24 de dezembro de 2015

Os degraus da militância

A militância política, a meu ver, é dividida em degraus, que aqui vamos chamar de "classe", só porque soa melhor. E a ideia desse breve artigo é simplesmente explicar para você como é o funcionamento da militância e como reagir contra ela.

Imagine, por um breve instante, que você é um daqueles rapazes que pararam o Chico Buarque no Leblon. Vamos presumir que houve planejamento daquela ação e que havia alguma busca por resultados práticos (o que eu duvido). Se essa premissa for real, sabemos que o resultado alcançado foi totalmente negativo, pois no fim das contas quem saiu por vítima da história toda foi o próprio Chico e os seus - vamos dizer - "agressores" passaram por vilões. Mas, afinal de contas, que tipo de militante Chico Buarque é? Ele pode ser enfrentado da mesma maneira que você enfrentaria o Leonardo Sakamoto ou o Gregório Duvivier? E estes últimos podem ser confrontados da mesma forma que você confrontaria aqueles rapazes segurando a bandeira do partido no meio da manifestação? A resposta é não.

Pois bem, vamos às classes.

1 ª Classe: O artista com hype; o jornalista com voz em rede nacional; o escritor famoso. Todas as pessoas que estão nesse nível e são militantes políticos são, em essência, os militantes Classe 1. Como exemplo temos Chico Buarque, Boechat, José Saramago, José Padilha, Wagner Moura, Rachel Sheherazade, Joice Hasselmann, etc. Alguns desses citados não são militantes partidários, como o Chico, que chegam ao ponto de fazer campanha para o PT. Mas são militantes ideológicos, de esquerda ou de direita. A Joice, que até pouco tempo atrás escrevia para a Veja, é assumidamente de direita e sempre escreveu ou gravou vídeos dentro desse espectro. Wagner Moura é um militante de esquerda assumido, amigo de Marcelo Freixo (PSOL) e muito ligado ao partido.  E para que fique bem claro, não estou comparando moralmente a Joice com o Boechat, pois é evidente que Boechat é um canalha. A comparação aqui é em nível prático.

Esse tipo de militante é bem difícil de enfrentar. Eles têm poder financeiro, têm espaço midiático e uma legião de fãs dispostos a defendê-los de tudo. Haverá situações raras em que você, como alguém anônimo ou pouco conhecido, terá a possibilidade de enfrentá-los diretamente com alguma chance de ganhar. Entretanto, existe uma vantagem simples nessa história: quando seu oponente é gigante, derrubá-lo é uma vitória gloriosa. Se aqueles rapazes que enfrentaram Chico Buarque no Leblon tivessem escolhido hora melhor, talvez uma situação diferente, colocá-lo contra a parede poderia dar bons resultados. Mas xingá-lo e bater de frente no meio da rua, à noite, realmente não foi boa ideia. Da forma como foi feito, soou como uma birra até meio infantil, uma pegação de pé gratuita, que a esquerda não tardou a chamar de "intolerância."

2ª Classe: O artista sem hype, mas ainda assim conhecido; o colunista relativamente influente de jornais; o youtuber famoso; o ex-BBB. Nesta classe temos exemplos como Tico Santa Cruz, Pitty, Leonardo Sakamoto, Gregório Duvivier, Pablo Capilé, PC Siqueira, etc. Novamente, é bom lembrar, nem sempre um militante necessariamente trabalha claramente para um partido. Muitos não levantam uma bandeira vermelha com estrela e nem fazem campanha em época de eleição, mas são pessoas que indireta e sutilmente propagam pensamentos ideológicos capazes de atingir um público específico. Sakamoto e Duvivier são assumidamente de esquerda e não é de hoje. Mas Tico Santa Cruz ficou por longo tempo fingindo ser apenas um palpiteiro na internet, quando mais recentemente se revelou recebendo verbas através de incentivos do governo e participou há poucos dias de uma movimentação em defesa do governo de Dilma. Pablo Capilé surgiu como um mero manifestante de esquerda, e no começo nem falava em partidos. Mas no ano passado posou com Dilma Rousseff na propaganda eleitoral do segundo turno. Pitty não chegou a tanto, mas de uns tempos para cá, meio de repente, começou a emular uma postura inerente ao feminismo de esquerda, o que até certo tempo atrás não era uma coisa tão clara em suas composições e entrevistas.

