28 de março de 2015

Liberais, não entrem no espantalho!

Obviamente não me surpreende - e quase nem me incomoda - o fato de socialistas e esquerdistas em geral utilizarem de trapaças retóricas, mentiras e desvirtuações para defenderem suas causas. Também não fico surpreso quando vejo ou ouço algum deles usurpando as bandeiras dos outros e fingindo se importar com elas. Já escrevi sobre isso. Foi um dos primeiros textos, postado aqui mesmo, que evidenciava estes fatos, sendo um deles a usurpação do movimento feminista, por exemplo, para fins puramente políticos.

Considero isso parte de uma boa estratégia. Após os fracassos econômicos e sociais do socialismo no século passado, é natural e até tolerável que mudem o discurso. Defender os gays, os negros, as mulheres, mesmo que só da boca pra fora, é uma tática discursiva inteligente e eficaz e ela tem mostrado resultados positivos para a esquerda. Socialismo nunca foi liberdade. E disso há provas de sobra! Mas o que são provas diante de uma boa retórica, quando seu público alvo é a massa heterogênea de pessoas chamada "sociedade"?

Foi a partir desta visão que se criou a tática de monopolizar as virtudes. Por isso a esquerda sempre chama qualquer opositor de elitista, racista, homofóbico, enquanto ela própria se mostra do lado dos pobres, dos negros, dos gays, do meio-ambiente, e por conseguinte dizem defender a tudo isso ao mesmo tempo em que lutam pelo socialismo; afinal, tudo o que há de ruim é atribuído a nós, seus rivais, os "capitalistas". Esse "nós e eles" que é frequentemente reforçado, entretanto, não existe apenas porque a esquerda criou o espantalho. Ele existe e se reforça ainda mais porque nós, enquanto liberais, vestimos o espantalho!

Quando você, liberal, foca todas as suas energias para criticar as cotas raciais e o Bolsa Família, você apenas reforça o estigma do elitismo; e não é que não se deva criticar tais programas. A questão não é esta. A questão é que há problemas muito maiores e alvos que são muito mais significativos, alguns até mais estratégicos. Criticar estes programas assistencialistas reforça a imagem do elitismo, mesmo que você não seja elitista de fato. Estrategicamente falando, fica fácil jogar em cima de você estes rótulos diante de tais atitudes. Do mesmo modo também vejo, não raramente, liberais que são - pasme! - anti-ambientalistas. O que isso quer dizer? Que há liberais por aí achando (e dizendo) que poluir o planeta é legal, que sujar o rio não tem problema, que destruir florestas inteiras para construir cidades é o certo a se fazer... Enfim, liberais estúpidos vestindo a carapuça. São caricatos. Não compreendem a dinâmica das coisas e, na pobreza de seu raciocínio superficial, acreditam que defender política ambiental ou se preocupar em cuidar do meio-ambiente é "coisa de esquerdista". 

Meus caros, a jogada é outra. Socialismo não tem nada a ver com preservação ambiental. Pelo contrário! Os países que adotaram o socialismo foram quase sempre responsáveis por uma quantidade absurda de poluição, e a China está aí para provar. Do mesmo modo o Socialismo não tem nenhuma relação com defender negros contra o racismo; já está mais do que provado, e devidamente documentado, que em todos os regimes socialistas houve perseguição étnica. Você, liberal, ao se dedicar num posicionamento "anti-assistencialismo" ou "anti-ambientalista" acaba caindo na lorota do inimigo. Inclusive é importante ressaltar que preocupar-se com o meio-ambiente é, direta ou indiretamente, preocupar-se com as pessoas. Algumas ações contra "a natureza" prejudicam também ao homem. O liberalismo é a ideologia que atua em prol dos indivíduos, portanto é impensável defender uma ideia que possa prejudicar deliberadamente um grupo de pessoas.

É por isso que digo e repito: Não entrem no espantalho. Parem de agir de acordo com aquilo que favorece aos nossos adversários!

20 de março de 2015

Monopólio da Virtude - Uma análise de caso

"Discurso branquista" e "Você é branco e heterossexual, portanto não pode se pronunciar sobre esse assunto"... Estas foram duas frases que li no dia de hoje, em uma dessas discussões inúteis da internet.

