18 de julho de 2015

Guerra Ideológica - A importância das palavras - parte 1

Primeiro, três verdades fundamentais que irão pautar esta série de artigos: 1) Existe uma guerra ideológica em andamento há, pelo menos, vinte* anos; 2) Nós, os liberais, estamos perdendo esta guerra - mas recentemente tivemos um levante e; 3) Temos que aprender com nossos oponentes como é que se joga o jogo.

Pois bem. Comecemos por determinar o que é uma Guerra Ideológica.


Trata-se de uma constante batalha, quase sempre invisível ou pouco perceptível, em que se destrói conceitos ou aniquila-se parcialmente sua lógica. Uma ideologia nada mais é que um pequeno conjunto de ideias, com base em algum tipo de doutrina ou filosofia, através da qual exprimimos aquilo que pensamos de um modo mais organizado ou, talvez, limitado. Em vez de explicar para alguém que você é o tipo de pessoa que vai ao cinema frequentemente e lê todas as críticas feitas sobre a maioria dos filmes, basta você se definir como cinéfilo, e logo todos entenderão. Mas aqui falamos mais especificamente de ideologias políticas, que se delimitam através de conceitos mutáveis - não necessariamente relativistas. Um conceito válido pode passar por mudanças sem perder sua validade, desde que estas mudanças sejam pautadas em alguma lógica, com base filosófica e algum sentido moral. A relativização de conceitos, porém, não serve a ninguém senão aos que desejam desvirtuar a ideologia ou a filosofia em questão. E, por desvirtuação, falo literalmente de "tirar a virtude de".

Entretanto, se a desvirtuação conceitual é feita individualmente, ela pode ser considerada um mero acidente. O acidente nada mais é do que aquilo que foge da regra; uma exceção não desejada. Se, por outro lado, a desvirtuação é sistemática e constante, e se ela é feita de modo grupal, torna-se não um mero acidente, mas a regra em si. E é a partir deste instante, em que a desvirtuação ora individual se torna sistemática e grupal, que passa a existir uma Guerra Ideológica. E se o assunto é política, não se engane: é tudo feito de maneira intencional e muito bem planejada.

A importância de tirar a virtude de algo é fazer este algo apodrecer gradativamente. É uma forma de corroer, de dentro para fora, todo o conjunto da obra. Estas táticas de subversão foram criadas há muito tempo. Mais recentemente na história dos homens tivemos Maquiavel, que tratou de explicar de modo mais ou menos claro como realmente funcionava a vida na côrte. Todavia, é provável que nenhum pensador jamais tenha chegado aos pés de Antonio Gramsci no que diz respeito a este assunto. Gramsci que, a propósito, é notoriamente o ideólogo mais importante do socialismo moderno, foi quem desenvolveu mecanismos sistemáticos de subversão e, em consequência disso, criou métodos claros e bem fundamentos para desvirtuar conceitualmente as ideologias e filosofias adversárias. A esquerda, que um século atrás só sabia pegar em armas, matar pessoas e destruir tudo o que tocava, através dos ensinamentos deste pensador passou a se tornar cada vez mais estratégica e metódica. Os resultados disso são bem claros para quem acompanha a política: após o declínio do socialismo no século XX, o fracasso da URSS e a queda do muro, e mesmo após decretarem "O fim da história", os socialistas se reorganizaram, deram a volta por cima e, pouco mais de vinte anos depois estão de volta no controle da situação. Se isso não significa que saibam jogar bem este jogo, não sei o que mais poderia ser.

Esta primeira parte, portanto, vai abordar um pequeno aspecto da Guerra Ideológica que é fundamental: A importância das palavras. Mas não é simplesmente das palavras, é dos conceitos filosóficos, éticos e morais de uma civilização. Abaixo cito alguns conceitos que foram fragilizados por esta guerra:
- Fraternidade
- Liberdade
- Democracia
- Sociedade
- Povo
- História
- Ciência
- Fato
- Verdade
- Golpe
- Ditadura

Estas onze palavras, que são na realidade conceitos abstratos e bastante complexos, sofreram fragilizações e desvirtuações sistemáticas ao longo dos últimos vinte anos. Você duvida? Pergunte a estudantes universitários o que é um "fato" e você verá que boa parte deles definirá o termo de acordo com aquilo que lhes convém. O mesmo vale para quase todos os outros. A relativização conceitual se tornou uma arma, e esta arma é usada contra todos aqueles que realmente prezam pela lógica e pela razão. Até mesmo os termos "lógica" e "razão" já não parecem tão claros hoje quanto foram um dia. Mas, atenha-se a três ou quatro das onze palavras que coloquei acima.

