24 de fevereiro de 2016

Uma tréplica racional

Meu velho amigo Arthur Rizzi ficou incomodado com algumas críticas feitas no texto "O Duplo Padrão e a Direita Inimiga", onde afirmei que ele seria um fã de Olavo de Carvalho e que estaria a serviço de interesses dele, ainda que não soubesse disso. Em réplica, Arthur fez um texto chamado "Inimigo, com orgulho!", assumindo papel de oposição aos liberais. 

Ótimo. Ele admite que conservadores nos veem como inimigos e isso é o que venho dizendo há muito tempo. Não há nada para reclamar até aí. Contudo, o texto segue em parte até correto ao resgatar fatos históricos, mas vejo esta também como uma tentativa de desviar o real intento dessa discussão toda, que foram algumas de suas falsas acusações contra os liberais feitas no primeiro artigo, o que originou tudo isso.

De sua réplica, vou me atentar - por agora - apenas ao seguinte trecho:

"[...]os liberais de fato estão no centro do espectro e que na maioria dos casos, prefere se aliar a esquerda. É o que temos visto no Brasil..."

Que o colega me perdoe, mas esta afirmação é simplesmente mentirosa. Dentro do contexto brasileiro, sobretudo nos últimos tempos, liberais tem sido a maior força anti-esquerda que esse país já viu. O movimento conservador existe, mas se resume a uma trupe de papagaios sem miolos que se condicionam à repetição de mantras, isso quando não estão criando climas de pressão e perguntando "Você vai votar no Bolsonaro em 2018, sim ou sim?". Os ditos liberais ou libertários de esquerda no Brasil são tão repudiados pelo próprio movimento que basta se manifestarem para serem rechaçados às pencas. O site Mercado Popular, a quem meu amigo cita em sua réplica, é um dos sites liberais mais criticados pelos próprios liberais devido a seus posicionamentos mais à esquerda. Eu mesmo, neste blog aqui, já fiz dois textos criticando-os e criticando também iniciativas como Coletivo Nabuco e até mesmo o EPL. A aceitação destes poucos liberais de esquerda dentro do próprio movimento liberal é tão baixa que, quando surgiu o PSL - LIVRES, só o fato de Carlos Góes estar lá já foi motivo de desconfianças de xingamentos por parte de muita gente.

A saber, não é preciso esforço para achar liberais que apoiem ideias de direita, e é mil vezes mais fácil encontrar um liberal que se diga "liberal-conservador" do que um que se diga "liberal de esquerda." O primeiro é tão comum que já é até visto com normalidade na maioria dos espaços. Não adianta o amigo buscar coisinhas do passado, da Revolução Francesa ou de outros contextos sociais - como outras nações e culturas - para tentar justificar uma afirmação que é simplesmente errônea. Não há a mais remota possibilidade de afirmar, com alguma razão, que liberais brasileiros apoiem a esquerda. Isso simplesmente não ocorre. Mesmo os liberais que dizem ser de esquerda ainda assim se posicionam de modo antagônico a partidos como PSOL e sobretudo PT. Essa história de "se aliar à esquerda", aqui no Brasil, ou não aconteceu ou não acontece há muito tempo.

E, diante dos fatos, o que é esse tal movimento conservador, tão grandioso e tão invisível? Quais são os mentores do conservadorismo brasileiro e o que eles têm feito para mobilizar projetos, pessoas e ações concretas? Pela internet conheço um monte de conservadores, alguns muito inteligentes, autores de boas análises e, inclusive, meu próprio amigo Arthur Rizzi e os demais integrantes de seu site. Intelectualmente eles estão bem, sim, não há o que negar quanto a isso. Mas no campo prático, na vida real, o que os conservadores têm feito para frear os avanços da esquerda?

O MBL foi organizado por liberais. Eles cometeram vários erros, sim, e também já os critiquei por isso. Mas ainda assim foram eles que, bem ou mal, botaram o pau para quebrar. O NOVO e o PSL, que vem surgindo como uma boa alternativa a quem odeia a esquerda, são iniciativas liberais. Os conservadores formaram algum partido ou seriam seus únicos representantes os deputados Bolsonaro (pai e filhos) e Marco Feliciano, que nem mesmo conservadores são? Nos atacam por não termos representação política, mas pergunto: quem são os representantes políticos do conservadorismo brasileiro? A desgraça é tão grande que eles precisam idolatrar figuras como Enéas Carneiro, um nacionalista autoritário que se aproxima de Hugo Chávez no campo das ideias, ou então precisam citar Olavo de Carvalho, que com exceção do Pondé é o único que se diz conservador e tem alguma notoriedade hoje.