Pois é. O nível da estupidez está alarmante. Eu diria que aparentemente os debates sobre racismo e homofobia foram desvirtuados para uso político, para cumprir a agenda de alguns movimentos "sociais" e partidos. Mas dizer isso seria atenuar muito a questão. Não se trata de parecer. De fato, é isto. Já não importa mais tanto assim discutir as causas do racismo e os meios para evitá-lo, tampouco existe esta preocupação com o sexismo ou com a homofobia. Não mais! O que importa, agora, é fomentar ódio de classes e criar grupos sectários semi-autoritários.

Circula nos últimos dias pela internet um vídeo sobre isto. Ele mostra integrantes de algum movimento negro desses de esquerda, com discurso de esquerda e modo operante de esquerda, que interrompeu uma aula dentro de uma universidade - aula que nada tinha a ver com o assunto - para "reivindicar um debate" sobre a questão racial. A professora, que dava aula de economia (salvo engano), respondeu apenas dizendo que a aula dela não tinha relação com o tema, o que é apenas óbvio demais para precisar ser dito. Como os manifestantes - que eu prefiro chamar de aproveitadores folgados - continuaram pressionando, houve o momento derradeiro em que um dos alunos do curso se incomodou, pedindo para que parassem de interromper a aula.

Deste ponto em diante acontece uma discussão acalorada, mas não no bom sentido. Foi apenas de histeria coletiva, ameaças, xingamentos e acusações contra o rapaz que "ousou" se manifestar contra os manifestantes. Quando o rapaz diz que se sente igual aos negros, alguns deles imediatamente dizem não serem iguais; alegam que o rapaz, por ser branco, nunca sofreu preconceito, e que por este motivo ele não é igual aos negros... Coisas como esta foram ditas e repetidas durante o restante do vídeo, enquanto uma garota se fazia de vítima gritando e literalmente oprimindo as pessoas presentes.

Não é irônico negar a igualdade entre as pessoas, ao passo em que se luta para conquistar igualdade? Afinal, estes movimentos lutam por igualdade de direitos ou não? A resposta para estas perguntas é bem simples: Isto não faz a menor diferença! Não para eles. A ideia de tais grupos nunca foi conquistar a tal igualdade ou tão bradada "justiça social". Se, por ventura, eles conquistassem isso amanhã mesmo, teriam que ir para casa deitar em posição fetal e chorar, pois isto acabaria com pretexto da existência deles. E não é isso o que querem, obviamente.

A análise deste e de outros casos, como o da citada discussão lá no início do texto, é que pautas como "igualdade racial", "respeito à diversidade" e "luta por direitos iguais" foram totalmente abandonas por estes grupos. Eles ainda usam estes termos em suas falas e escritas, mas é da boca pra fora! Já não importa mais ter igualdade ou respeito às diversidades. Importa, agora, ter uma justificativa para existir, pois enquanto existem e fingem seguir estas bandeiras, tais movimentos podem, ao mesmo tempo, auferir mais pessoas que ingenuamente são iludidas nesse discurso embusteiro. E dito isto alguns perguntariam "Pra quê?", e respondo que isso é a ponte necessária para criar grupos de militância partidária. E que partidos utilizam esses discursos da mesma forma embusteira? Justamente os partidos de esquerda, que defendem regimes responsáveis por atrocidades contra a humanidade, além de também terem sido responsáveis por perseguição aos negros e homossexuais e pela objetificação da mulher. Mas, se o que importa é ganhar votos e conseguir alcançar as tetas do Estado, que diferença faz, não é? De que importa a coerência para vencer eleições, afinal, se mentir e usar pessoas é um caminho tão mais rápido e prático?

Pare e pense: O que pode ser mais hipócrita do que uma pessoa de pele clara, classe média e sustentada pelos pais, dizer que somente negros têm direito a opinar sobre o racismo, enquanto ele próprio opina sem preencher este requisito? O fato é que isso também pouco importa. Coerência discursiva e análise lógica dos fatos não fazem parte do glossário destes movimentos, por isso não tem nenhuma relevância, para eles, que o digam faça sentido ou não. O que vale é desmoralizar o adversário no debate, usando a cor de sua pele e sua condição financeira como argumento. E isso tanto é um fato que, justamente, de onde mais se ouve deste tipo de abobrinha é da boca de homens brancos, heterossexuais e classe média. Eles se sentem tão puros, tão glorificados, que para si próprios tal fato óbvio torna-se totalmente irrelevante. Afinal de contas, eles são os donos da virtude, da moral correta, das boas regras e dos bons planos. O monopólio das boas intenções é deles, mesmo que de boas intenções exista muito pouco ou quase nada. Independente disso tudo, em sua visão eles são verdadeiros heróis sociais.

