29 de fevereiro de 2016

Pautas Quentes | Os negros no Oscar

Sempre que algum setor da sociedade, geralmente aqueles que são considerados mais "privilegiados", sofre com a ausência de negros exercendo atividade de destaque, surge a carta do "racismo cultural", que é basicamente a acusação feita contra todo aquele setor por não dar o "devido" espaço aos negros.

Urge que o assunto chegou ao Oscar, e como se trata de pauta quente, neste texto pretendo mostrar as falhas básicas dessa reivindicação sob duas abordagens.

Abordagem nº 1 - Suponhamos que a esquerda esteja certa

Vamos partir do pressuposto da própria esquerda, baseando esta análise sob a ótica em que a única razão para não haver tantos negros premiados quanto brancos seja, de fato, o racismo. Assim, pura e simplesmente.

Dentro desta abordagem, tenho um ponto a levantar e que julgo de suma importância, a origem de tudo. E para isso, começo com a seguinte pergunta: Como poderiam premiar o mesmo número de atores negros e brancos, diretores negros e brancos, sendo que, na realidade, não há a mesma quantidade de negros e brancos no cinema americano? Entre todos os filmes lançados e que tinham alguma chance de concorrer ao Oscar, quantos deles tinham atores negros nos papéis de destaque, e quantos foram dirigidos por negros?

Para citar assim, de cabeça, sem fazer nenhuma consulta, consigo lembrar apenas do ator John Boyega, que interpretou Finn, em Star Wars: The Force Awakens. E, vamos considerar que ele estreou no cinema em 2011 e que este foi seu primeiro papel de destaque, se tratando portanto de um ator ainda inexperiente. Ainda assim, venceu o BAFTA na categoria "ator revelação", o que já é um bom reconhecimento a alguém que estreou há poucos dias no ramo.

Visto isso, conclui-se logicamente que há um número menor de negros atuando em filmes nos papéis de destaque se comparado ao número de brancos, razão pela qual seria matematicamente improvável - talvez impossível - premiar igualmente brancos e negros por isso. Então, partindo do pressuposto que propus no início, aquele em que a esquerda está certa sobre o racismo, não há como culpar a cerimônia do Oscar por isso. Se fôssemos levar a questão a sério, o foco deveria ser anterior, o que significa que deveríamos perguntar por qual razão há menos negros atuando nos papéis de destaque.

Esta seria a questão levantada pela esquerda se ela realmente desse importância para o assunto. A única razão pela qual se escolheu atacar o Oscar em si, desconsiderando a estrada que vem antes dele, é para chamar atenção à causa e ganhar dividendos políticos. É mais lucrativo atacar o efeito do que a causa, sobretudo se o efeito for uma premiação transmitida ao vivo para diversos países do mundo inteiro enquanto a causa for algo feito nos bastidores, por trás das câmeras, sem muitas possibilidades de aparecer e ganhar imagem.

Abordagem nº 2 - A realidade

Denzel Washington está no seleto grupo dos poucos atores na história do cinema premiados mais de uma vez. Ele, aliás, foi indicado outras tantas vezes ao Oscar, além de ter vencido diversos outros prêmios, e é de longe um dos atores ainda em atividade com a maior filmografia. Ninguém há de negar seu talento e carisma. Enquanto Will Smith, com uma filmografia bem menor, foi indicado três vezes ao Oscar, uma com vitória em À Procura da Felicidade. Até mesmo no filme Ali, que é uma clara apologia ao islamismo e aos Panteras Negras, ele foi indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro, e ainda ganhou o prêmio MTV Movie Awards como melhor ator.

Morgan Freeman, outro consagrado ator de Hollywood, tem um Oscar como melhor ator coadjuvante em Menina de Ouro, e foi indicado outras quatro vezes em duas categorias diferentes. Além disso, também venceu o Globo de Ouro como melhor ator de comédia, e foi indicado a este mesmo prêmio também outras quatro vezes. 

Jamie Foxx venceu um Oscar como melhor ator em Ray, filme que conta a historia de Ray Charles (outro negro muito querido na cultura pop), além de ter sido indicado a outro Oscar em 2004 como ator coadjuvante em Colateral. E Halle Berry, que não é uma grande atriz, venceu um Oscar como melhor atriz em 2002 pelo filme Monster's Ball, e venceu também um Globo de Ouro em 1999 por uma minissérie de TV.

Whoopi Goldberg também foi indicada duas vezes ao Oscar, vencendo uma delas como atriz coadjuvante. A mesma também foi indicada três vezes ao Globo de Ouro e ganhou duas. Samuel L Jackson, outro ator absolutamente consagrado pela crítica e pelo público, foi indicado várias vezes ao Globo de Ouro e uma vez para o Oscar pelo filme Pulp Fiction, que só não venceu por ter concorrido com ninguém menos do que Tom Hanks em sua maravilhosa atuação no filme Philadelphia.

Cuba Gooding Jr. venceu um Oscar como melhor ator coadjuvante em Jerry Maguire. Forest Whitaker também carrega um Oscar e um Globo de Ouro. Jennifer Hudson também possui um Oscar e um Globo de Ouro, ambos como melhor atriz coadjuvante. As atrizes Mo'Nique, Octavia Spencer e Lupita Nyong'o, todas pouco conhecidas, também têm suas estatuetas como atrizes coadjuvantes, além do Globo de Ouro, e até mesmo Queen Latifah, que é uma atriz medíocre, já foi indicada ao Globo de Ouro uma vez.

E agora, o mais importante: tudo isso aconteceu dentro de um país que tem apenas entre 12% e 15% de negros em sua população.¹ Acredito que isso encerre de vez o assunto.