10 de janeiro de 2016

Por que não aderir ao fusionismo? (Pt. 2)

Tenho visto alguns neoconservadores, nos últimos meses, repetirem dois discursos falsos com uma finalidade muito clara: incentivar um número maior de liberais e libertários a aderirem ao fusionismo. Um desses discursos, que é extremamente comum, carrega palavras lindas como "união" e "foco", sugerem que a direita tem que se unir contra um inimigo comum - que é a esquerda - e que esta união é imprescindível, uma vez que a esquerda é, segundo eles, muito unida*. O outro discurso também comum é dizer que liberais e libertários se importam muito mais com economia e, por isso, precisam dos "valores morais" do conservadorismo para obter sucesso.

Faz-me rir.

O primeiro, sobre a união das direitas, é interessante. Ele não seria completamente inválido, mas aí existe uma sutileza que a maioria dos liberais não percebe, seja por falta de experiência ou mesmo por ingenuidade pura. A sutileza é que os neoconservadores, quando propõem a nós esta união, na realidade querem apenas que nós, liberais e libertários, aceitemos as suas pautas, absorvamos tudo aquilo que eles defendem e, se preciso, querem que larguemos os nossos princípios mais fundamentais em prol desta parceria. O contrário nunca lhes passa pela cabeça e jamais aconteceu. Sempre que liberais e neoconservadores se uniram, o resultado foi que ou todos eles viraram neoconservadores, ou o lado liberal se sobressaiu, tomou espaço e o neoconservador ficou irritado e foi embora.

O segundo, sobre os valores que supostamente só os conservadores têm, é apenas ridículo e mentiroso. E a repetição ad nauseam dele é uma evidência de desonestidade, além de uma clara tentativa de ter o monopólio da virtude, igualzinho a qualquer progressista. A verdade é totalmente outra. O libertarianismo é muito mais sobre princípios éticos que regem uma sociedade do que as questões econômicas. É verdade que o uso de termos como "bens econômicos" se tornou bastante comum, mas qualquer libertário minimamente entendido sabe que economia, pura e simples, não pode existir de maneira satisfatória sem a manutenção constante dos princípios fundamentais da ética libertária. Coisas básicas como direitos negativos, a importância dos direitos de propriedade, o princípio de não-agressão, etc., são questões éticas, não econômicas. Elas podem valer também para as relações econômicas e dentro da ótica libertária até devem, mas elas não são normas econômicas de modo algum. Afirmar que o libertarianismo é uma teoria meramente econômica é mentir descaradamente. Sempre que alguém te disser isso, desconfie e exponha este fato.

Um caso bem recente e de conhecimento geral prova que essa história de fusionismo sempre acaba mal para os liberais. E este caso é o MBL - Movimento Brasil Livre, que desde o seu surgimento carrega em seu peito uma forma de atuação que tem como meta unir as direitas na luta contra a esquerda. Kim Kataguiri, a quem critiquei duramente em meu último artigo, desde o seu despertar nas redes socais se mostrou sempre bem intencionado, mas também se mostrou leigo e inexperiente. Ele sacrificou muitos dos seus princípios em prol de unir óleo e água. Essa mistura entre neoconservadores, nacionalistas e liberais não tem como funcionar, porque existem diferenças essenciais tanto de princípio quanto de método. Os objetivos de longo prazo não são os mesmos. O que os neoconservadores querem não é o que querem os liberais.

