, um ardil. Ela já conhecia sua posição e deixa isso claro quando diz, antes da própria pergunta, que não faria "conversa de comadres" com ele. Dito isso, temos que entender a razão pela qual ela escolheu esta pergunta, e tal razão é extremamente óbvia: Ela precisava de um bom motivo para se posicionar ao lado das pautas LGBT, então fazê-lo confessar seu preconceito seria a oportunidade perfeita.

Fidelix, por sua vez, é um idiota, não importa se você concorda ou não com ele - e espero que não concorde. Ainda que ele tivesse razão - e não tem, seu papel nesses três minutos de vídeo foi servir de ferramenta nas mãos de alguém que é extremamente inteligente. Sim, Luciana Genro defende ideias erradas, mas não é burra. Ela defende estas ideias por ser uma pilantra oportunista com sede de poder.


Aos 47 segundos, quando ele está ainda no início de sua resposta, dá para perceber no rosto de Luciana o seu triunfo. Ela mal consegue esconder a satisfação ao ver que Levy mordeu a isca. Os olhos e o sorriso acusam isso, e ela está certa em comemorar por dentro, pois sabe que o idiota à sua frente servirá bem ao seu propósito ali. Logo depois, quando ele diz que "aparelho excretor não reproduz", os olhos dela se arregalam, como se estivesse olhando para uma barra de ouro. Sim, é ouro mesmo!

O restante das declarações de Fidelix são pura derrota. Ele dá à Luciana absolutamente todas as armas quando usa os jargões da direita neoconservadora, quando diz que a maioria heterossexual tem que lutar contra a minoria LGBT, quando cita o Papa e ainda faz uma menção à pedofilia - como se fosse racional comparar uma relação consensual entre adultos com o abuso infantil. Chego a acreditar na possibilidade de que ele estivesse ali contratado, apenas para fazer esse papel.

Novamente, repito: não importa se você concorda ou não. Eu não concordo com nenhuma palavra que ele disse, mas do ponto de vista da Guerra Política, ele foi um idiota-útil benéfico para o PSOL. Ao utilizar todos os jargões e mencionar a religião cristã, Fidelix deu a ela tudo, absolutamente tudo o que ela precisava para reforçar o espantalho da "direita cristã homofóbica." É claro que ela não tinha a menor intenção em derrubar o próprio Fidelix, pois ele era insignificante. Sua intenção foi a de se posicionar, ganhar terreno e conquistar a confiança LGBT. O plano saiu exatamente como planejado, e hoje ela é a principal candidata à prefeitura de Porto Alegre.

Como nós, liberais, poderíamos nos portar diante de tal pergunta?

Tenho certeza de que a maioria dos liberais responde esta pergunta de forma bem objetiva, dizendo "Sim, não há problema algum em reconhecer a união homo-afetiva."

Ok. Não tem mesmo nenhum problema, mas isso aqui é Guerra Política. Lembra? Quando Luciana Genro te faz essa pergunta, ela não quer saber o que você pensa, pois já sabe. É até bem provável que ela não fizesse tal pergunta a um liberal, mas se fizesse, minha reação seria a seguinte:

1 - Ela pergunta.
2 - Na resposta, que tem um minuto, eu enrolaria um pouco e terminaria dizendo que não compreendi o teor da pergunta.
3 - Ela gastaria a réplica reformulando a questão.
4 - Na tréplica, eu rapidamente responderia a pergunta de maneira positiva, e em seguida a atacaria, dizendo: "Estranho essa preocupação vindo justamente de você, Luciana, que apoiou toda a ditadura chavista na Venezuela e apoia o seu sucessor, ambos homofóbicos assumidos. Sua preocupação não me parece muito legítima, candidata. Acho que está usando os homossexuais como peça de propaganda política."

Lembre-se que após a tréplica Luciana não teria mais espaço para reação. Eu teria jogado um rótulo na cara dela, e ela não poderia fazer absolutamente nada. Naquele momento, eu teria vencido e ela teria sido humilhada. Um conservador ou até mesmo um neoconservador poderia seguir exatamente este mesmo modelo, e poderia apenas não ser trouxa o suficiente para declarar em rede nacional uma guerra da maioria contra as minorias, ainda mais quando essa ideia é simplesmente estúpida.

Exemplo 2 - Debate patético entre Ciro Gomes e Rodrigo Constantino

Primeiro, o vídeo:


Visão geral.

- Este é um debate diferente. Não se trata de uma corrida eleitoral, nem mesmo é um debate propriamente político. Constantino, diferentemente de Ciro, estava ali na condição de economista, não de um político de carreira. São campos simplesmente distintos da razão e os debates aos quais Constantino estava acostumado, até o momento, eram os debates intelectualoides da internet ou as discussões acadêmicas.

Qual a diferença objetiva entre Ciro e Rodrigo?

O primeiro, Ciro Gomes, é um político hábil, orador excelente e dono de uma retórica impecável. Ele mente, e mente muito bem. É oportunista e dos mais espertos, além de ser um excelente articulador. Enquanto isso, Rodrigo Constantino era, até aquele momento, um intelectual de internet com vasto conhecimento em economia, e só. Você, que é liberal ou libertário, precisa entender que em um debate contra um político esperto e mal intencionado não há espaço para dialética, tampouco há espaço para academicismos e explicações técnicas. Essas ferramentas são neutralizadas num piscar de olhos por qualquer um que domine a arte da retórica.