- Democracia.

Originalmente, "poder do povo" ou "governo do povo". Em tese, a ideia é que todos os cidadãos participem igualitariamente nas decisões sociais. Isso já era abstrato o bastante, mas tendo em mente que este tipo de sistema funciona com base em votos, dá para resumi-lo desta forma sem prejuízos. Porém, algumas variações deste conceito passaram a ser frequentemente usadas nos últimos anos, e elas significam algo tão diverso do conceito original que deveríamos considerar abominável o seu uso.

"Vamos democratizar a mídia." 
"Queremos a democratização do acesso às informações."

Frases como estas acima demonstram bem o que digo. O termo "democratizar" é, na realidade, um belo eufemismo para "fazer o que nós queremos". Seria honesto dizer que este termo significa praticamente o oposto de sua referência original, pois quando se fala em "democratizar" a mídia o que realmente estão dizendo é estatizá-la ainda mais - visto que ela já funciona por meio de concessões estatais. Qualquer pessoa sensata ou com um mínimo embasamento político entende o real significado do termo, mas pessoas um pouco mais leigas ou a legião dos robôs da militância jamais parou para analisar, pois sua programação genérica os permite apenas reproduzir o que ouvem dos outros. E aí mora o perigo. A desvirtuação do significado real de democracia passa a se tornar uma bandeira, e como o seu uso é frequente e metódico, acaba passando despercebido ao longo do tempo. A repetição da mentira, como ensinou Goebbels (outro grande estrategista ideológico do mal), é realmente uma boa forma de torná-la uma verdade.

- Sociedade / Povo.

Estas duas palavras, que já são naturalmente muito abstratas, passaram a ter um significado muito mais restrito nas últimas décadas. Originalmente os termos se referiam, podemos dizer, a quaisquer pessoas que integrem o grupo social. Se mil pessoas vivem em um mesmo espaço delimitado como cidade, estado ou país, então estas mil pessoas são uma sociedade ou um povo. Só que isso passou a ser desvirtuado com o tempo. Primeiro, começaram a chamar de "povo" somente aqueles que eram a "maioria", e geralmente os populistas referiam-se ao "povo" quando falavam das pessoas pobres. Hoje, isso está ainda mais distante da realidade, pois o termo passou a significar, basicamente, "aqueles que concordam com o governo". Não é raro vermos petistas distinguindo pessoas de oposição daquelas que votam no PT. E nesta hora o maniqueísmo social entra em cena, pois divide-se de um lado a "elite golpista" e, do outro, o "povo", que obviamente são as pessoas que apoiam o partido.

Sociedade, por fim, é um conceito com uma distorção de maior abstração. Os grupos de militância passaram a usar este termo com cada vez mais frequência e sempre que se referem a algo que, em verdade, não podem provar. Por exemplo: "A sociedade é machista." Esta afirmação não requer prova, pois não se está acusando indivíduos, mas uma coletividade tão elástica, tão ampla, que é impossível sequer delimitá-la. E se você questionar estes militantes, eles dirão que "é assim que pensa a maioria na sociedade", pois não têm qualquer tipo de sustentação lógica. E se você quiser ser científico, mostrando a eles que as evidências negam a afirmação, e que em verdade algumas pessoas são machistas e outras não são, estes militantes dirão que você é alienado pela "mídia golpista", e o debate acaba por aí mesmo. O que vier depois disso é dispensável.

- Ciência

Ah! A ciência... Esta pobre criatura que sofre tanto.

É um fato indiscutível: quase todas as pessoas que usam apelos "à ciência" não possuem real conhecimento do que significa a ciência. Método científico, então, pode esquecer. Carl Sagan já havia deixado claro em vida o quanto as pessoas gostam de - com o perdão da palavra - cagar regra. Mas isso ainda não é uma desvirtuação, é apenas falta de compreensão ou conhecimento. A desvirtuação começa quando se usa "a ciência" para defender coisas que são cientificamente indefensáveis. E ocorre também o inverso disso, quando se nega verdades científicas, sabendo que são verdades, apenas por uma questão ideológica.

