2 de agosto de 2015

Por que desconfiar das "boas intenções" nesta aproximação entre PSOL e liberalismo?

"Socialismo e Liberdade" estão no nome do partido e não é por acaso. Essa mistura absurdamente contraditória de ideias tão opostas em essência não é fruto de ignorância ideológica, tampouco de desconhecimento histórico. É, como tudo na política, mais uma boa estratégia.

Perdi a conta de quantos socialistas de carteirinha, típicos eleitores do PSOL, já me disseram que são "libertários". Isso não é raro de encontrar. Assim como não é raro encontrar "anarquistas" pedindo por passe-livre, numa demonstração de total incoerência na qual lutam contra o Estado exigindo que este lhes ofereça um serviço pago compulsoriamente através de impostos. E a verdade é que essa militância realmente acredita lutar por liberdade. Seus mestres, aqueles que realmente controlam a coisa toda, obviamente não acreditam tanto nisso, mas fingem bem o bastante para parecerem convincentes e, politicamente, é só isso que importa.

Li o texto do tal Edilson Silva no Mercado Popular e não me surpreendi. Nem mesmo me convenci. O texto é claramente um engodo. Na parte em que ele defende o Uber, bem no fim do artigo, pode-se dizer que há coerência. Entretanto, o restante da matéria é um misto de encenação teatral na qual supostamente elogia Mises com uma radical - porém discreta - defesa do pensamento marxista. Há pelo menos quatro parágrafos dedicados a nos convencer de que Lenin foi uma pessoa bacana e civilizada, enquanto Stalin é que teria sido o verdadeiro carrasco, responsável pela deturpação da revolução socialista. Ora! Nada mais falso e clichê, não é? Qualquer um que esteja nessa há algum tempo já se cansou de ouvir essa conversa. Luciana Genro disse isso no programa do Danilo Gentili, e antes dela milhares de socialistas já haviam dito o mesmo.

Em outras passagens ele faz misturas conceituais que realmente me deixaram em dúvida se foram intencionais ou não, como na parte em que ele se refere a Keynes como um meio termo entre Mises e Marx. Ironicamente, esta parte é contrária ao que o título do texto propagandeia. Pois, se tem algo de convergente entre Karl Marx e Ludwig von Mises, trata-se justamente de suas duras críticas a regimes corporativistas e a relação libidinosa entre empresas e governo. Por alguma razão que desconheço, nesta parte ele tece elogios a Keynes e acredita - ou finge - que este era um derivado das teorias marxistas e miseanas. Aparentemente esta confusão se deve ao seu desejo oculto, que é comum a todo socialista, de firmar parceria entre Estado e empresários, tal como o ex-presidente Lula fez até em excesso.

No mesmo texto, Edilson também tenta de um modo discreto elogiar o "método científico" de Marx, falando até em materialismo dialético como algo realmente válido, embora não passe de uma tremenda balela. Enquanto isso, seus "elogios" a Mises são meramente superficiais e até irrelevantes. Eles dão a impressão de estarem no texto apenas para chamar atenção ao nome do economista, não para realmente reconhecer suas virtudes.

Claro que nada disso é gratuito. Acredito que seja claro para muita gente o que penso, mas é importante dizer assim mesmo: Este artigo nada mais é do que outra daquelas costumeiras tentativas de confundir os liberais ainda indecisos, ou aqueles indivíduos que ainda não se decidiram sobre um lado a seguir. E esse tipo de coisa funciona mesmo. Pois ao mesmo tempo em que uma figura do PSOL se apresenta como alguém ponderado, sensato e razoável, ele ajuda a ocultar o radicalismo xiita que o partido carrega por natureza. Tanto é verdade que, após a publicação deste artigo no Mercado Popular, a página do deputado ganhou algumas centenas de curtidas. Provavelmente ganhará alguns milhares de likes ainda pelos próximos dias, enquanto o assunto repercutir.

Pode parecer exagero desconfiar tanto assim. Mas não é. A esquerda joga desta forma. E a new-left brasileira é muito hábil na arte da encenação. Creio que o Mercado Popular tenha publicado isso sem segundas intenções. Provavelmente foi só para dar espaço ao deputado - e obviamente ganhar curtidas e acessos no site, visto que se trata de figura conhecida. Mas das intenções do deputado em si sou obrigado a desconfiar e levantar suspeitas. E para saber se tenho razão ou não, só aguardando para ver os próximos movimentos do tabuleiro.