Linguagem é tudo. Note que Ciro Gomes não prova nada do que diz, ele apenas escolhe bem as palavras e fala com convicção. Seu grande acerto, inclusive, foi ter controlado Rodrigo a partir do momento em que o desestabilizou. E quando foi? No exato momento em que ele pergunta ao economista de onde tiraria o dinheiro e como faria para economizar pelo menos um bilhão. Ciro sabe perfeitamente a resposta dessa pergunta, mesmo porque já está nesse meio há muito tempo. A razão de ele ter perguntado foi o simples fato de saber que um economista, por melhor que seja, dificilmente conhece os mecanismos subterrâneos da máquina pública. Ele tinha certeza de que Constantino não saberia responder objetivamente.

Mais importante, ainda, é a postura. Ciro Gomes foi agressivo, foi incisivo, enfatizou seus pontos e atacou Rodrigo o tempo todo. Quando Constantino começa a rir, como se estivesse a debochar nervosamente de Ciro, este lhe questiona novamente com "Tá rindo de quê?", e Rodrigo se cala. Um deles está atacando, fica na ofensiva, fazendo pressão e tirando toda a estabilidade emocional do oponente. Rodrigo perdeu o debate não por ser ignorante, mas por ser completamente fraco no que tange à uma boa retórica. Este episódio deve servir de exemplo para nós, pois acontecerá exatamente a mesma coisa se debates nesses moldes voltarem a ocorrer. Não teremos a menor chance diante de um espertinho como Ciro se apelarmos para essa argumentação racional inútil. E justiça seja feita, o próprio Constantino, anos depois, reconheceu que foi humilhado por um adversário superior. Bom para ele!

Qual seria a postura adequada para um liberal?

Supondo que eu fosse um economista convidado a debater com um político como Ciro, que é esperto e canalha, eu iria antes de mais nada pescar informações sobre sua carreira e seus feitos, buscaria saber de qualquer erro, qualquer deslize, qualquer mentira contada. Este é o primeiro passo. O segundo passo, ainda mais importante, seria analisar o discurso adversário. Eu pararia e assistiria seus vídeos, suas entrevistas, seus debates, e buscaria neles compreender o modo operante de Ciro. A partir disso, construiria uma linha de raciocínio para então levar ao debate.

É óbvio que mesmo assim eu poderia vir a ser surpreendido, pois trata-se de um político oportunista. Ele sabe se virar em apuros. Se a situação chegasse ao ponto em que chegou com Rodrigo, quando ele pergunta de onde tirar o dinheiro, eu prontamente o contra-atacaria, fazendo-o recuar ou forçando-o a se expor mais. Ficar na defensiva nestas circunstâncias seria um erro ridículo. Caso houvesse a oportunidade, eu usaria qualquer um dos erros que ele tenha cometido para desmoralizá-lo diante dos espectadores. E nessa hora, amigo, vale tudo, pois não se trata de uma discussão lógica que visa o convencimento de uma das partes, mas de uma disputa ideológica.

Meu papel ali não seria o de convencer Ciro, pois ele já sabe que está errado. Meu papel seria o de convencer a plateia, as pessoas que estão assistindo, de que ele é um canalha, um oportunista e um mentiroso. Inclusive daria para aproveitar o fato de que Ciro Gomes esteve sempre ao lado do governo da situação. Fez tudo o que pode para conseguir ser ministro de Lula em 2003. Foi ministro de Itamar Franco também. E quando FHC governava, sua oposição foi tímida até as eleições, quando se candidatou à presidência.

É importante reforçar também o fato de que, diferentemente do debate entre Luciana Genro e Fidelix, neste caso entre Ciro e Constantino um deles não está ali por razões políticas. Ciro queria votos, talvez não naquele momento, mas no futuro, Rodrigo queria apenas expor algumas verdades econômicas. Seu erro foi ter acreditado que poderia fazer isso de forma limpa, jogando sem trapaças.

A postura adequada para o economista, neste contexto, seria a ridicularização total do oponente, levando-o à contradições, fazendo-o mentir ou mesmo jogando em sua cara os erros cometidos durante sua carreira. Depois disso, aí sim, sobraria algum espaço para a análise econômica. Tal não seria possível, de modo algum, sem a necessária neutralização política do adversário. Para isso, daria para usar até mesmo o fato de que um economista não tem obrigação propôr soluções, enquanto o político chama para si essa responsabilidade. Cobrar do próprio Ciro as respostas, dependendo da situação, também serviria para colocá-lo em xeque e deixá-lo na defensiva.

Conclusão


Poderia ficar aqui citando outros inúmeros casos, mas não vejo necessidade. Creio que estes dois exemplos bastem, e recomendo que procurem acompanhar estes medalhões da extrema-esquerda moderna, tais como Ciro Gomes e Luciana Genro. Outro hábil orador e excelente manipulador é o socialista radical Marcelo Freixo, também do PSOL. Essas figuras podem ser detestáveis do ponto de vista ético, mas são hábeis na oratória, sabem articular bem suas falas e sabem atacar os oponentes.

Não precisamos e nem devemos imitá-los, mas devemos entendê-los para sabermos como revidar de modo eficaz. Os liberais e libertários têm o mau hábito de subestimar a esquerda, pois não enxergam a guerra política, acreditam que são um bando de tolos defendendo uma teoria que deu errado. Essa forma equivocada de enxergar nossos oponentes tem nos custado bem caro, e acho que já está na hora de começarmos a correr atrás do tempo perdido.