Nas militâncias ocorre os dois tipos de desvirtuação com quase a mesma constância. De um lado, os "militantes científicos". Eles criam um universo paralelo no qual o que dizem possui base em estudos, empirismo e lógica formal. Do outro lado, há os militantes quase religiosos, fanáticos, que reagem negativamente a qualquer argumento verdadeiramente científico. É como a lógica do feminismo moderno, que ignora qualquer dado estatístico em prol da causa ou, se não faz isso, simplesmente espreme as estatísticas para que elas digam aquilo que querem que seja dito. O vlogger Clarion chegou a fazer um vídeo interessante explicando exatamente como as feministas fazem esta "brincadeirinha" com os números.

A partir destes casos, "ciência" passou a ser um termo totalmente sem sentido. Dia e noite grupos ideológicos lançam suas pesquisas, todas elas viciadas, para comprovar aquilo que eles querem que seja verdade. Foi como aquele "erro" do IPEA, no ano passado, que lançou uma matéria acusando 63% da população brasileira de defender o estupro de "mulheres vulgares". Além de ser um tipo de pesquisa em nada científica, após terem desonestamente divulgado a manchete, fizeram uma notinha se desculpando por um erro de método... Na mesma onda, outros grupos tratam de invalidar forçadamente qualquer pesquisa real, científica, que vá contra aquilo que a ideologia prega. Mas, quais grupos fazem isso, afinal? Aqueles que justamente se esforçam por defender causas ilógicas, pautas irracionais e discursos vagos. Pois a política realmente tem disso, e muito. Pessoas compram ideias que parecem boas e que são bem vendidas, não ideias que "estão certas". De um modo geral, a natureza humana tende a convergir com aquilo que agrada, não com o que é certo. E é obviamente mais cômodo ignorar fatores que vão contra aquilo que você defende, visto que vivemos em uma era na qual palavras parecem valer mais do que os resultados.

- Conclusão.

Não é mero acaso que existam tão poucos ideólogos nas ciências exatas e tantos nas áreas artísticas ou não-científicas. A razão disso é bem simples. Desvirtuar conceitos da física, da química ou da matemática exigiria um esforço fenomenal e, ainda assim, seria bem difícil de realmente acontecer. Mas desvirtuar conceitos de economia, filosofia, mentir sobre fatos históricos e ignorar completamente qualquer estudo válido para defender uma teoria política falida, é tão fácil que absolutamente qualquer zé roela consegue. Afinal, pode-se facilmente ignorar evidências históricas, mas é impossível ignorar as leis da gravidade ou da inércia. Pode-se  facilmente misturar teoria do valor-trabalho com alguma tese sobre "os males do capitalismo na Somália", só para sustentar uma ideia maluca. Mas se você jogar umas gotas de água em cima de 100 ml de H2SO4, o resultado será uma reação química inevitável, e pouco importa a sua opinião.

Em poucas palavras, é fácil demais brincar com conceitos filosóficos, desvirtuá-los e até mesmo apresentar teses sem pé nem cabeça sobre os mais diversos temas sociais. E quando se tem objetivos políticos em mente - e sempre se tem, afinal - estas desvirtuações funcionam muito bem para tirar as armas do oponente e correr livremente pelo vale sem críticas e sem adversários à altura. É muito mais estratégico minar o adversário em silêncio do que partir para cima dele com as armas em punho. Um boxeador sobe ao ringue ciente de quem vai enfrentar, e esta é a natureza do esporte. Um político amador, diante das investidas do inimigo, nem sempre sabe com quem está lidando. E esta é a natureza da política.

Por isso a Guerra Ideológica é tão importante.

No próximo texto, falarei sobre Propaganda.

*Vinte anos considerando que houve uma perda de influência muito forte no fim dos anos de 1980, mas a verdade é que já existe guerra ideológica desde a Segunda Guerra Mundial, para citar um exemplo onde isso ocorreu mais formalmente.