26 de outubro de 2015

O ENEM para os liberais...

Questões do ENEM; resultados do ENEM; atrasos do ENEM... Esses foram os temas do fim de semana. Tudo bem. Nada de anormal nisso.

Muitos se escandalizaram com a questão sobre o trecho do texto da Simone de Beauvoir. Pois bem. A autora é tão indefensável quanto uma bola no ângulo, daquelas que nenhum goleiro consegue pegar. Mas esta não foi, nem de longe, a questão mais doutrinária ali presente e ela sequer tinha a ver, naquele contexto, com questões de ideologia de gênero. Contudo não vou entrar nos detalhes disso porque, convenhamos, meu trabalho não é ficar defendendo socialistas. A esquerda que o faça. O ponto é que houve muito rebuliço entorno de coisas menos relevantes.

Este texto, porém, veio para abordar a questão a respeito da violência contra a mulher na redação do ENEM, algo que foi duramente criticado como sendo diretamente doutrinário. Vi muitos liberais, mais sensatos, se dando ao trabalho de explicar a ideia toda e que o tema não necessariamente precisaria ser abordado pelo prisma dos movimentos sociais, o que é verdade. Só que essa abordagem é muito complexa e ela ignora, também, o contexto político no qual estamos agora, além de desprezar o entendimento da semiótica e de como ela afeta todas as reações que as pessoas têm diante dos fatos.

O que levou tantas pessoas a automaticamente associarem o simples tema da violência contra a mulher com uma doutrinação de esquerda? Primeiro, seus alinhamentos ideológicos, é claro. Uma pessoa completamente alheia a ideologias políticas (sim, isso existe) pode ter visto o tema e tê-lo tratado como apenas um assunto comum, de forma totalmente neutra. O que faz com que exista a associação entre uma ideia e uma ideologia é, justamente, o nosso posicionamento ideológico, independente de este posicionamento ser oposto ou não à ideia exposta. Por exemplo: se eu disser que houve uma manifestação "em prol da paz" e do desarmamento, tanto conservadores quanto liberais ou progressistas em geral irão associar este fato com ideologias que propagam o desarmamento. Esta primeira impressão é algo inevitável. E ela não é um problema por si, pois é importante para o desenvolvimento intelectual que tenhamos capacidade de discriminar e discernir corretamente as coisas. Todavia, uma pessoa intelectualmente disposta deve conseguir ou pelo menos tentar analisar, posteriormente a esta primeira impressão, os fatos por si só, isoladamente, de modo a chegar numa interpretação final mais correta do que aquela primeira impressão causada.

Por que, então, isso não aconteceu com a redação do ENEM? Aí é que entram outras análises que a semiótica pode ajudar a fazer. Por exemplo: o que gera indisposição de análise racional por parte dos indivíduos? Geralmente isso ocorre devido às suas próprias predisposições em serem mais... preguiçosos. Mas, outra razão para isso pode muito bem ser o fato de existir, em alguns temas, uma certa saturação conceitual. E isso ocorre muito quando tratamos de política. Um caso clássico que permeia grande parte da humanidade é a aceitação natural de que "todo político é corrupto" ou, pelo menos, corrupto em potencial. Essa ideia é batida, quase todos já a aceitam porque: 1) corrupção na política é algo mais comum do que em outras áreas e 2) a corrupção política é aquela que vive sendo noticiada, dia a dia, e isso naturalmente cansa os ouvidos e a mente. Com o tempo fica mais fácil aceitar a premissa inicial sem contestar muito os fatos. Por isso, se alguém acusa um político de ser corrupto, com exceção dos seus próprios militantes e correligionários é muito raro alguém se preocupar em defendê-lo, mesmo que a acusação em si seja desprovida de evidências. A premissa (ou impressão) de que políticos são essencialmente corruptos já está aceita na sociedade. A maior parte das pessoas nem se importa mais em questionar isso.


Exatamente o mesmo processo ocorre com outros temas relacionados à política. E aqui podemos citar várias coisas. Por exemplo: se alguém defende a ilegalidade do aborto, naturalmente isso fica associado a imagem de um pensamento conservador. Já quando alguém defende a liberação das drogas, isso quase sempre é associado com ideologias de esquerda. O direito ao porte de arma irrestrito é normalmente ligado às ideias de direita, liberais ou conservadoras, mas principalmente aos ideais libertários. E por aí vai. Com o feminismo não é diferente. Embora o movimento tenha sido inicialmente liberal, com o tempo ele se distanciou dos ideais liberais e começou a ser tomado por ideologias pró-Estado. A nova esquerda avançou politicamente enquanto liberais ficaram para trás por um longo tempo, o bastante para que diversas pautas boas fossem dominadas pela esquerda. Criou-se, a partir disso, um monopólio de virtudes. Então é bastante natural relacionar, a partir de uma impressão precipitada, qualquer termo que seja comum nestes grupos diretamente com a ideologia que defendem. Foi exatamente este o fenômeno que ocorreu com a redação do ENEM. Bastou falarem da violência contra as mulheres e pronto, todos imediatamente ligaram o tema às ideologias feministas de esquerda. É um erro? Sim. Não pelo fato de se tirar esta primeira impressão, mas pelo fato de continuar com esta impressão sem analisar devidamente os fatos.

A redação do ENEM poderia ser abordada por diversas perspectivas, dentre elas a visão liberal também. O que impediu tanta gente de entender isso? A saturação conceitual, que ao longo do tempo criou esta associação imediata tão fortemente aceita que já quase não é mais questionada. O problema em perpetuar este tipo de visão limitada, além de ser algo estúpido, é que também favorece e muito a esquerda e o monopólio da virtude que ela realmente deseja ter. Se você naturalmente associa o tema da violência doméstica contra mulher ao feminismo de esquerda, isso significa que a esquerda está fazendo seu dever de casa direitinho. O que eles querem é exatamente isso, que as melhores pautas, as mais justas e importantes, sejam justamente associadas aos movimentos sociais de esquerda, porque no longo prazo isso traz para eles maior credibilidade entre aquelas pessoas que realmente se sentem excluídas ou discriminadas na sociedade.

É certo que a violência contra homens também seja importante, e isso é indiscutível. Mas se o tema em questão é a violência doméstica contra mulher, naturalmente sabe-se que são casos distintos de violência, com motivações diferentes e explicações diferentes. Não dá para tratar coisas diferentes como se fossem iguais, embora a importância de ambos seja a mesma.

Aos liberais que já entenderam isso tudo o que disse aqui, o que sugiro é que tentem bolar meios de expor isso de forma mais eficiente, de modo que não pareça estarem defendendo o feminismo de  esquerda. O termo 'feminismo' está fortemente associado à esquerda nos dias de hoje, e essa desassociação poderá vir com o tempo. Não adianta forçar o processo, porque ele não ocorre com base na força, mas no tempo. Deve-se seguir o curso natural para esse tipo de coisa.