1 de março de 2016

Karl Marx não foi um idiota

Canso de ver liberais por aí, que assim como a maioria dos marxistas também não leram Marx e que, com sua prepotência característica, alegam que o alemão barbudo teria sido meramente um idiota, alguém que escreveu uma teoria furada e utópica. Nada poderia ser mais equivocado, e explico o por quê.

"A história acontece como tragédia e se repete como farsa."

Karl Marx pode até não ter feito intencionalmente, mas o que ele escreveu é parte de um processo que ainda permanece muito vivo nos dias atuais: as narrativas político-ideológicas da sociedade. E isso, obviamente, não está apenas nos seus escritos, mas também naqueles que se influenciaram por ele e que, em outros contextos, trataram de adaptar sua obra. Se hoje a esquerda é uma máquina de guerra política, isso se deve especialmente ao trabalho de Marx e Engels em terem criado uma teoria que, embora falha nos seus aspectos técnicos, é politicamente válida e relativamente fácil de ser vendida.

Quando Marx viveu os tempos eram outros, e ele acreditava que o Socialismo viria através do Capitalismo. Para ele, o capitalismo era o mal necessário que serviria como trampolim inevitável ao alcance do socialismo "científico", e ele não estava totalmente errado na conclusão, embora possa ter errado no caminho. Aproveite e veja esta curiosa entrevista dada por Dino, governador eleito no Maranhão em 2014 pelo PCdoB, onde ele diz que o estado precisa de um choque de Capitalismo. Notem, inclusive, que ele afirma claramente ter ciência de que o modelo defendido é favorável ao capitalismo de mercado.

A razão disso tudo é muito simples, Marx bem o sabia: é necessário, antes de se tomar conta do Estado, ter um acúmulo alto de poder e riquezas, que são bens de consumo e serviços. Marx sabia que o socialismo não poderia dar certo nem mesmo por curtos períodos se fosse implantado em uma sociedade na qual inexistisse riqueza prévia. Para que o socialismo possa florescer e desabrochar, o capitalismo se faz imprescindível e todo marxista que tenha lido Marx em sua vida é consciente desta noção.

Posteriormente, outros teóricos trataram de desenvolver a mesma teoria e adaptá-la aos novos contextos. Uma coisa na qual Karl Marx "errou" foi em acreditar que a revolução viria por meio do proletariado, quando Gramsci conseguiu entender que o Socialismo seria alcançado, ainda que sob outros formatos, através de mecanismos políticos e culturais. Os teóricos da Escola de Frankfurt perceberam o mesmo. E o próprio Trotsky, a quem muitos consideram um "socialista moderado", foi na realidade um dos maiores radicais, e foi também quem percebeu outro caminho possível para a revolução: o caminho dos piquetes, do caos social planejado, do clima de guerra civil. Herbert Marcuse entendeu, também, que era possível fomentar este mesmo caos social através da propagação intencional da violência urbana, e a esquerda atual faz isso sempre que se preocupa em justificar crimes com base na "classe social" do criminoso ou da vítima.

O próprio conceito de "luta de classes" é algo que Marx desenvolveu com uma base não muito realista, mas que hoje se tornou real por ter sido deliberadamente criado pelos seus seguidores. E o que a esquerda atual utiliza como método é diretamente emprestado disso, não acidentalmente. Se alguém tem alguma dúvida sobre isso, basta ligar os pontos e perceber que todos os movimentos anti-capitalistas arruaceiros, aqueles repletos de vândalos juvenis, são em sua maioria imitadores das "milícias" trotskistas do passado, que foram um fruto direto daquilo que Marx providencialmente inventou. Se não existe uma pauta, a esquerda cria uma pauta, e a tal "luta de classes" nunca passou de cortina de fumaça, mas ela precisa existir em algum nível para ser validada pelo discurso sentimentalista que arregimenta os idiotas úteis.

Aliás, sentimentalismo é a chave do sucesso político da esquerda. Ela sabe manipular as discussões não por meio de argumentos, dados ou um raciocínio linear. Muito pelo contrário! Fogem disso como o cão foge do banho no inverno. A grande sacada da esquerda foi ter percebido que para mobilizar massas com intuitos revolucionários não é necessário - e é, aliás, indesejável - argumentar, pois a mentalidade de massa revolucionária só precisa de alguns bordões, um tom agressivo que pareça promissor e um slogan. É o capitalismo, na forma de publicidade de massa, sendo utilizado para implementar a mentalidade socialista em pessoas que sequer sabem o que é socialismo. Não é mero acaso o fato de que praticamente todos os militantes mais devotos do socialismo vivam em situações confortáveis e até privilegiadas na sociedade capitalista. Racionalmente, não há coerência alguma, mas ninguém se importa com razão diante de políticos fazendo promessas.

É claro - e isso eu já disse outras vezes - que o Socialismo fracassou como modelo econômico-social, mas isso não o impede de ser, ainda hoje, uma das bandeiras mais defendidas do mundo inteiro. E a razão pela qual isso acontece é simples: Marx deixou um caminho traçado e os passos de seus seguidores ainda caminham na mesma direção.