28 de fevereiro de 2016

Pautas Quentes | A "polêmica" dos shorts

Hoje inauguro uma série em meu blog, cujo nome será "Pautas Quentes".

Todo o histórico do meu blog é composto por abordagens atemporais, nas quais muito dificilmente comento ou cito notícias e questões recentes. A razão disso é que eu não havia ainda pensado em como fazer, mas hoje tive um insight. Espero que curtam, pois farei mais textos assim de agora em diante.

A "polêmica" dos shorts

Enquanto liberal, estou longe de ser moralista e, inclusive, defendo que escolas nem sejam obrigatórias, mas eis que o assunto da semana tem sido a tal "polêmica" dos shorts curtos em uma escola de Porto Alegre.

O Colégio Anchieta é um dos mais antigos, e é de tradição católica. Não por acaso é também um dos colégios particulares mais caros da região, acessível somente a pessoas de classe média - o que por si só já deixa claro que seja, ali, um provável reduto da esquerda na cidade, como de costume. Também não é por acaso que o abaixo assinado entregue pelas garotas tenha, para não variar, toda a compostura e o linguajar comum aos movimentos da esquerda feminista, com aqueles mantras e conceitos abstratos sem nenhuma conexão com a realidade, jargões e bordões óbvios que não surpreendem nem mesmo no roteiro da novela Malhação.

A carta você pode conferir na íntegra aqui nesta reportagem tendenciosa (pró-manifestantes) do Jornal Zero Hora. Há outra matéria no mesmo jornal sobre este assunto, que você pode ver aqui. Seguem alguns trechos da carta/panfleto:

"Exigimos que a instituição deixe no passado o machismo, a objetificação e sexualização dos corpos das alunas; exigimos que deixe no passado a mentalidade de que cabe às mulheres a prevenção de assédios, abusos e estupros; exigimos que, ao invés de ditar o que as meninas podem vestir, ditem o respeito."

O tom da carta é esse. Note que a palavra "exigimos" aparece por três vezes em uma oração de quatro linhas. Note, também, as outras palavras destacadas, comuns ao linguajar da esquerda radical. Quando se diz para deixar no passado a mentalidade de que os assédios e estupros são de responsabilidade da mulher, isso dá a impressão de que esses estupros e assédios ocorram às pencas contra elas, as garotas (que tem entre 13 e 17 anos de idade) ali mesmo, naquele ambiente que, segundo elas, é algum tipo de zona de guerra. "Objetificação" e "sexualização" são termos bem vagos, também, e eles são vagos de propósito. A intenção não é lutar contra um problema real, mas criá-lo.

"Regras de vestuário reforçam a ideia de que meninas tem que "se cobrir" porque garotos serão garotos;[...]"

O trecho acima, por sua vez, contem duas coisinhas bem mais sutis, mas que são relevantes ao tom da carta. A primeira é a acusação de que "meninas tem que se cobrir", como se isso fosse mesmo verdade. A realidade é que regras de vestuários em instituições de ensino, empresas ou qualquer local público (até mesmo em ônibus) costumam ser válidas para ambos os lados. Garotos não podem andar sem camisa, algumas escolas não permitem o uso de bermuda e chinelo, e há empresas diversas por aí que permitem à mulher o uso de saia, mas não permitem que o homem use bermuda. Muitas empresas têm regras sobre calçados femininos permitindo que elas usem calçados abertos, mas proibindo homens de usarem chinelo. Essa acusação de que são regras para as meninas é apenas uma mentira.

A segunda coisa sutil neste pequeno trecho é a parte final, "garotos serão garotos." O que se quer realmente dizer com isso é que apenas garotos são "tarados", como se meninas também não olhassem para os meninos que acham bonitos. É um reforço à ideia de que o homem é esse ser maligno que se porta como animal, enquanto mulheres são apenas vítimas de tudo isso.

"Ao invés de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino. Nós somos adolescentes de 13-17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema."

Note que elas alegam sofrer humilhação pelo simples fato de existir uma norma de vestimenta, que é o uniforme da escola. É óbvio que não existe humilhação alguma aí. Quando estudava eu também tinha meus problemas com o uniforme, muitas vezes não o usava e ia para a diretoria. A diferença é que eu sabia que estava errado, fazia aquilo por mera transgressão das normas, para pagar de revoltado juvenil. O que essas garotas e todos aqueles que apoiam a causa querem, no fim, é justificar a infantilidade e a birra por meio de argumentos irracionais.

Contudo, isso é de menos. O pior mesmo é o que vem depois, quando alegam - novamente - sofrerem sexualização por parte de alunos e professores homens. Esta é um acusação gravíssima, pois indica algum tipo de assédio sexual ou verbal que possa ter ocorrido ou que ocorra naturalmente. Entretanto, é uma acusação aberta, sem alvo, feita "aos homens" e não a uma pessoa específica. Qual a razão disso? Simples: não aconteceu nada. Elas estão inventando uma causa, é o típico caso de "false flag" que a esquerda utiliza para legitimar pautas vazias.

O restante da carta é apenas mais do mesmo. Repetição dos mesmos mantras, mesmos jargões e mesmas mentiras. A palavra "humilhar" aparece mais umas onze ou doze vezes, dando a impressão de que uma simples regra de vestimenta, que só é válida dentro daquela instituição e que pode ser ignorada do portão para fora, é algum tipo de humilhação. O discurso é claramente forçado nesse sentido. É um apelo emocional sem nenhuma base racional. Contudo, há nos dois parágrafos finais algo que devemos analisar.

