28 de março de 2016

Em resposta a Russel Kirk.

O Portal Conservador publicou um texto de Russel Kirk no qual há uma crítica aos libertários, e este me foi mandado por um seguidor da Libertroll, o Isnar Machado. Ele me perguntou o que eu teria a dizer sobre o assunto. Já lhe respondi, obviamente, mas pretendo aqui expor de forma mais clara o que penso dessa crítica.

Primeiramente, Kirk não está errado.

É óbvio que discordo de sua visão sobre a necessidade do Estado - afinal, sou um libertário, não um conservador. Também discordo dos conservadores como Kirk no que diz respeito a conceitos vagos como "moral duradoura", e há um artigo de Joel Pinheiro sobre isso que torna desnecessário o meu aprofundamento. Contudo, há uma passagem nessa análise que considero bastante válida, e é esta:
"O que podemos afirmar, em geral, é que são anarquistas 'filosóficos' em trajes burgueses.[...] Buscam uma liberdade abstrata, algo que nunca existiu em civilização alguma - nem em qualquer povo bárbaro ou selvagem."
Liberdade abstrata, diria eu, é o termo mais apropriado para se referir ao movimento libertário. Claro que isso é generalização, mas toda generalização é também um exercício racional válido, pois não podemos descrever grupos sem apelar àqueles que ocupam a maior parte do espaço. Como venho criticando há muito tempo neste blog, a maior parte dos libertários mais radicais como eu ainda enxergam a realidade de maneira ideológica, o que é um erro. A ideologia jamais deve servir para descrever os fatos, pois nisso estaríamos incorrendo no mesmo erro de um fanático marxista. Ao contrário, é a ideologia que precisa, para se tornar aplicável, sucumbir à realidade. Foi isso que alguns dos principais teóricos socialistas do século XX entenderam, e foi por isso que o socialismo se tornou, hoje, uma ideologia hegemônica ou pelo menos presente até em lugares improváveis.

A crítica é válida, sobretudo porque a inobservância dos meios políticos ou, digamos, meios sociais para se atingir certas finalidades é destrutiva ao próprio desenvolvimento da proposta libertária. Se somos inimigos dos socialistas - e sim, nós somos! - precisamos atuar com vistas a torná-los menores, mais fracos, mais insignificantes e, acima de tudo, precisamos nos tornar uma opção viável. O mesmo vale para os neoconservadores (que não são, em absoluto, conservadores de boa estirpe como é o próprio Kirk), a quem também precisamos declarar guerra.

Aliás, vou até mais longe do que Kirk. Ele nos critica por sermos, segundo sua visão, revolucionários demais. Pessoalmente não vejo isso como o maior problema. Problema de verdade é sermos revolucionários inúteis, tal como são hoje os trotskistas do PCO. Muitos confundem o radicalismo com a total negligenciação dos meios para se atingir fins, o que é uma estupidez. PSOL é um partido socialista - também trotskista - extremamente radical, e em menos de dez anos de existência conseguiu uma quantidade razoável de cadeiras no Congresso, além de ser, apesar de pequenos, extremamente barulhento e politicamente influente. Na busca pelo totalitarismo, PSOL é um arma eficaz e certeira. Escreva o que digo: eles vão conseguir, a não ser que alguém os impeça. Se nós, libertários radicais, seguíssemos esse tipo de exemplo, Kirk não poderia ter nos criticado pela busca de uma liberdade abstrata.

Outra coisa importante nessa crítica aos libertários é a noção de que eles não primam tanto pelo resultado. É um apontamento interessante, pois considero essa a nossa maior falha. O fato de termos ao longo do tempo nos dedicado mais ao discurso radical do que às ações práticas é o que nos torna uma não-opção. Quero dizer com isso é que, não raramente, mesmo entre aqueles que concordam conosco, é comum encontrar quem opte por representantes que, digamos, são bem distante do que desejamos.

É o caso de Jair Bolsonaro, assim como foi o caso do Pastor Everaldo em 2014. Muitos são os libertários e liberais que caem na armadilha de apoiar o primeiro que aparece com alguma promessa do tipo. É burrice? Sim, é. No entanto ela é justificável num cenário onde não nos apresentamos como opção viável. Apoiar Jair Bolsonaro - e ele não é conservador, é um nacionalista imbecil - é um erro do ponto de vista libertário, até mesmo um liberal apoiá-lo ou mesmo um conservador já é errado. Só que não podemos nos queixar disso diante do fato de não termos, até o momento, nos colocado à disposição. As pessoas não fazem escolhas com base na razão, quem opta por Bolsonaro é quase sempre um desesperado que odeia comunistas e acha que ele irá destruí-los, mas que sequer conhece o fato de o próprio deputado ter indicado comunistas para o Ministério da Defesa.

No cenário ideal, teríamos opções e, acima de tudo, seríamos uma opção. E enquanto libertários evitarem esse caminho a tendência é que sejam massacrados, esquecidos ou simplesmente fiquem alheios a tudo gritando do lado de fora. Não é a toa que muitas pessoas inteligentes e sensatas nos veem como um bando de lunáticos estúpidos, como radicais burros ou como jovens desmiolados. Na maior parte das vezes, damos espaço para essas críticas ao elegermos como representante um completo idiota ao nível de Paulo Kogos. Se as pessoas tiverem esse tipo de tolice como ponto de referência a nosso respeito, sinto informá-los de que não teremos a menor chance.

É verdade que considero também uma abstração estes conceitos kirkianos, tal como "moral transcendente" ou "prudentes restrições", mas isso não vem ao caso. No futuro poderei fazer um texto critico aos conservadores, no momento não considero necessário pois não os vejo como adversários. Acredito, isto sim, que devemos nos apoiar naquilo que eles têm de bom, evitando o que têm de ruim. Ponto.