Mas, o que poderia ser feito no lugar disso para combater o racismo? Em primeiro lugar, extinguir este tipo de comportamento. Tais formas de agir estão longe de servir para um debate construtivo, pois são atitudes dignas de espetáculo circense e dos piores! Em segundo lugar, é preciso reconhecer que o racismo existe mas que ele não será erradicado deste modo. Se sua preocupação é acabar com o racismo, a via mais correta é o diálogo, através da educação da sociedade. Invadir a sala de aula, tentar humilhar as pessoas que discordam de você e gritar o tempo inteiro não ajudarão em nada para acabar com o preconceito. É provável que isso até seja usado como pretexto ainda maior pelos próprios racistas, como de fato já acontece.

O que fazer para combater este tipo de manifestação abusiva? É preciso expor a todas as pessoas o fato de que eles é que são os racistas; expor que eles é que querem fomentar o ódio de cor e de classes. É preciso deixar claro às pessoas que o real objetivo destes movimentos é puramente político e quase nada social. E por interesse político podemos entender também que são movimentos partidários, cuja real intenção é conquistar mais pessoas para eleger alguns políticos "engajados" nas causas sociais. Outra coisa importante de se expor a todos é que tais movimentos por liberdades iguais e respeito às diversidades sempre foram pautas liberais, e que a esquerda se apropriou delas nos últimos cinquenta anos apenas para ganhar mais apoio popular.

É preciso expor, também, a grande fraude argumentativa e intelectual, a falácia, na verdade, de redução e simplificação forçada do discurso, que é justamente aquilo que leva ao monopólio da virtude. Isto acontece justamente no instante exato em que o interlocutor automaticamente te acusa de ser racista, machista ou homofóbico, apenas pelo fato de você ter apontado qualquer discordância. Isso empobrece o debate, mas também serve para ele te manipular diante das massas. Ao te acusar repetidas vezes enquanto você apenas se defende ou se justifica, o canalha acaba conseguindo incutir as acusações na cabeça de quem as escuta. E é isso o que ele realmente deseja. Portanto é preciso, mais do que se defender, atacar de volta. E se possível com mais força, mais ênfase, talvez até expondo-o ao ridículo por usar de tal artifício retórico tão baixo.

O fato é que debate construtivo não se pratica desse jeito. A imposição de ideias por meio da intimidação não só invalida os argumentos como, também, é um ato totalmente imoral e patético. Este ato é típico de proto-fascistas, que sempre apelam para o ódio quando se veem diante de alguma divergência opinativa. Pessoas assim, se tivessem mais poder, provavelmente agiriam com violência só para calar o opositor. São canalhas deste tipo que temos aos montes na política. Um monte de mini-ditadores, ávidos por dar ordens e se impor aos demais. 

16 de março de 2015

Em "defesa" do Bolsa-Família...

Não, meu caro. Este texto não é para defender o programa Bolsa-Família. A ideia aqui é expor um fato para aqueles que atacam o programa, mas ao mesmo tempo não percebem que ele é a pontinha do iceberg, e que o mesmo não chega a ser sequer um problema em face das reais problemáticas políticas que enfrentamos.

O que é o Programa Bolsa-Família, na prática? É uma forma que o governo tem de comprar milhares de votos por uma mixaria. E esta é certamente a pior parte, pois a realidade é que um monte de pessoas recebe basicamente o que paga de volta (leia este artigo). É como se fosse uma "restituição do imposto de renda" para os mais pobres; afinal, eles também pagam impostos, e sendo a maioria esmagadora da população brasileira, pode-se dizer que é o trabalho deles que sustenta o país, e consequentemente sustenta também todo o sistema, incluindo os políticos corruptos.

