28 de outubro de 2015

Por que a sexualidade - dos outros - virou alvo?

Vivemos em um mundo no qual sempre existiram homossexuais, assumidos ou não. Vários deles ocuparam cargos importantes na política, fizeram sucesso na arte, frequentaram ambientes vistos por todos e participaram de atividades comuns a todos os outros cidadãos. É verdade que sempre houve certo grau de preconceito, piadinhas de mau gosto e em alguns casos até perseguição. Infelizmente, isso parece ser inevitável. Mas, convenhamos, a nível social os homossexuais tiveram seus espaços garantidos em diversas instâncias. E posso provar.

Ney Matogrosso, um dos maiores cantores do Brasil, é gay assumido há muito tempo. Ao que tudo indica, dado ao fato de ser alguém reconhecido e respeitado, ser um homossexual nunca foi impedimento para que admitissem o seu imenso talento. Até mesmo as suas performances de palco efeminadas não parecem incomodar.Outra figura, extremamente talentosa e já falecida, a cantora e intérprete Cássia Eller foi lésbica durante toda sua vida, foi casada com outra mulher e até mesmo teve um filho de uma relação promíscua com um homem, um "transa de uma só noite." Este filho foi criado por ela e sua esposa, e ele vai muito bem mesmo após a morte de uma das mães. É verdade que Cássia teve problemas com outras coisas, como o uso de drogas e a irresponsabilidade financeira, mas o fato de ser lésbica nunca foi alvo de críticas. Aparentemente ninguém se incomodava com isso também.

E Cauby Peixoto, Zélia Duncan ou Vera Verão (personagem do transformista Jorge Lafond), entre tantos que por anos fizeram sucesso sendo, assumidamente, aquilo que são? Por que as pessoas não se incomodavam antes? Aparentemente ninguém enchia o saco do Lafond, mesmo ele agindo de modo espalhafatoso e vestido de mulher. E os beijos homo afetivos na televisão também não são nenhuma novidade. Um filme muito antigo chamado O Beijo no Asfalto mostrava uma cena de beijo entre Tarcísio Meira e Ney Latorraca. Em 1981 este filme não chocou tanta gente assim. Ironicamente, a história original foi escrita justamente por um "reaça", o já conhecido Nelson Rodrigues.

Seja como for, o fato é que a sexualidade das pessoas não era antes um assunto tão primário. Existiam homossexuais e transexuais aos montes, como agora, e eles não sofriam a mesma perseguição que sofrem hoje. E se sofriam, sempre havia alguém para defendê-los. Basta nos lembrarmos do atual deputado federal Jean Wyllys e como foi que ele ficou conhecido pelo país inteiro. Alguém há de negar que a população brasileira defendeu Jean de discriminação durante sua participação no Big Brother, em 2005? Quando uma panelinha de marmanjos resolveu persegui-lo para expulsá-lo do jogo, a resposta do povo foi eliminá-los, um a um, levando o "líder" do bando à maior reprovação da história do programa. Rogério, que articulou o plano contra Jean Wyllys, recebeu 95% dos votos. Por outro lado, as pessoas que estavam ao lado de Jean durante o programa chegaram até o fim e ele próprio foi o campeão. Isso tudo foi há dez anos. O que aconteceu de lá para cá? Ao que parece, regredimos!


É difícil dizer qual lado está destruindo a pauta. Hoje, quando as pessoas discutem sobre política dentro da dicotomia esquerda contra a direita, não se vê mais questões econômicas, não se fala mais em mudanças práticas de um sistema para o outro, tampouco se vê debates a respeito de violência urbana e como resolvê-la ou da discriminação em si, seja ela contra negros, gays, mulheres ou o que quer que seja. Aparentemente, ser gay ou transexual pinta um alvo e coloca sobre as pessoas nesta situação todos os holofotes, e isso parte tanto daqueles que ousam falar em nome de toda a "comunidade LGBT" quanto daqueles que, por razões semelhantes, ousam classificar todos os gays do mundo como militantes de uma esquerda radical e irracional que quer acabar com a "família cristã."

Da noite para o dia, a sociedade brasileira parece ter ficado mais... sensível... moralmente sensível diante de beijos e cenas de nudez. Quem tenha nascido depois do ano 2000 pode até acreditar que sejamos um povo comportado, sem nem sonhar que pouco mais de quinze anos atrás tínhamos programas na TV aberta cuja finalidade única era mostrar homens e mulheres em simulação de sexo com poucas vestes. E o que dizer dos programas de domingo à tarde, que mostravam até crianças de biquíni dançando músicas de duplo sentido? Os novos conservadores brasileiros dizem que o problema é "o gayzismo", o funk, a Rede Globo, e que a sociedade brasileira está se degradando... Mas não é verdade. Sempre fomos moralmente perturbados. E estamos, isto sim, nos tornando cada dia mais sensíveis a estas supostas degradações. O que é um beijo entre dois homens na novela das 21 horas se compararmos com o programa da Xuxa, aquela apresentação da banda Gillete cantando Short dick man? E a Banheira do Gugu, por acaso, não era um pouco mais apelativa do que um beijo na boca?

A sexualidade alheia parece, agora, ser um tema de primeira importância. E o maior problema é que boa parte daqueles que dizem defender a "comunidade LGBT", na prática, parecem mais preocupados em usar os homossexuais e transexuais politicamente, pois é isso o que acabam fazendo. Em vez de atuarem de modo a mostrar para as pessoas que ser homossexual, transexual, bissexual ou qualquer coisa semelhante é natural e comum, e que não há nada que possamos ou devamos fazer para evitar, diversos grupos acabam por promover ainda mais uma guerrinha infantil do "nós contra eles", como se houvesse uma guerra entre heterossexuais e homossexuais, quando a verdade não é esta. A intolerância ocorre por parte de grupos minoritários que têm algum poder, e são estes grupos que acabam promovendo ainda mais a discriminação. Quando Marco Feliciano diz que trata "como se fossem pessoas normais", ele naturalmente assume que enxerga a condição sexual alheia como algo "anormal", e tudo aquilo que se considera anormal é naturalmente discriminado.

Felizmente, vejo que muitos liberais têm acordado para a relevância desta situação. É um fato que a intolerância com estes grupos tenha crescido bastante, e é também um fato de que a culpa por isso é tanto dos extremistas da direita quanto da esquerda, porque ambos os lados estão mais preocupados em utilizar politicamente o assunto do que em promover melhores condições de convivência. O preconceito e a discriminação inevitavelmente existem e provavelmente sempre existirão. Mas não precisamos fomentá-los ainda mais. O correto, para quem se opõe aos grupos de esquerda que se dizem porta-vozes dos gays, é apontar-lhes o caráter de oportunistas políticos e expor este fato ao máximo, sem confundir isso com atacar todos os gays do mundo. O mesmo vale para outros temas semelhantes.