28 de janeiro de 2016

O Duplo Padrão e a Direita Inimiga

Força através da Unidade. Unidade através da Fé.

O discurso reproduzido abaixo é de uma figura que você provavelmente conhece, seja pela TV ou por meio da internet. Você não sabe quem é, e eu não lhe direi. Farei, portanto, um joguinho. Após o discurso colocarei três opções para que você dê o seu palpite. Garanto que não saberá quem dos três é o autor de tais palavras.

"Para quê servem as privatizações? Privatizações são negociatas que servem para transferir o formidável patrimônio público para uma minoria privilegiada de representantes legítimos do sistema financeiro internacional. E ainda são pagas com papéis públicos que estavam altamente desvalorizados. É um verdadeiro assalto à nação, feito às claras. E com a imprensa toda batendo palmas. Daí a propaganda gigantesca a favor do Estado Mínimo."

Opção 1: Hugo Chávez

Opção 2: Luciana Genro

Opção 3: Adolf Hitler

O discurso mostrado acima é típico dos detratores do liberalismo. Uma afronta radical à propriedade privada e à liberdade em si. Normalmente, esperaria-se que isso fosse dito por um socialista ortodoxo ou moderno, talvez por um progressista ou até mesmo por algum social-democrata. Mas, o autor de tais palavras é ninguém menos que Enéas Carneiro, o nacionalista já falecido do PRONA, aquele em quem todos dizem que teriam votado, mas em quem quase ninguém votou. Enéas é idolatrado por uma parte da direita brasileira que ama qualquer tipo de fraseado impactante sobre união, "moralidade" e princípios cristãos. O dito-cujo preenchia bem estes requisitos.

Todavia, se tirarmos a bandeira do Brasil e se substituirmos o idioma pelo espanhol, acompanhado, é claro, por uma bandeira venezuelana, não poderia ele ser o próprio Chávez? E o que o distingue de Luciana Genro, que em toda a campanha de 2014 criticou a entidade imaginária chamada "capital estrangeiro"? Seriam apenas o cabelo e a barba? Alguns diriam que seu amor à Pátria é um diferencial. Mas, quem disse que Chávez não amava sua Pátria também? E o que dizer de Hitler, um dos maiores patriotas que já existiu?

Neoconservadores, estes filhotes bastardos de Leo Strauss com Samuel Huntington, odeiam os princípios mais básicos do liberalismo. Eles odeiam o liberalismo em si. Olavo de Carvalho, talvez o mais legítimo exemplar do neoconservadorismo brasileiro ainda vivo, disse não só uma vez que o livre mercado é um "instrumento comunista", e que o liberalismo culmina inevitavelmente no comunismo. Os olavettes do site Minuto Produtivo, nesta semana, produziram um texto absolutamente canalha e mentiroso em defesa velada de Olavo, esta eterna "vitima das circunstâncias", com quem todos discutem sem nenhuma razão e a quem todos difamam sem que ele nada tenha feito de errado. Mas no mesmo texto, claramente feito com a intenção de proteger o astrólogo dos ataques que vem sofrendo por agir feito um tolo, há diversas afirmações simplesmente caluniosas não apenas sobre a história recente da política brasileira, mas sobre os liberais também. Um trecho do texto em questão segue abaixo.

"[...]o liberalismo e o libertarianismo, longe de serem a direita estão mais ao centro do espectro político e, quase sempre preferem se inclinar a esquerda do que a direita."

Outro trecho, que vem logo depois:

"[...]se chegou a criar a ideia de haver duas direitas: A direita conservadora, baseada no apego a moralidade, à religião, às tradições e aos costumes, bem como “a direita liberal” que só pensava em economia."


Ignorando outros pormenores deste ridículo artigo feito por um cara que já respeitei, o Arthur Rizzi, como a parte em que ele atribui ao seu guru astrólogo qualidades e feitos que nunca foram por ele realizados, o que realmente intriga no texto é a tentativa esforçada e clara de demonizar os liberais. Segundo os neoconservadores, somente eles são a "direita legítima", e todos os demais são impostores. Não acho que isso seja relevante do ponto de vista técnico. Para um liberal, essa história de esquerda ou direita é pouco relevante. Mas as intenções por trás de tais palavras é que contam.

Quando o autor nos coloca na posição de "inclinados à esquerda", pode parecer uma bobagem qualquer, mas não é. Ele está, conscientemente, nos nivelando ao nível dos esquerdistas. O que ele quer com isso é que seus leitores nos vejam como eles veem a própria esquerda. E na colocação seguinte, ele reforça a rotulagem acrescentando um auto-elogio. Ou seja: são eles, os [neo]conservadores, os detentores da moralidade, dos costumes e de tudo o que há de bom e puro. Enquanto os liberais são estes "seres frios que só se importam com números."

A mensagem é esta.

Monopólio da virtude é uma característica comum à esquerda. Mas, ao que tudo indica, a "legítima direita" também a pratica. Afinal de contas, se são só eles os possuidores dos valores mais caros a uma civilização, todos os demais estão abaixo deles. Não é assim?

Contudo, esta mentalidade anti-liberal não é inerente aos conservadores. Somente os neoconservadores - que são fanáticos em essência - é que atuam desta forma. Pois, para eles, é inconcebível a ideia de se ter discordâncias pontuais quanto a algum tema. Embora eles reforcem o discurso de "união das direitas", na prática o que querem é uma adesão nossa para as pautas deles, jamais o contrário. A única coisa que eles querem dos liberais é usá-los para fazer volume e espalhar a "palavra" deles para o mundo. Os conservadores tradicionais, como Roger Scruton ou Pondé, são pessoas bastante razoáveis com as quais se pode dialogar racionalmente. Entre nós e eles também há divergências, assim como há divergências entre os próprios liberais. Mas são divergências saudáveis, não são guerras de gangue.

A realidade é que a Direita Inimiga - e passarei a chamar assim a partir de hoje - busca não o avanço de seus ideais, mas a destruição daqueles que são seus inimigos: os "infiéis", os "hereges" que ousam discordar de alguma das suas centenas de verdades absolutas. Por isso atuam sempre em duplo padrão, como a própria esquerda faz. E como isso é uma guerra ideológica, eu não veria problema que usassem estratégias para eliminar o poder do adversário. O que me intriga, no entanto, é que eles nunca utilizem de tamanha ardileza contra a esquerda, que tanto dizem odiar. Eu simplesmente não os vejo atacando a esquerda com a mesma eficácia que se dedicam a atacar os liberais. Se a esquerda é o inimigo do momento, e se eles defendem que devemos nos aliar em prol de uma meta, qual a lógica de nos atacarem com tanta verve e deixarem a esquerda caminhar quase livremente?

Em minha humilde opinião, eles são apenas frouxos. Sabem que atacar liberais é mais fácil porque, infelizmente, no meio liberal ainda existem muitos frouxos também. A esquerda se defende melhor e dela eles têm medo. Cabe aos liberais, aos libertários ou mesmo aos conservadores que não se identificam com esse fanatismo caricato compreenderem que esta parte da direita deve ser execrada e extirpada. Neoconservadores e nacionalistas são inimigos declarados da liberdade. O que eles querem é apenas um monopólio de todas as virtudes e da sociedade, quiça até mesmo um monopólio sobre nossos pensamentos.

Não existe aliança possível com essas pessoas. Eles são nossos inimigos declarados!