16 de março de 2015

Em "defesa" do Bolsa-Família...

Não, meu caro. Este texto não é para defender o programa Bolsa-Família. A ideia aqui é expor um fato para aqueles que atacam o programa, mas ao mesmo tempo não percebem que ele é a pontinha do iceberg, e que o mesmo não chega a ser sequer um problema em face das reais problemáticas políticas que enfrentamos.

O que é o Programa Bolsa-Família, na prática? É uma forma que o governo tem de comprar milhares de votos por uma mixaria. E esta é certamente a pior parte, pois a realidade é que um monte de pessoas recebe basicamente o que paga de volta (leia este artigo). É como se fosse uma "restituição do imposto de renda" para os mais pobres; afinal, eles também pagam impostos, e sendo a maioria esmagadora da população brasileira, pode-se dizer que é o trabalho deles que sustenta o país, e consequentemente sustenta também todo o sistema, incluindo os políticos corruptos.

Mas, o que dizer dos "programas assistencialistas" para mega-empresários? O que dizer sobre o corporativismo? Não seria este um mal muito maior? Muitos liberais caem nessa, alguns por inocência e outros tantos por mero oportunismo. Mas a grande verdade é que defender empresários não tem nada a ver com ser liberal. Não foi isso que os pensadores liberais defenderam! Pelo contrário. Políticas corporativistas e toda essa história de governos darem "incentivos" para grandes empresas tem muito mais ligação com a linha keynesiana. Keynes defendia isso claramente, por isso ele é sem dúvida alguma um dos economistas mais conceituados e consequentemente seguidos por políticos e empresários mundo afora. Para Keynes, bastava que o governo estimulasse a economia, e isso significava claramente injetar dinheiro em bancos e empresas como forma de "investimentos"; o resultado teórico, segundo o próprio autor, é que isso manteria a economia girando sempre, e como o governo não produz nada, ele imprime dinheiro para pagar dívidas. Essa situação toda, na prática, gera uma máfia entre políticos e empresários mais poderosos. Nesta máfia o papel do empresário é ajudar o político em suas campanhas; o papel do político é ajudar o empresário concedendo benefícios fiscais, licitações, etc.

Quais os resultados práticos desta atuação?

A desvirtuação estrutural do processo político-democrático tão defendido pela esquerda; a completa anulação da iniciativa privada livre, uma vez que os grandes empresários obtém vantagens econômicas e podem concorrer de forma desleal, tudo com o aval da lei; a inflação, devido ao aumento da emissão de moeda. Tudo isso, no fim, leva simplesmente a um único problema geral que afeta a todos os cidadãos: Desvalorização de seu trabalho

O que é pior: Uma pessoa muito pobre recebendo uma mixaria, que provavelmente é menos do que ela pagou em impostos, ou um milionário poderoso obtendo ajudinha política do partido para manter sua empresa hegemônica no mercado? Se você prefere a segunda situação, tudo bem. Você tem direito à opinião própria. Mas você não é liberal, e provavelmente não é muito inteligente se não percebe o quanto isso é prejudicial à sociedade. 

Os parágrafos à seguir foram escritos por Ivanildo Terceiro, um jovem liberal do nordeste brasileiro:

"O Partido dos Trabalhadores está há aí 12 anos no poder e nunca lançou um projetinho para acabar com a guerra às drogas. Teve mensalão para passar a lei que reestruturava a previdência (lei boa por sinal), mas não houve movimentação alguma para comprar uma bancada que passasse a legislação contra homofobia.
O negócio fica mais estranho quando a gente lembra que o grande programa social criado pelo partido foi o fracasso conhecido como "Fome Zero", que o Bolsa Família foi ideia de um técnico liberal do IPEA (google "Ricardo Paes de Barro"), e que o volume de recursos liberados via BNDES para a Friboi, Oi, Eike, etc. se expandirem internacionalmente e falirem seus concorrentes (quando não faliram itself. risos) é muito maior que o de qualquer programa social. Isso quando não temos o governo tratorando terras de indígenas e camponeses para fazer hidrelétricas."

Apenas para contextualizar, é importante frisar que Ivanildo não defende políticas de esquerda como as citadas, também não está legitimando qualquer uma das ações citadas. Ele apenas aponta a incoerência entre o discurso de esquerda e a prática de esquerda. E porque achei pertinente citar isto? Pelo simples motivo de termos, entre os liberais, pessoas que também são insensatas e defendem seu ponto de forma ineficaz, para não dizer ultrajante. Quando digo para alguns liberais mais elitistas que Milton Friedman propunha medidas assistencialistas, e que o sistema de voucher é praticamente a mesma coisa que um "ProUni", eles fazem cara de espanto e ficam sem ter o que dizer. É claro que este tipo de "liberal", no fundo, não é liberal. É apenas uma pessoa sem estudo sobre o tema, que comprou o discurso da esquerda e acabou acreditando no espantalho de que "liberais não gostam de pobres"; aí, como alguns deles têm mesmo 'nojinho'* de pobre, acharam por bem se identificar como liberais. E são estas pessoas que se dizem liberais e atacam o Bolsa-Família como se fosse o pior problema de todos, quando é provavelmente o menor deles.

Acho importante ressaltar estas diferenças, não apenas para delimitar o perímetro mas, principalmente, para aderir a algo que defendo desde sempre: Os sensatos devem rejeitar os insensatos.


*Muita gente não tem, de fato, nojo de pobres. Mas prefere não tocar neles. Se é que você me entende.