12 de novembro de 2015

Como usar politicamente a internet (parte 1)

Uma coisa que vejo acontecer com relativa frequência é o "rage-share", que na prática é o compartilhamento de uma postagem ou link seguida por uma furiosa crítica - ou, às vezes, por uma crítica não furiosa. Acontece assim: alguém escreve um texto que eu não gosto ou que considero errado, aí eu compartilho este texto em minha linha do tempo no Facebook ou, de repente, escrevo outro texto em resposta aqui no blog, em ambos os casos tecendo críticas ao conteúdo compartilhado. A princípio não há nada de errado nisso. Mas politicamente, dependendo do caso, pode ser uma ação ruim se levarmos em conta os resultados alcançados.

Essa coisa toda é bem subjetiva, muitas vezes não há como medir ou ter certeza dos resultados da ação. Entretanto, há uma "equação" básica para medir se vale a pena ou não praticar o rage-share.

- Levando em conta quem ou o quê você pretende criticar, e imaginando que o resultado que você almeja seja algo politicamente proveitoso, considere as seguintes informações:

1) A pessoa ou entidade que criou ou disseminou o conteúdo que você quer criticar é mais ou menos conhecida politicamente do que você?

2) Se ela for mais ou menos conhecida que você, qual a diferença desta fama?

3) Se a diferença for gritante, quem é mais famoso: você ou ela?

4) A pessoa, caso seja mais famosa que você, possui relevância política?

Estas quatro perguntas devem ser respondidas antes de você compartilhar aquele post com alguma bobagem dita pelo Tico Santa Cruz. Afinal, Tico é relativamente famoso, provavelmente mais do que você ou eu. Mas qual é a relevância política dele? Aliás, qual a relevância dele em qualquer área? Nenhuma. Ele é apenas uma sub-celebridade famosa por se comportar de forma imbecil. O nível de relevância dele é o mesmo do Theo Becker ou, digamos, do PC Siqueira. Muita gente conhece, mas muitos também nem fazem ideia de quem seja e poucos se lembrariam deles pelo nome. Por isso, a quarta pergunta é provavelmente a mais importante da lista. Se alguém é politicamente irrelevante, ainda que seja famoso, dificilmente vale a pena perder tempo criticando. A insignificância não merece destaque. Mas todas as perguntas criam uma espécie de fórmula simples que você pode usar, a partir de hoje, sempre que pensar em dar um rage-share.

Se o alvo possui maior fama que você, mas possui relevância política baixa ou nula, é mais apropriado desprezá-lo, exceto quando houver a impossibilidade do desprezo. Se, por outro lado, o alvo é mais famoso que você e possui relevância política, então criticá-lo é totalmente válido. Quando o alvo possui menos fama que você, ainda que seja politicamente relevante, na maioria das vezes o fato de você criticá-lo só o tornará ainda mais conhecido. E ainda há outras variáveis a se considerar. Eu, por exemplo, evito dar qualquer tipo de destaque para certas figuras. Mesmo quando politicamente relevantes, alguns não merecem ter seus nomes citados para que não consigam sequer um like a mais em seus perfis ou páginas. Um exemplo claro disso é o colunista Pablo Villaça, que se aventura a fazer críticas sobre temas políticos. Ele é relativamente conhecido, mas não passa de um papagaio tolo. Dificilmente cito seu nome, mesmo que eu esteja de fato criticando algo que ele disse ou fez. E jamais compartilharia dele qualquer postagem, ainda que fosse para criticá-lo, pelo simples fato de que não quero dar a ele nenhum seguidor a mais. Em muitos casos é mais apropriado atacar o comportamento, as falas, os discursos e as ideias em si do que pessoas específicas. Dar notoriedade a alguém que não presta ou com quem não concordamos, politicamente falando, é um tiro no pé.