Outra passagem de sua réplica que trago para análise:

"
A direita, geralmente, prefere uma economia livre. Mas essa nunca foi a pauta principal da direita, a pauta da direita sempre esteva voltada pras tradições, pra moral e para a cultura."

Primeiramente, é falso que a direita prefira economia livre. Pelo menos é falso dentro daquilo que nosso amigo em questão define como "direita" na frase seguinte. Veja que ele determina "direita" como sendo aqueles que lutam em prol de tradições, moral e cultura. Dentro desta premissa, que não é minha, mas dele, poderíamos supor que nacionalistas e até mesmo socialistas ortodoxos são "de direita" e, portanto, totalmente desfavoráveis a uma economia livre. Todos nós sabemos e isso é bem provado que nacionalistas, neoconservadores e socialistas ortodoxos, cada um do seu próprio modo, são adeptos de uma centralização econômica, o engessamento da economia como meio de sobrevivência. Se a premissa de Arthur Rizzi estiver correta não há como negar que o próprio Stalin fosse "de direita", vez que ele era defensor das tradições, da moral e da cultura. E Chávez também o foi, bem como Evo Moralles ainda o é. De fato, se isso é ser "de direita", meu nobre amigo admite sem querer que eles possuem mais proximidade com socialistas do que qualquer liberal jamais conseguiria ter.

Irônico, não é?

É claro que a discussão sobre o que vem a ser economia livre pode variar. Alguns socialistas acham que estão lutando por liberdade, assim como alguns malucos que pedem intervenção militar também acreditam nisso. Dia desses até vi um nacionalista que se dizia nacional-liberal. Estas aberrações lógicas são aberrações, mas existem. O ponto é que eu sei bem que meu amigo Arthur não é desses tipos. Ele não é um ignorante sem consciência do que fala. E com base nisso não posso negar que haja um quê de más intenções naquilo que ele escreve.

Fugindo das suposições, volto a fazer perguntas.

Se os nobres conservadores, essa direita da qual meu amigo diz fazer parte, realmente se importam tanto assim com questões culturais e morais, quais têm sido suas ações concretas para preservar estas ideias?

Os liberais vêm criando think tanks, movimentos de nicho, associações e entidades que atuam nesta área. Especialmente nos últimos anos o movimento liberal cresceu e tem agido no campo prático. Até mesmo a eleição de Marcel Van Hattem (Rio Grande do Sul) - único político ainda decente dentro do PP - foi conquistada por uma equipe liberal e teve até a participação de Fábio Ostermann. Na Argentina, nossa vizinha, o atual presidente é um liberal que está literalmente destruindo pilares que sustentam a esquerda. Eu mesmo sou presidente e fundador de uma entidade que promove as ideias liberais em minha cidade, através da qual atuei não apenas intelectualmente, mas moralmente, e me expus em um debate público contra o movimento negro após o mesmo ter atacado uma pessoa inocente. No atual momento trabalho para pegar a liderança de um partido por aqui e, assim, conquistar terreno. No entanto, onde estão os conservadores? O que têm feito, senão críticas a nós enquanto fazemos o trabalho sujo de agir contra a esquerda?

A verdade é que meu amigo se equivoca duplamente ao afirmar que liberais ajudam a esquerda por aqui. Isso não apenas é falso como seu proporcional inverso é verdadeiro. Nós, os liberais, é que somos a verdadeira pedra no sapato de qualquer coletivista hoje existente nas terras tupiniquins. Podemos vacilar em algum ponto, não somos perfeitos e eu mesmo não falo por todos, somente por mim e pelos que voluntariamente concordam com o que digo, mas ainda assim estamos muito a frente no que diz respeito a frear a mentalidade vermelha que assola o país há décadas.

Para finalizar, ele repete a mesma afirmação desmentida em minha resposta:

"
A legítima direita é aquela que numa situação hipotética, em que se tenha que escolher entre a tradição e a economia, pesando na mesma balança eficiência econômica e os valores que a sociedade construiu ao longo de séculos, escolhe os valores."

Errado, sr. Arthur. Muito errado.

Não existe essa história de escolher entre os valores ou a economia. Não para os liberais. Para nós, são os princípios éticos que vêm primeiro. A economia vem depois, como consequência deles. Livre-mercado não é um princípio do liberalismo, é um fim. Nós lutamos para chegar a isso e sabemos que, para que aconteça, é necessário passarmos antes por questões éticas que envolvem, naturalmente, questões sociais, políticas e morais. Nós nunca precisaremos escolher entre "valores" ou "economia", pois nossos valores têm na economia apenas uma finalidade lógica, não uma prioridade.

Quer você admita ou não, ser liberal é isso. E guarde os espantalhos para usar no milharal.