20 de dezembro de 2015

Ignore as intenções. Atente-se aos resultados.

Li hoje um breve artigo de meu amigo Octávio Henrique, que escreve no blog Eu, Apolítico. O texto trata sobre um discurso que os anti-socialistas ou anti-comunistas em geral adotam e que é de uma inocência quase criminosa: o argumento de que o socialismo e o comunismo são utopias. Deixo claro que concordo integralmente com a abordagem dele, mas julguei seu texto um tanto superficial, por isso resolvi escrever um pouco mais.

Creio seriamente que a origem desse tipo de discurso recaia sobre a mesma ilusão de sempre, a das pessoas que tendem a considerar as intenções dos agentes envolvidos em uma ação como se estas intenções tivessem maior valor moral do que os resultados. E digo isso com base no seguinte princípio: O que é que um opositor da esquerda pensa ao afirmar, por exemplo, que o socialismo é uma utopia? Ele considera que, na realidade, o ideal socialista seria algo bom caso pudesse funcionar. Afinal, é isso que é uma utopia. E o socialismo não é uma utopia. É uma distopia!

O que esse mesmo opositor da esquerda ignora é que mesmo que o ideal socialista seja aplicado perfeitamente ao mundo real, ele ainda assim é abominável e criminoso contra a liberdade, até mesmo contra a humanidade. E ele também ignora, obviamente, que as experiências socialistas feitas na União Soviética, na China ou em Cuba, foram na realidade muito bem sucedidas. Os revolucionários conquistaram o poder e implantaram bem direitinho os ideais socialistas. O que ocorreu em Cuba nos últimos sessenta anos foi socialismo. O que ocorreu na URSS foi socialismo. O que aconteceu na China durante algumas décadas foi socialismo. Se não fosse, porque outra razão veríamos os socialistas de hoje em dia defendendo a experiência cubana, usando camisas de Che Guevara e homenageando Fidel Castro? Qual motivo os levaria a enaltecer as figuras de Lênin e Stalin? Por qual razão ainda hoje defenderiam o governo de Mao? Se estes exemplos citados fossem casos de não-socialismo, então os socialistas criticariam os responsáveis e assumiriam uma postura de oposição a eles. Mas não é isso o que acontece. Ou é?

Resolver este pequeno problema é bem simples. Basta que parem de considerar o que acham que é a intenção e considerem as ações práticas e seus resultados diretos ou indiretos. Ninguém tem como saber quais são as reais intenções das outras pessoas. Nós podemos desconfiar, podemos ter algum palpite a respeito. Mas tudo o que sabemos de fato é aquilo que as pessoas nos mostram. Então porque se importar com o discurso se podemos analisar as ações? O que uma pessoa diz sobre si mesma é irrelevante diante do que ela faz a partir de si mesma. As ações que uma pessoa exerce mostram quem ela é. Os resultados alcançados e as reações dela diante destes resultados é que vão mostrar suas reais intenções.

Dentro desse contexto, julgo muito conveniente que a oposição pare de subestimar a esquerda. Não a julguem como um grupo de pessoas ingênuas ou como se fossem todos membros de uma manada. É verdade que alguns realmente são. Mas você não tem como saber com certeza quais deles sabem e quais não sabem o que estão fazendo e o que querem. Por isso, trate todos como adversários ardilosos. Veja-os como se fossem pessoas cientes de suas ações. Pois é muito mais inteligente superestimar um adversário e depois se ver enganado do que subestimá-lo e ser enganado por ele. Cometer este erro é fruto de uma soberba intelectual que levará você ao abismo. Os erros de julgamento são inevitáveis. Mas é preferível que você julgue como forte quem é fraco do que o seu contrário. Pois se você reconhece a força e a sagacidade de um oponente então você se prepara para enfrentá-lo. Mas, por outro lado, se você o subestima, julgando-o mais fraco do que você ou tratando-o como ignorante, é inevitável que ele use sua arrogância contra você mesmo.

A dica é clara: superestime a ardileza do adversário. Conheça-o. Deixe que ele se revele nas ações e pare de bancar o gênio intelectual que tudo sabe e que a todos conhece. Não odeie o inimigo. Respeite-o e faça com que ele odeie você. O ódio dele o revelará.