Não por acaso, no surgimento do MBL em 2014, previ o que veio a acontecer quase um ano depois. Na ocasião, muitos não acreditaram em mim e pensaram que eu estava exagerando, mas cansei de avisar para muitas pessoas do meio liberal que elas não deveriam se aliar a figuras tacanhas como Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho. Uma frase que lembro de ter dito para um amigo, que não acreditou em mim, foi justamente a seguinte: "Um dia o Kim vai se ligar e vai tentar voltar atrás. Ele vai dizer o que realmente pensa e sente sobre tudo isso. Quando isso acontecer, essa 'direita unida' irá esmagá-lo, pois não se pode ousar discordar deles em nada." Parece que foi exatamente isso que ocorreu, no fim das contas. Hoje, por ter apenas dito a verdade, Kim vem sendo achincalhado pelos fãs do Bolsonaro. E pouco antes disso também sofreu nas mãos dos fãs de Olavo, que o vem criticando por seus erros de modo oportunista, tudo por conta de uma briguinha de ego infantil - o que aliás é a cara do guru da Virgínia.

Aí, supondo que você entenda o que digo, talvez surja em sua mente aquela pergunta de sempre: O que fazer? Ou: Como fazer melhor? A verdade é que não existe receita mágica. Não existe nenhum segredo ou cheat para resolver isso. A solução é simples e clara. Se você decidiu escolher o liberalismo ou o libertarianismo para seguir, procure entender bem do que se trata, procure ver dentro de sua realidade o que é possível fazer para solucionar problemas e incentivar mais pessoas a concordarem com você, e depois disso é só evitar alianças medíocres em troca de migalhas. Se juntar com a direita brasileira medonha apenas para derrubar a esquerda, para um liberal e principalmente para um libertário, é um preço muito alto a pagar por algo que não traz nenhum ponto positivo. O liberal ou libertário que faz isso simplesmente não ganha nada, ele só perde. Ele ajuda os neoconservadores, serve de trampolim para espertos oportunistas, e quando ousar dizer o que pensa será pisoteado pela manada. Não há espaço para concessões desse tipo.

Enfim. Unir a direita não é sequer necessário. Liberais atacam a esquerda. Libertários atacam a esquerda. Conservadores ou neoconservadores também atacam a esquerda. Não precisamos andar juntos no recreio para participar da brincadeira. Se cada lado fizer a sua parte a esquerda vai ruir sem que tenhamos que nos abraçar para isso. Neoconservadores são o que são e devem continuar sendo exatamente o que são. O mesmo vale para liberais, libertários, nacionalistas, etc. E é bem melhor que cada um assuma o que é e pare de ficar tentando converter o outro em nome dessa "união" boba. Ao contrário do que parece, isto sim atrapalha a luta contra a esquerda.

Em vez de focar o meu tempo aqui atacando socialistas e progressistas, por exemplo, tenho que ficar desenhando para liberais que eles não devem cair na lábia de nenhum político oportunista ou pseudo-filósofo líder de seita. E eles, o mesmo. Em vez de se focarem em atacar a esquerda, ficam se preocupando em nos convencer a servi-los, a servir aos seus propósitos. Alguns conservadores alegam que "esta não é a hora de a direita se desunir", e eu afirmo o oposto: esta é a hora mais perfeita possível. Quanto mais frentes tivermos fazendo pressão e atacando a esquerda, e quanto mais fragmentada for essa oposição, maiores são as nossas chances. Inclusive, se esse país não fosse extremamente burocrático, eu proporia a criação de uns 300 partidos liberais diferentes só pra fazer pressão contra os mais de 30 partidos de esquerda que existem aí. 

O que para alguns pode parecer extremamente óbvio, para outros é de grande dificuldade. Em face disso, aprendi que dizer o óbvio se tornou bastante necessário, uma vez que as pessoas vivem tentando encontrar pelo em ovo, mas dificilmente se dão conta da gema que está dentro da casca.

*Esse papo de que a esquerda é unida não é tão verdadeiro assim. A esquerda é extremamente fragmentada, e ela vem se fragmentando cada dia mais. Os movimentos sociais, por exemplo, já brigam entre si faz tempo para saber qual é a pauta mais importante. Partidos com siglas que são praticamente iguais foram criados por birras internas e divergências banais. Há pelo menos quatro partidos hoje existentes que são dissidências diretas do PT.