5 de janeiro de 2015

Os sensatos devem rejeitar os insensatos

Sensatez, um sinônimo de prudência e circunspecção, muito provavelmente é a característica mais desejável nas mais diversas áreas humanas. Em política, não é diferente. O problema é que, em se tratando de política, existem duas formas de sensatez: a moral e a estratégica. Sensatez moral é agir com polidez, ponderação, evitar o conflito e partir para ele apenas quando for inevitável. Mas a sensatez estratégica diz respeito a um jogo muito intrincado, que está longe de ser algo dominado pelos liberais atualmente. É por isso que, em política, e principalmente no movimento liberal, os sensatos precisam rejeitar os insensatos.

Sabe-se que o Liberalismo esfriou bastante nas décadas passadas e os resultados disso são catastróficos. Este quadro deu espaço para que a esquerda não apenas crescesse, mas para que ela usurpasse as bandeiras liberais nas lutas por liberdades individuais, conforme foi exposto neste texto. Entretanto, de uns anos para cá, o movimento liberal vem ganhando forças no Brasil e surgem, a toda hora, grupos de discussão, debates, associações e institutos. Há um mercado para isso. Historicamente, nunca tivemos um partido liberal. A imprensa é dominada por uma mentalidade estatista há muito tempo. Toda a cultura latino-americana foi moldada para que não houvesse praticamente nenhuma representatividade neste sentido. Agora, as coisas começam a mudar. Principalmente por este motivo - o de o movimento liberal estar engatinhando - precisa-se ter cuidado redobrado.

Lembrem-se das eleições do ano passado. Lembrem-se do candidato Pastor Everaldo. Ele surgiu dizendo que defendia "livre mercado", "liberdades individuais", entre outros lugares-comuns do pensamento liberal. Por sorte, ele se entregou rápido e deixou escapar suas pérolas. Ficou muito rapidamente evidenciado que de liberal ele tinha apenas o fingimento. Aquilo foi puro marketing de campanha e, se tivessem trabalhado melhor com o candidato, seria possível ele ter recebido votos de mutos liberais ingênuos que engoliriam o discurso. 

Jair Bolsonaro é outro exemplo perfeito. Este nem sequer alega ser um liberal. Ao menos, que se tenha visto, ele nunca disse algo nesse sentido. A anatomia de uma figura como ele é interessante, pois trata-se de um pseudo-conservador estatólatra. Porque "pseudo"? Porque a mentalidade estatólatra e legalista foge bastante do escopo do pensamento conservador, a exemplo de figuras como Ronald Reagan ou, no Brasil, Reinaldo Azevedo e Luiz Felipe Pondé. Um liberal que defenda Bolsonaro abertamente e irrestritamente, apenas pelo fato de ele fazer uma oposição visceralmente teatral à esquerda, cai no conto do fusionismo e sem querer entrega munições aos nossos opositores. Ademais, há de se questionar o que diabos uma figura tão forçosamente opositora ao governo faz em um partido que está na base aliada do PT! No caso de Bolsonaro, não se pode usar nem a desculpa da legenda. Ele receberia votos em qualquer partido. Há de se questionar, ainda, o que faz um homem tão moralista e auto-proclamado ético no mesmo partido de Paulo Maluf! Tudo bem, pode-se reconhecer que a oposição que ele faz ao PT é interessante e movimenta a casa. O melhor, mesmo, seria que houvesse mais gente lá, fazendo oposição como ele faz, mas de um jeito mais eficiente e prudente. Até porque a realidade é uma só: Jair Bolsonaro só recebe tantos votos porque é a única oposição conhecida. É praticamente eleito por votos de exclusão dos anti-petistas.

Para quê citar estas duas figuras emblemáticas da política brasileira? Para apontar os erros de muitos de nós, liberais. É preciso rejeitar os insensatos! É isso ou criaremos falsas dicotomias políticas para sempre, nas quais ficaremos reféns de eleger o melhor entre os piores. É claro que, na falta de opção, eleger o melhor entre os piores ainda é a única saída, estrategicamente falando. Mas isso não significa que tenhamos que alimentar este sistema. Os liberais precisam se unir, sim, mas sempre com os sensatos. E se houverem poucos sensatos, estes deverão tratar de passar a sensatez àqueles que forem insensatos e ainda estiverem passíveis de cura. O que não pode é o movimento liberal se misturar com pessoas e bandeiras contraproducentes à causa. Também não se pode permitir que o movimento renasça com fusões de outros movimentos que não possuem nenhum interesse nas causas liberais.

Um exemplo comum de pseudo-liberal, ou de liberal insensato, para encaixar melhor, é aquela pessoa que defende qualquer ação feita por uma empresa ou pensa que, por querermos menos Estado, necessariamente devemos defender qualquer coisa que seja contrária ao Estado. Mas, não é bem assim! A ética e a moral não são monopolizadas pelo Estado. Elas partem da sociedade, da civilização, às vezes da religião ou do indivíduo, em último caso. E no caso de "defender empresários", este é o liberal insensato que vestiu a carapuça da esquerda contra o movimento. Ele comprou a ideia de que liberalismo é um movimento em prol dos grandes negócios, das empresas, etc. Esse tipo de conduta deve ser rejeitada pelos liberais sensatos, pois o liberalismo é um movimento voltado aos indivíduos, nunca a instituições ou corporações. E um liberal sensato, diante de tal comportamento, tem duas opções: Ele pode execrar o indivíduo, caso perceba que tal comportamento ocorre por desonestidade, ou pode ensiná-lo, se perceber que o comportamento ocorre por ingenuidade. Mas, de modo algum ele deve permitir a associação de sua imagem com a de alguém que deliberadamente deturpe o movimento. E isso tem acontecido com tanta frequência que, embora óbvio, tornou necessário estes dizeres que aqui estão escritos.

Na prática, trata-se de não nos associarmos com qualquer figura apenas por fusionismo ou por empatia. Não se deve misturar as coisas. O movimento liberal que ressurge, agora, precisa se auto-lapidar e se organizar, para que num futuro próximo haja bastante homogeneidade.