Esse tipo de militante é um pouco mais fácil de enfrentar. Creio que a forma mais correta seria através da pressão mesmo. É notório o incômodo causado quando as pessoas questionam suas posturas e os obrigam a entregar o jogo. Também fica bastante claro, quando eles são pressionados a responder perguntas objetivamente, que eles não têm argumentação clara para defenderem o que dizem. E isso é importante por mostrar que há um interesse ideológico sempre maior do que o compromisso com as verdades. Todavia, julgo também importante tomar certo cuidado para não dar uma audiência imerecida a figuras dessa classe. Afinal, esse tipo de militante muitas vezes é pouco conhecido e acaba se tornando mais famoso do que era por conta das críticas em cima de seu trabalho. Escrevi sobre isso no texto "Como usar politicamente a internet".

3ª Classe: O blogueiro semi-anônimo; o youtuber pouco conhecido; o professor universitário; o colunista de jornais locais; o "artista" local, membro de algum grupo de dança ou teatro; o administrador de páginas relativamente grandes no Facebook; etc. Aqui fica um pouco mais difícil de exemplificar porque há uma questão de contextos locais. Esse tipo de militância normalmente não tem efeito nacional. Mas no seu estado, na sua cidade, com certeza há pessoas que se enquadram nessas características.

Esse é um tipo de militante que você deve enfrentar. Porque esse é o que mais diretamente coopta pessoas para o seu lado. É ele quem organizará passeatas, carreatas, mobilizações de uma maneira geral. Será dele a iniciativa para qualquer forma de protesto local ou mesmo para a organização de eventos artísticos que possam servir como trampolim ideológico. E a razão pela qual esta classe é a que mais trabalha é simples: eles conhecem as regras do jogo e precisam mostrar os melhores resultados para conseguir seu espaço com as lideranças do movimento ao qual pertencem. São eles que vão compartilhar textos do Gregório. Eles é que vão criar páginas de humor aparentemente inocentes mas com intenções ideológicas óbvias. Eles é que vão se formar como professores ou como jornalistas. São eles que virão até a sua página ou seu blog para te confrontar, pois eles precisam mostrar serviço desesperadamente e ao mesmo tempo querem atingir o máximo número de pessoas.

A Classe 3 é, na realidade, a que mais diretamente vai lidar com você. Pois muito dificilmente alguém do porte de Chico Buarque virá até a sua página pessoal tirar satisfações. Mas certamente aquele jornalista de quinta que trabalha como colunista na sua cidade virá. E ele, quando vier, tentará te derrubar publicamente para manter seu status diante de seu próprio público.

4ª Classe (os sem classe): Os MAVs e as pessoas que seguram bandeiras e entregam panfletos nas ruas. Este nível de militante é basicamente um utensílio político. Dificilmente ele toma decisões próprias. Normalmente recebe ordens diretas de algum político ou ordens indiretas dadas através dos militantes de Classe 3. O MAV, mais especialmente, é o Militante em Ambientes Virtuais. Basicamente é aquela pessoa que acredita no partido ou que está disposta a tudo por uma boquinha. O MAV não tem vergonha alguma de compartilhar a #FicaDilma ou entregar panfletinhos de campanha e adesivos para os amigos e familiares.

Com este tipo de militante, na maior parte dos casos discutir é pura perda de tempo. O militante de Classe 4 não é alguém inteligente o suficiente para mudar de opinião e normalmente está em situação de comodidade com suas crenças. Ele não vai sair da zona de conforto e muito menos sacrificar qualquer ganho, por mínimo que seja, em prol de se tornar uma pessoa mais sensata.


Conclusão

É muito importante deixar clara uma coisa: As classes de militância aqui expostas não têm absolutamente nada a ver com a ideologia propriamente. Elas ocorrem em muito maior concentração na esquerda, mas poderia ocorrer o mesmo entre liberais, conservadores, etc. E é claro que a esquerda não chegou até aí da noite para o dia. O caminho foi longo e tortuoso para que ela alcançasse esse nível de poder. Mas as classes também não têm a ver com a qualidade prática dessa militância. Se analisarmos os resultados alcançados, Chico Buarque é tão bom militante quanto Tico Santa Cruz. A diferença de classe é para o nível de influência que cada um tem. Chico é conhecido por praticamente qualquer pessoa nesse país, tal como Wagner Moura. Tico Santa Cruz é de uma categoria inferior de celebridade. Muita gente ainda nem sabe que ele existe. Pitty, apesar de ser mais famosa que o Tico, também não é uma celebridade adorada por tantas pessoas como é o caso de um Gilberto Gil. O Boechat é um dos jornalistas mais famosos do país, o Leonardo Sakamoto não chega a esse patamar. Mas ambos fazem um excelente trabalho como militantes políticos, cada um dentro do seu espaço. Esta é a distinção de classes. Por isso é válido dizer: não subestime nenhum desses militantes por sua classe.