7 de setembro de 2015

A praxeologia contra o purismo irracional

Purismo irracional é todo aquele comportamento que ignora a busca por resultados melhores em prol de manter intacta a doutrina que se segue. Um purista irracional age como um religioso fanático. Ele não faz concessões, não abre mão de nada, nem mesmo por questões que lhe seriam estratégicas. Ele arrisca perder tudo apenas para não ceder a uma perda menor. Trazendo isto para o contexto liberal, o purista é aquele indivíduo que definitivamente comprou uma "cartilha" de princípios éticos dos quais não pretende se livrar jamais. E em uma situação real, onde nada é perfeito e tudo tende ao caos, o purista libertário irracional acaba por não entender como positivas as mudanças que evidentemente lhe são positivas ou menos negativas. Tratemos disso logo depois.

A maioria das pessoas, sobretudo pessoas racionais ou, pelo menos, pessoas não completamente apaixonadas e fanáticas por alguma coisa, costuma agir de modo a melhorar suas condições e alcançar uma situação de maior conforto em relação à sua situação anterior. Se hoje um trabalhador recebe apenas R$ 1.200,00 por mês e esta situação lhe é suficientemente agradável, a tendência é que ele se conforme com isso e não busque melhorar. Mas, se esta situação lhe for desconfortável, o natural é que ele faça justamente o oposto, buscando mudar a condição para um grau desejado ou, pelo menos, mais aceitável em relação ao anterior. Assim compreende-se a atividade humana sob o viés da praxeologia, teoria desenvolvida pelo teórico liberal Ludwig von Mises.

Deste ponto de vista, o purismo irracional é anti-praxeológico, justamente por isso é irracional. Um libertário purista quer o fim do Estado e ele quer isso agora. Tudo bem. Eu também quero. Mas o ato de querer é um desejo, e os meios para se alcançar este desejo, ou seja, os mecanismos para se chegar ao resultado esperado, precisam seguir algum tipo de ação que leve em consideração o processo e... o resultado. Ter menos Estado é melhor do que ter mais Estado. Mais liberdade é melhor do que menos liberdade. Logo, é inegável que uma conquista, ainda que pequena, desde que nos leve a uma situação melhor em comparação com a situação anterior, é totalmente aceitável e até desejável. Se alguém chega ao ponto de não perceber que vencer uma batalha ainda é melhor do que perder todas, então esta pessoa atingiu um nível de irracionalidade que já não faz mas sentido algum.

Entenda: Os puristas não estão moralmente errados. O Estado é ilegítimo, sim. E ele é ilegítimo em qualquer aspecto. O problema em seguir essa vertente do purismo que ignora a razão e o bom senso é que os resultados alcançados são e serão sempre nulos. O mundo tem puristas deste tipo desde sempre. Mas desafio qualquer um a mostrar quais foram os resultados, quais as conquistas atingidas, pois tenho absoluta certeza de que o número seja próximo de zero, talvez até negativo, justamente porque este purismo é tão irracional que serve como munição política na mão daqueles que destoam desta ideologia. A falta de razão vira motivo de chacota.

A mentalidade estatista e anti-capitalista não será vencida com esse tipo de combate. Uma batalha, para ser vencida, precisa de força mas também precisa de razão, de estratégia e de um ponto de partida. Ninguém vence a guerra em um só dia. Por isso é uma estupidez sem tamanho apontar as armas para quem está do mesmo lado, enquanto é muito mais lógico e até conveniente usufruir das pessoas que atuam em seu favor e concentrar forças nos adversários de verdade, que em nosso caso são os estatólatras. 

Seguindo uma mentalidade praxeológica, mais racional, portanto, o futuro tende a ser melhor do que o presente. Talvez, com um pouco de empenho e sorte, cheguemos a ver um mundo em que os debates e toda a guerra política se concentrem entre conservadores, liberais e libertários, com a completa extinção da esquerda jurássica e do nacionalismo tupiniquim. E se esse dia chegar, então o purismo terá seu espaço para diminuir ainda mais o Estado e talvez, quem sabe, fazê-lo sumir de uma vez por todas. Esta é a minha melhor visão otimista para o futuro, mas é com muito esforço que a faço, pois realmente acredito que o mundo tenda apenas a piorar.