6 de março de 2016

Análise Crítica: Por trás da máscara - Flávio Morgenstern

Bastante tempo após o lançamento do livro, decidi fazer a ele uma crítica* completa, apontando todos os pontos positivos e negativos, oferecendo ao leitor uma conclusão minha acerca do que li.

NOÇÕES GERAIS

O livro cumpre o propósito e o final não decepciona. Em vez de oferecer respostas prontas e mastigadas, Flávio faz uma minuciosa análise e nos presenteia com uma verdadeira pesquisa acerca dos fatos. Como obra de estreia, não vejo como poderia ser melhor. Além disso, é uma leitura fácil, agradável, que prende atenção e faz ter aquela vontade de continuar lendo para saber o que vem a seguir.

PONTOS POSITIVOS

O desmascaramento dos movimentos sociais de esquerda e suas ramificações, que é a proposta máxima da obra, sem dúvida nenhuma é o grande deleite que você irá encontrar. Dá gosto ver, através de dados irrefutáveis, tantas mentiras e canalhices sendo simplesmente derrubadas. Observar o autor destrinchar dados sobre o Ocupy Wall Street e sua comparação às Jornadas de Junho de 2013 é gratificante, sobretudo para quem entende e se interessa pelo assunto.

Flávio também aponta algumas das principais contradições da esquerda, como seu antissemitismo enrustido, a defesa de programas sociais que são sabidamente impossíveis - como o Obamacare, defendido por Slavoj Žižek, ou mesmo as mentiras contadas por Malcolm Harris que continuaram a ser defendidas mesmo após ele próprio tê-las desmentido.

Outro dos principais pontos positivos da obra é a fundamentação de todas as afirmações feitas, sempre colocando as referências e dando explicações detalhadas nas notas de rodapé. É algo tão criterioso que não há como negar até certo grau de imparcialidade, dado que diferente da maioria dos direitistas, o autor foge ao lugar comum quando critica também as ações equivocadas da polícia, sempre se pautando na verdade.

A desmistificação do MPL é feita no livro através da exposição de suas táticas. Flávio explica ao leitor conceitos que não são normalmente entendidos, como o trotskismo de partidos como PSOL ou mesmo o "dog whistle", que é bastante usado pelos ideólogos da esquerda. E apesar da imparcialidade com a qual analisa os fatos, o autor também não deixa de se colocar em sua posição, assumindo claramente o que pensa sobre cada questão.

Lembrar os cartazes ridículos e engraçados dos protestos de 2013 foi algo que me rendeu boas gargalhadas, sobretudo por causa deste cartaz abaixo:


Mesmo eu, já calejado de saber como a esquerda opera, ainda posso afirmar que aprendi algumas coisas interessantes com este livro. É uma leitura política que recomendo.

PONTOS NEGATIVOS

Flávio Morgenstern faz mais de uma dezena de menções ao pretenso filósofo Olavo de Carvalho. Não é surpresa, visto que o autor nunca escondeu sua posição quanto a isso. Mesmo assim, é estranho ver alguém que cita inúmeros teóricos liberais e até mesmo os libertários mais radicais da Escola Austríaca (Hoppe, Rothbard, etc), usando suas abordagens para explicar certas ideias ao leitor, invocar uma figura tragicômica que já declarou seu ódio ao livre-mercado pelo menos duas vezes em situações distintas. Mais estranho ainda é que o autor dedique agradecimentos ao indivíduo em questão justamente em um livro no qual faz a defesa aberta do livre-mercado. Aparentemente - e este é só um palpite - Flávio se sente com algum tipo de obrigação, uma dívida para com seu guru do passado, daí a necessidade de citá-lo em situações nas quais nem mesmo há necessidade.

Ainda sobre o parágrafo anterior, vale entender que tudo o que Olavo tem a contribuir sobre o assunto do livro - a infowar - foi o que ele tirou das ideias e dos livros de David Horowitz, grande teórico americano, um conservador que desenvolveu metodologia de guerra política voltada ao público republicano. Este, a quem Flávio poderia citar mais vezes, só é mencionado rapidamente na primeira parte, de passagem.


A parte III do livro começa a ficar um pouco repetitiva. O autor reforça em demasia o conceito de "homem-massa", numa espécie de circuito de fórmula 1, fazendo o leitor ter a impressão de ter passado várias vezes pelo mesmo lugar. Julgo que Flávio, nesta parte, parece considerar que seus leitores têm deficiência cognitiva ou memória muito ruim. Acredito que por esta razão o livro poderia ser um pouco mais curto, pois dali seria possível tirar cinquenta páginas pelo menos. Da parte IV em diante a dinâmica volta ao normal e a leitura se torna novamente agradável.

Apesar disso tudo, apenas uma coisa realmente me desagradou, e foi o fato de eu ter a impressão quase constante de que Flávio subestima os nossos adversários, considerando como mero equivoco algumas ações que são claramente mal intencionadas. Parece que o autor considera como estupidez o que pode ser facilmente explicado pelo oportunismo ou pela malícia esquerdista.

CONCLUSÃO

É um livro necessário e pode servir tanto aos mais experientes em política quanto aos leigos, pois não abusa de tecnicismos e também evita os lugares comuns. Como analismo político é uma excelente obra.

De 0 a 10, minha nota é 9.


*Crítica, em seu sentido de origem, kritike, a 'arte de discernir', a análise sistemática, não em seu sentido coloquial, que se tornou sinônimo de "falar mal."