22 de fevereiro de 2015

Por que não aderir ao fusionismo?

Para qualquer movimento político, a fusão com outros movimentos que sigam na mesma direção é uma ideia atraente e ao mesmo tempo perigosa. É preciso, antes de aderir a esta fusão, levar em conta os prós e os contras. Mas quando se trata de um movimento liberal ou libertário legítimo, aquele que de fato queira seguir os princípios da ideologia nobre em prol da liberdade, a fusão é quase sempre uma grande desvantagem.

Quando se olha pelo lado errado normalmente procura-se enxergar as vantagens desta ideia. Aí, acontece - não raramente - de um liberal legítimo olhar para Jair Bolsonaro e vê-lo criticando a esquerda, falando mal dos comunistas, se posicionando contra o PT (muito embora ele esteja no PP), e este liberal cai na infelicidade de pensar: "Ora! Ele é inimigo dos meus inimigos. Seria ótimo me aliar a ele!" Será? Provavelmente não é a melhor ideia. 

O liberal que defende e apoia moralmente Jair Bolsonaro (só pra citar UM exemplo) cai na armadilha mais torpe do jogo político: A concessão de princípios. Ao se aliar, mesmo que indiretamente, o liberal abre mão de alguns dos seus princípios fundamentais e acaba abraçando uma causa que já não é mais a sua. Porque é simplesmente impossível conciliar dois movimentos que tenham tantas divergências, sobretudo se estas divergências são essenciais e não apenas pontuais. Uma figura tal qual Jair Bolsonaro não é apropriada para se ter ao lado quando se pretende defender ideias liberais. Não combina! Ele não é liberal e, mais que isso, é mais um entre tantos políticos oportunistas que está apenas aproveitando a onda liberal para surfar nela. Ele é, praticamente, uma versão parlamentar do candidato à presidência Pastor Everaldo.

Este princípio - o de não aderir ao fusionismo - cai muito bem para quase todos os movimentos políticos, mas para qualquer movimento que lute verdadeiramente pela liberdade ele é praticamente uma regra. Isso por que todos os movimentos de outras vertentes possuem uma coisa em comum: defendem a coerção estatal em algum ponto, mesmo que seja específico. O conservador apoia que o Estado obrigue a sociedade a seguir alguma norma moral, algum princípio que ele defenda, ainda que a violação deste princípio não acarrete em prejuízos para ninguém. O nacionalista quer que o Estado proíba ou dificulte a entrada de imigrantes, além de uma infinidade de defesas da tutela estatal para quase tudo que permeia uma nação. O socialista quer que o Estado mexa na economia, quer vetar direitos civis básicos e, em muitos casos, até a liberdade de expressão. Para qualquer cultura sempre há a sua versão destas vertentes políticas, que na maior parte das vezes difere somente no conteúdo e quase nunca na forma. Somente a defesa da liberdade é válida para qualquer contexto e aplicável em qualquer cultura, pois esta linguagem, que está longe de ser meramente um apanhado de sofismas e retórica barata, é voltada a um princípio fundamental e inegável: Toda pessoa tem direito à auto-propriedade; toda pessoa tem direito a adquirir suas próprias coisas; toda pessoa tem o direito de usufruir daquilo que é sua propriedade. Isso implica em dizer que você jamais terá o legítimo direito de ferir, usar ou roubar outra pessoa, bem como jamais terá o legítimo direito forçá-la a fazer aquilo que ela não quer. Há como negar tal princípio? Se você apenas tentar negar este princípio, você já está errado.

No atual movimento liberal brasileiro o que mais se vê é isso. Liberais incorrendo no grave erro de se associarem aos conservadores e, não contentes, eles se associam aos conservadores da ala histérica do conservadorismo. Muitos sofrem quase de uma paixão enrustida pelo auto proclamado filósofo Olavo de Carvalho, uma das figuras mais histéricas da política atual, ficando atrás somente dos caricatos da new left. A direita tacanha, que já foi alvo de críticas até mesmo do ex-liberal Rodrigo Constantino, é o movimento político que presta o mais excelente serviço em prol da esquerda. Pois ninguém é mais serviçal do seu adversário do que aquele que comete falhas e deixa as provas no caminho a todo instante. É através destas figuras que a esquerda consegue rotular o movimento liberal com as piores infâmias e, às vezes, com certa razão. Por isso é importante que movimentos liberais não entrem nessa espiral. A história mostra que o liberalismo já esteve muitas vezes à beira da morte e a causa foi justamente esta!