Mas, o que dizer dos "programas assistencialistas" para mega-empresários? O que dizer sobre o corporativismo? Não seria este um mal muito maior? Muitos liberais caem nessa, alguns por inocência e outros tantos por mero oportunismo. Mas a grande verdade é que defender empresários não tem nada a ver com ser liberal. Não foi isso que os pensadores liberais defenderam! Pelo contrário. Políticas corporativistas e toda essa história de governos darem "incentivos" para grandes empresas tem muito mais ligação com a linha keynesiana. Keynes defendia isso claramente, por isso ele é sem dúvida alguma um dos economistas mais conceituados e consequentemente seguidos por políticos e empresários mundo afora. Para Keynes, bastava que o governo estimulasse a economia, e isso significava claramente injetar dinheiro em bancos e empresas como forma de "investimentos"; o resultado teórico, segundo o próprio autor, é que isso manteria a economia girando sempre, e como o governo não produz nada, ele imprime dinheiro para pagar dívidas. Essa situação toda, na prática, gera uma máfia entre políticos e empresários mais poderosos. Nesta máfia o papel do empresário é ajudar o político em suas campanhas; o papel do político é ajudar o empresário concedendo benefícios fiscais, licitações, etc.

Quais os resultados práticos desta atuação?

A desvirtuação estrutural do processo político-democrático tão defendido pela esquerda; a completa anulação da iniciativa privada livre, uma vez que os grandes empresários obtém vantagens econômicas e podem concorrer de forma desleal, tudo com o aval da lei; a inflação, devido ao aumento da emissão de moeda. Tudo isso, no fim, leva simplesmente a um único problema geral que afeta a todos os cidadãos: Desvalorização de seu trabalho

O que é pior: Uma pessoa muito pobre recebendo uma mixaria, que provavelmente é menos do que ela pagou em impostos, ou um milionário poderoso obtendo ajudinha política do partido para manter sua empresa hegemônica no mercado? Se você prefere a segunda situação, tudo bem. Você tem direito à opinião própria. Mas você não é liberal, e provavelmente não é muito inteligente se não percebe o quanto isso é prejudicial à sociedade. 

Os parágrafos à seguir foram escritos por Ivanildo Terceiro, um jovem liberal do nordeste brasileiro:

"O Partido dos Trabalhadores está há aí 12 anos no poder e nunca lançou um projetinho para acabar com a guerra às drogas. Teve mensalão para passar a lei que reestruturava a previdência (lei boa por sinal), mas não houve movimentação alguma para comprar uma bancada que passasse a legislação contra homofobia.
O negócio fica mais estranho quando a gente lembra que o grande programa social criado pelo partido foi o fracasso conhecido como "Fome Zero", que o Bolsa Família foi ideia de um técnico liberal do IPEA (google "Ricardo Paes de Barro"), e que o volume de recursos liberados via BNDES para a Friboi, Oi, Eike, etc. se expandirem internacionalmente e falirem seus concorrentes (quando não faliram itself. risos) é muito maior que o de qualquer programa social. Isso quando não temos o governo tratorando terras de indígenas e camponeses para fazer hidrelétricas."

Apenas para contextualizar, é importante frisar que Ivanildo não defende políticas de esquerda como as citadas, também não está legitimando qualquer uma das ações citadas. Ele apenas aponta a incoerência entre o discurso de esquerda e a prática de esquerda. E porque achei pertinente citar isto? Pelo simples motivo de termos, entre os liberais, pessoas que também são insensatas e defendem seu ponto de forma ineficaz, para não dizer ultrajante. Quando digo para alguns liberais mais elitistas que Milton Friedman propunha medidas assistencialistas, e que o sistema de voucher é praticamente a mesma coisa que um "ProUni", eles fazem cara de espanto e ficam sem ter o que dizer. É claro que este tipo de "liberal", no fundo, não é liberal. É apenas uma pessoa sem estudo sobre o tema, que comprou o discurso da esquerda e acabou acreditando no espantalho de que "liberais não gostam de pobres"; aí, como alguns deles têm mesmo 'nojinho'* de pobre, acharam por bem se identificar como liberais. E são estas pessoas que se dizem liberais e atacam o Bolsa-Família como se fosse o pior problema de todos, quando é provavelmente o menor deles.

Acho importante ressaltar estas diferenças, não apenas para delimitar o perímetro mas, principalmente, para aderir a algo que defendo desde sempre: Os sensatos devem rejeitar os insensatos.


*Muita gente não tem, de fato, nojo de pobres. Mas prefere não tocar neles. Se é que você me entende.