Agora, no caso em que você é uma pessoa muito conhecida e de relevância no meio político, atacar outra pessoa menos influente que você é uma atitude contraproducente. Quer um exemplo? Bene Barbosa, ativista pró-armas do MVB, é conhecido há anos por lutar contra o desarmamento. Bene é referência no assunto em todo o país e é alguém respeitado nesse meio. Além disso, é uma pessoa com muitos contatos de peso dentro da política e já apareceu incontáveis vezes na mídia de massa (programas de TV de grandes emissoras). Recentemente, em virtude de uns comentários feitos, Bene foi à página do já citado Pablo Villaça para discutir com ele por lá e chamá-lo para um debate, o qual Pablo obviamente recusou. Tempos antes ele havia feito o mesmo com Tico Santa Cruz, outra figura sem importância alguma. Bene Barbosa é muito maior e mais forte do que esses indivíduos. Não há vantagem ou ganho algum em uma vitória sobre eles - e Bene obviamente os venceria em qualquer discussão sobre o tema. Por outro lado, através do Bene, certamente muitas pessoas acabaram conhecendo os dois indivíduos que antes eram menos conhecidos. Definitivamente, não vale a pena.

Mas há outro comportamento comum na internet que é até pior que o rage-share. Trata-se daquelas pessoas que voluntariamente acessam algum conteúdo que não gostam ou discordam, e já cientes disso previamente, para tecer críticas ou dar deslikesInfelizmente, amigo, o Youtube não monetiza os vídeos com base na média de curtidas ou "descurtidas". Ele também não considera os comentários positivos ou negativos feitos lá. A única coisa usada para calcular a monetização é o acesso. Logo, ao entrar no link de um vídeo, digamos, do Latino, com a única intenção de xingá-lo e dar um voto negativo, na prática é o mesmo que dar dinheiro para ele. É assim que youtubers ganham a vida.

É evidente que algumas vezes seja necessário criticar certas coisas, mas é altamente recomendável que se evite fazer isso quando o seu alvo é alguém que ganha a vida com polêmicas na internet. Youtubers são prostitutas do like. Até mesmo do "like negativo". Quando PC Siqueira faz um vídeo estúpido falando qualquer bobagem sobre política, ele sabe exatamente o que precisa para chamar atenção: basta dizer algumas frases "radicais" ou "chocantes", fazer provocações a algum grupo político e, é claro, dar um nome chamativo para o vídeo. E você, que entra lá apenas para criticá-lo, só está o ajudando a se dar bem e atingir sua verdadeira meta, que não tem nada a ver com produzir bom conteúdo, e sim ganhar acessos.

No caso do Youtube nós falamos de fama e monetização. Mas em outras mídias sociais, mesmo não havendo a monetização, ainda assim existe o ganho moral. Logo, se você entra na página do Latino no Facebook para criticá-lo, por exemplo, na realidade você só está dando visibilidade para ele. Claro que esse é um problema pequeno em se tratando do Latino, uma vez que ele já é nacionalmente conhecido há bastante tempo. Só que transferindo esta ação para outros tipos de pessoas, o resultado é amargo.

Um exemplo que posso mencionar, por experiência própria, foi quando criei uma página no Facebook, anos atrás, e comecei a "atacar" outra página maior. O dono da outra página provavelmente não pensou muito bem nisso e, em dado momento, publicou críticas à minha página em sua página, que era cem vezes mais seguida do que a minha. O resultado? Em meia hora, consegui tantos seguidores que ele logo depois deletou a postagem, obviamente por ter tardiamente percebido o erro. Além disso, se você entra em uma página e tece comentários lá, o Facebook faz com que isso apareça para os seus contatos. Muitas vezes os seus contatos, por inocência ou distração, nem perceberão o que você realmente comentou. Por vezes eles irão direto para o like ou até mesmo inventam de seguir a página.

Por isso é muito mais vantajoso deixar para fazer esse tipo de coisa quando for politicamente conveniente. A não ser que, é claro, você não se importe em ajudar Youtubers leigos a se tornarem figuras politicamente importantes. Aí já não é mais problema meu.