8 de março de 2016

Análise Crítica: al-Qaeda e o que significa ser moderno - John Gray

NOÇÕES GERAIS

Um livro publicado em 2003, apenas dois anos após os atentados de 11 de setembro em Nova York e Washington, recheado de previsões políticas e econômicas hoje concretizadas. Ler este livro em 2016 chega a ser irônico, pois a análise fria de John Gray, feita com olhar crítico para a história, se assemelha muito aos noticiários vistos nos últimos anos. O autor definitivamente enxergou além do óbvio, mostrando ao leitor uma análise racional que prova, mais uma vez, algo que com frequência tenho dito: A realidade destrói até mesmo a melhor das teorias.

PONTOS POSITIVOS

O livro é curto e de fácil leitura, não enrola o leitor com floreios desnecessários. Nada surpreendente para a cultura inglesa, mas muito raro em filósofos ou analistas políticos. Apesar de curto, ele é suficiente para explicar de modo bastante claro que o terrorismo organizado da Al-Qaeda é, de fato, fruto da modernidade.

Um mito derrubado no livro é também a noção de que o futuro é sempre melhor, o ideal positivista que influenciou o pensamento marxista e até mesmo a mentalidade liberal. Nesta obra, o conceito de "modernidade" é desmistificado, apresentando-se também o lado negativo de ser moderno, algo que nossa cultura ocidental normalmente ignora. Gray tem como foco uma visão histórica que não ignora os detalhes, por isso ele compreende, melhor do que a maioria, as diferenças culturais e suas incompatibilidades. Ainda assim apresenta algumas ideias que podem servir como solução de conflitos violentos, caso sejam seguidas.

Curiosamente, o autor prevê em 2003 o legado maldito da gestão de George W. Bush, prevê o colapso econômico ocorrido anos mais tarde e também prevê o avanço do terrorismo além da própria Al-Qaeda. É como se ele estivesse nos avisando, há 13 anos, que o ISIS viria e seria ainda mais nefasto.

PONTOS NEGATIVOS

O autor usa o termo "liberal" em um sentido americanizado, como se a palavra fosse sinônimo de "democrata" ou mesmo de "esquerda." Entretanto, fora dos EUA, o liberalismo é essencialmente republicano. Muitos acham que república e democracia são a mesma coisa, o que é um equívoco. E o uso que John dá à palavra "liberal" nesse sentido fica evidente quando ele trata nações de regime democrático como "nações liberais." Para entender a diferença, basta saber que o Brasil é um país democrático, enquanto a Suíça é uma república. Claro, ignore o fato de o nome oficial do país ser "República Federativa do Brasil", vez que até o nosso federalismo é por si só uma piada.

Também é difícil entender o que o autor chama, em certos momentos, de "livre-mercado global" ou mesmo suas menções ao "neoliberalismo." Aparentemente, a ideia de livre-mercado que ele utiliza para o livro é semelhante à visão keynesiana, não à visão propriamente liberal. Contudo, julgo que John deveria ter se preocupado em ser mais claro nesse aspecto, pois em dados momentos não dá para entender se ele concorda com ideias liberais ou não - embora, para a análise essencial do livro, este fato seja secundário.

CONCLUSÃO

O livro é muito interessante para quem gosta de análises políticas sob a ótica mais severa dos fatos históricos. Dito isso, também recomendo a leitura para qualquer pessoa que queira ver uma boa crítica ao positivismo, que ainda é uma praga comum no meio liberal, praga que espero poder ver erradicada ainda em vida.

De 0 a 10, minha nota é 8.