"A prioridade é ensinar para o ENEM e vestibulares, entendemos. Mas a educação social e política não pode ser deixada de lado. É por meio dela que construiremos uma geração melhor que a anterior; é por meio dela que criaremos um mundo onde mulheres não serão julgadas e humilhadas pelas roupas que escolhem vestir, pela forma que tem ou por quantas pessoas já transaram; é por meio dela que acabaremos com a realidade de que, a cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil e, a cada 11 minutos, 1 é estuprada[¹]; é por meio dela que criaremos um mundo onde cotistas não precisarão ouvir que "roubaram a vaga" de alguém que estudou a vida inteira em colégio particular; um mundo onde mães de crianças negras tenham certeza de que, no fim do dia, seus filhos voltarão pra casa; um mundo onde não perderemos mais vidas para a Guerra Às Drogas; onde mulheres não morrerão em clínicas clandestinas de aborto; onde a religião e a política não se misturarão; onde o capital não será mais importante do que a vida; onde os problemas de hoje serão solucionados."

Creio que para qualquer pessoa minimamente informada, a última frase destacada, a que fala sobre "o capital", seja mais do que uma evidência de que o movimento é, com toda certeza, de esquerda e ligado a partidos de esquerda. Mesmo assim, se você ainda duvida disso, leia este artigo de Flávio Morgenstern, no Senso Incomum, no qual ele prova que uma das lideranças do grupo é mesmo ligada ao PSOL e a movimentos feministas.

O restante do parágrafo é um conjunto de apelos aos mais diferentes grupos. É um tipo de "metralhadora" de jargões e lugares comuns, que serve como forma de atingir o máximo possível de "minorias" e conseguir delas o apoio. Até mesmo a guerra às drogas - a qual qualquer liberal normal é contra desde sempre - é citada ali, mesmo sem ter qualquer ligação com o assunto discutido. E bem no início do parágrafo, quando se fala em "educação social e política", escancara-se novamente o viés de esquerda dessa ação. Não só pela linguagem, que já é evidência o suficiente, mas também pela própria defesa da ideia. Ninguém tem maior interesse na aparelhagem entre escola e Estado do que partidos como PT, PSOL ou PCdoB. Fora isso, apelos aos negros, aos cotistas, e até citam números que são falsos ou simplesmente inverificáveis - como as mulheres mortas em clínicas clandestinas de aborto, um dado que é impossível de ser consultado.

E este é o encerramento da carta - ou panfleto ideológico, como preferir:

"Nós, alunas do ensino fundamental e médio do Colégio Anchieta, nos recusamos a obedecer a regras que reforçam e perpetuam o machismo, a cultura do estupro e slut shaming."

O termo "slut shaming" é tão vazio em nossa cultura que sequer existe uma palavra em português para descrevê-lo. O seu uso é feito apenas por feministas, pois não há qualquer base real para usá-lo fora de um discurso feminista. E, claro, "cultura do estupro" não poderia ficar de fora, afinal de contas é altamente necessário acusar um inimigo invisível que, por ser invisível, não pode ser visto: "a sociedade", "a cultura." Entretanto, curiosamente, é a própria esquerda que sai sempre em defesa de criminosos em detrimento de suas vítimas, isso inclui também os estupradores. A advogada de Direitos Humanos que defendeu um estuprador que matou - após ter abusado - de uma menina de 15 anos aqui em Joinville, não por acaso é a mesma advogada que trabalha para a Esquerda Marxista, corrente política que até pouco tempo atrás fazia parte do PT e que mais recentemente foi para o PSOL. A mãe da menina que foi estuprada e morta, no entanto, está lá sem nenhum amparo. Nenhuma feminista foi ajudá-la até hoje, e isso já aconteceu há anos.

Agora, saindo um pouco da carta e do colégio em si, tenho aqui outra coisa para pontuar.

Estava hoje circulando pela internet e me deparei com uma matéria esquisitíssima do G1, cujo título é: Garota se revolta após ser impedida de doar sangue por usar shorts 'curto'. Sinceramente, já vi filmes no mínimo parecidos com este antes. Não é estranho que algo tão incomum tenha ocorrido justamente agora, tão convenientemente? Já doei sangue algumas vezes e já vi pessoas com vestimentas muito variadas. Aliás, nunca nem mesmo ouvi falar de casos assim, pois geralmente os bancos de sangue estão desesperados por mais coletas. Os únicos casos mais controversos em que vi recusas foram casos de homossexuais impedidos de doar, pois de fato existe o preconceito de que todo homossexual necessariamente tenha aids. Fora disso, implicar com vestimenta definitivamente não é um caso comum.

Tenho a impressão de que essa será mais uma daquelas notícias arranjadas para dar sustentação a uma pauta fajuta. Consigo imaginar os próximos slogans utilizando essa manchete, dizendo que "preferiram seguir normas conservadoras² em vez de salvar vidas", entre outras coisas semelhantes.

Vamos ver no que vai dar.

E sobre o colégio, invoco a máxima liberal: propriedade privada, regras privadas. Sendo uma escola particular, ninguém é obrigado a estudar lá. Fim de papo.


¹ - O Mapa da Violência, que contem dados oficiais do governo (que é de esquerda) desmente os "dados" apresentados na carta.

² - Quando a esquerda tem a oportunidade, ela sempre usa o termo "conservador" ou suas variações genéricas para se referir a qualquer grupo que se oponha às suas ideias. O objetivo é nivelar toda a oposição e tratá-la como igual, trata-se de um rótulo, que será usado mesmo que você não seja e nunca tenha sido conservador na vida.